Prosa@Poesia

Che Guevara

Dom Pedro Casaldáliga Publicado em 16.10.2008

*

E, por fim, me chamou também tua morte
desde a seca luz de Vallegrande.
Eu, Che, prossigo crendo
na violência do Amor: tu próprio
dizias que “é preciso endurecer-se
sem perder nunca a ternura”.

Mas tu me chamaste. Também tu.
(Os temas compartilhados, dolorosos.
Os múltiplos olhares moribundos.
A inerte compaixão exasperante.
As sábias soluções à distância...
América. Os pobres. Esse Terceiro Mundo,
quando não há mais que um mundo,
de Deus e dos homens!)

Escuto, no transístor, como te canta
a juventude rebelde,
enquanto o Araguaia pulsa a meus pés, como uma artéria viva,
transido pela lua quase cheia.
Apaga-se toda luz. E é só noite.
Rodeiam-me os amigos distantes, vindouros.
(“Pelo menos tua ausência é bem real”,
geme outra canção... Oh! a Presença
em Quem eu creio, Che,
a Quem eu vivo,
em Quem espero apaixonadamente!
... A estas horas tu sabes bastante
de encontros e respostas.)

Descansa em paz. E aguarda, já seguro,
com o peito curado
da asma do cansaço;
limpo de ódio o olhar agonizante;
sem mais armas, amigo,
que a espada despida de tua morte.
(Morrer sempre é vencer
desde que um dia
Alguém morreu por todos, como todos,
matado, como muitos...)

Nem os “bons” - de um lado –,
nem os “maus” - do outro –,
entenderão meu canto.
Dirão que sou apenas um poeta.
Pensarão que a moda me ganhou.
Recordarão que sou um padre “novo”.
Nada disso me importa!
Somos amigos
e falo contigo agora
através da morte que nos une;
estendendo-te um ramo de esperança,
todo um bosque florido
de ibero-americanos jacarandás perenes,
querido Che Guevara!

 

Antologia Retirante – poemas
Dom Pedro Casaldáliga
Editora Civilização Brasileira – edição 1978