Prosa@Poesia

A prostituta

Dom Pedro Casaldáliga Publicado em 05.09.2008

*

Como uma dor repassada de paciência,
ela é morena escura.
A franja limita no olhar
com uma leve cicatriz antiga.
E uma cruz de ouro falso pende sobre o peito,
sobre o forte lilás do vestido.
Leva o liso cabelo de índia solto.
(As bonecas baratas de meus tempos de menino
se vestiam como ela.)

Será o relógio-pulseira
de um rico esportista-bandeirante?
Será de um pobre, duro, caminhoneiro?

Ela se senta na borda, ausente.
Vem, à hora de comer, à popa;
dou-lhe um copo d'água;
e retorna, discreta.

Maria Madalena, no barco de Pedro,
se sentava aos olhos do Senhor,
e o Senhor a mirava.

A ribeira é mais tenra
que os vasos de arroz da quinta-feira santa.
E o rio é como um óleo,
sob as muitas nuvens apeadas.

 

Antologia Retirante – poemas
Dom Pedro Casaldáliga
Editora Civilização Brasileira – edição 1978