Prosa@Poesia

Uma senhora louca de amor

Adalberto Monteiro Publicado em 06.03.2008

Com tua voz firme,/com altivez, mas com a humildade/de uma embaixatriz de uma nação oprimida,/expões ao dono da venda, aos vizinhos,/explicas que não tens dinheiro/mas tens as mãos calejadas/e que não és uma mendiga,/e que não é possível/que os teus filhos/não tenham direito,/pelo menos, a uma tigela de arroz.

 

Minha canção
é tua, mulher trabalhadora,
mãe,
heroína de meu país.

Se aproxima
a hora vital do almoço
e tua casa é um ninho
de filhotes famintos,
e tu, absolutamente, sozinha.
Num segundo abandonas o tanque,
as roupas.

E já te vejo,
louca de amor,
brava como uma leoa,
correndo nas ruas da vila,
as pernas azuis de varizes...
Batendo de porta em porta,
com teu vestido de chita-azul,
teus olhos pretos,
pequenos,
comuns,
mas extremamente brilhantes.
Com tua voz firme,
com altivez, mas com a humildade
de uma embaixatriz de uma nação oprimida,
expões ao dono da venda,
aos vizinhos,
explicas que não tens dinheiro
mas tens as mãos calejadas
e que não és uma mendiga,
e que não é possível
que os teus filhos
não tenham direito,
pelo menos, a uma tigela de arroz.

Argumentas, negocias, lutas,
defendes com unhas e dentes
a vida dos teus.

Te envolvo de carinho
com minha canção.
Os meus versos
são teus:
linda senhora.



Os Sonhos e os Séculos – Adalberto Monteiro
Círculo Azul Livros – Goiânia – 1991.




Adalberto Monteiro, Jornalista e poeta. É da direção nacional do PCdoB. Presidente da Fundação Maurício Grabois. Editor da Revista Princípios. Publicou três livros de poemas: Os Sonhos e os Séculos(1991); Os Verbos do Amor &outros versos(1997) e As delícias do amargo & uma homenagem(2007).