Prosa@Poesia

Os Doze

Aleksandr Blok Publicado em 19.10.2007

*

1

Noite negra.
Branca neve.
Vento, vento!
Nem um só homem se aguenta de pé.
Vento, vento
por este mundo de Deus!

O vento faz girar
a branca neve.
Há gelo debaixo da neve leve.
Resvaladios, pesados,
deslizam os passos
na rua.... Ah, coitado!

Entre duas casas
estenderam uma corda.
E na corda um cartaz:
Uma anciã chora
não percebe o que quer dizer
aquele cartaz.
E porquê um cartaz tão grande?
Quantas peúgas se podiam fazer para a garotada
que tem os pés gelados...
A velha, como uma galinha
espantada, atravessa um monte de neve.

Vento que corta!
Não aguentas o frio!
E um burguês numa esquina
esconde bem o nariz.

Mas quem é este? De cabelo comprido
e diz em voz baixa:
<É o fim da Rússia!>>
É talvez um escritor
ou um orador...

E aí vai um homem de saias,
esconde-se atrás do monte de neve...
Por que estás hoje triste,
camarada pope?

Recordas como antes
andavas de peito saído
e a cruz te fazia brilhar
a barriga aos olhos do povo?

Uma dama vestida de astracã
vira-se para outra:

Nisto escorrega
e – pumba! – cai estatelada!

Ai, ai!
Vamos ajudá-la!

O vento é alegre,
alegre e cruel.
Agita as roupas
dos caminhantes,
rasga, aperta e agita
o grande cartaz:
...
E traz-nos estas palavras:

... Fizemos uma reunião...
... naquele edifício...
... discutimos...
e decidimos:
Ir prò quarto dez rublos,
dormida vinte e cinco...
... não pode ser por menos...
Vem daí..

Anoitece.
Esvazia-se a rua.
Só ficou um mendigo
curvado
e o vento assobia... 

Eh, pobre homem!
Anda,
abraça-me...

Quero pão!
E depois quê?
Fora!

O céu está escuro.
Raiva, uma triste raiva
ferve nos peitos...
Raiva negra, raiva santa...

Camarada! Fica
de olhos bem abertos!

2

Voa  a neve e passeia o vento.
E os doze homens avançam.

Correias negras nos fuzis,
e à volta muitas luzes...

Entre os lábios um cigarro,
o chapéu enfiado
e nas costas um ás de ouros!

Liberdade, liberdade!

Ah, ah, vão sem a cruz!

Tra-ta-ta!

Faz frio, camarada, faz frio!

 Liberdade, liberdade,
ah, ah, vão sem a cruz!
Kátia está ocupada com Vanka,
e está ocupada com quê?...

Tra-ta-ta!

Há mil luzes à volta...
Nas costas a correia do fuzil...

Firme o passo revolucionário!
O inimigo nunca dorme!
Pega sem medo no fuzil, camarada!
Dispararemos uma bala à Santa Rússia!

A reaccionária,
a das isbás,
a do cu grande!

Ah, ah, vão sem a cruz!

3

Assim é a nossa juventude:
servir na guarda vermelha,
servir na guarda vermelha,
e perder as suas cabeças loucas!

Ah, tu, pobre,
doce vida!
Dólman rasgado
e fuzil austríaco!

Para que todos os burgueses sofram,
lançaremos fogo ao mundo,
fogo ao mundo que nasceu com sangue.
Senhor, a tua bênção!

4

A neve gira, o cocheiro grita
com Vanka e Kátia no trenó!
E na berlinda levam
lanternas eléctricas...
Ah, ah, arre!...

Com o capote de soldado rasgado
tem cara de parvo.
Enrola o bigode preto,
torce-o
e diverte-se...

Aqui está Vanka, de costas largas!
Aqui está Vanka, o linguareiro.
Abraça a tua Kátia, convence-a...

Ela inclina a cabeça para trás,
os seus dentes pequenos brilham como pérolas...
Ah, tu, Kátia, Kátia minha,
bochechuda!

5

Tens uma cicatriz no pescoço,
Kátia, a cicatriz de uma facada.
No peito, Kátia,
tens uma unhada fresca!

Eh, eh, dança!

Que pernas tão bonitas!

Levavas roupa de rendas;
por que não agora?
Fodias com oficiais,
por que não agora?

Fode, fode!
O coração salta-me no peito!

Recordas, Kátia, aquele oficial,
que não se salvou da navalha...
Não te lembras dele?
Ou não tens a memória fresca?

Eh, eh, refresca-a,
mete-me na cama contigo!

Polainas cinzentas levavas,
e tomavas chocolate,
ias prà cama com cadetes...
Agora vais com soldados?

Eh, eh, peca, peca!
Vais sentir a alma mais leve!

6

Outra vez se achega o cocheiro,
voa, grita, vocifera...

Alto, alto! Andriukha, socorro!
Petrukha, corre atrás dele!

Ta-tarara! ta-ta-ta-ta!
O pó de neve voa para o céu!...

O cocheiro foge com Vanka...
Uma vez mais carrega o gatilho...

Tra-tarara! Vamos dar-te uma lição,

o que é andar com a miúda de outro!

O canalha escapou-se! Verás
Como amanhã acabo contigo!

E Kátia, onde está? Morta a deixei,
com uma bala na cabeça!

Estás contente, Kátia! Não se mexe...
Jaz morta sobre a neve!...

Firme o passo revolucionário!
Não descansa o inimigo!

7

E de novo avançam os doze,
às costas levam fuzis.
E só ao pobre assassino
Não se lhe vê a cara...

Cada vez mais depressa,
os passos vão-se avivando.
Leva um lenço ao pescoço
e não se pode aguentar...

Muitas noites embriagadas
passei nos seus braços...>>

< dos seus olhos de fogo,
por aquele sinal vermelho
na sua coxa direita,
matei, homem fraco,
e matei-a por ciúme... ai!>>

<Tu, Petka, és uma mulher?>>
Queres arrancar a alma
e mostrá-la a todos? Fá-lo!


<<É preciso que te domines!>>

<de mimar a miudagem.

É o momento de uma carga
mais forte, querido camarada!>>

E Petrukha demora
a pressa dos seus passos...

A cabeça levanta
e de novo se alegra...

Eh, eh!
Divertir-se não é pecado!

Fechem as casas,
porque hoje haverá saque!

Abram as adegas,
hoje divertem-se os pobres!

8

Ai, tu, que amargura!
Que morte
tenebrosa!

Rico tempo
vou passar, vou passar...

A cabeça
vou coçar, vou coçar...

E pevides de girassol
vou comer, vou comer...

E a navalha
farei servir, farei servir...

Tu, burguês, foge como um pardal!
Beberei o teu sangue,
por causa desta rapariguinha
de sobrancelhas negras...

Que descanse em paz, Senhor,
a alma da sua serva...

Que aborrecimento!

9

Não se ouve o ruído da cidade.
Sobre o Nevá o silêncio é pesado.
Já se foi o guarda nocturno:
ao gozo, malta, sem vinho!

Numa esquina está um burguês
com o nariz tapado.
E um cão mete-se-lhe entre os pés,
sarnoso, indeciso, com o rabo entre as pernas.

O burguês, como o cão esfomeado,
está indeciso e calado.
E o velho mundo, como um cão sarnoso,
está atrás dele com o rabo entre as pernas.

10

A tempestade põe-se furiosa,
ah, que tempestade de neve!
A dois passos não se vê nada,
com esta tempestade!

A neve gira como num funil,
a neve levanta-se como uma coluna...

o ícone dourado?
Que falta de sentido, também,
pensa bem,
ou não tens sangue nas mãos
por amor da tua Katka?>>

O inimigo está cada vez mais perto!

Avante, avante, avante,
povo trabalhador!

11

... E sem nenhum nome sagrado,
os doze seguem avante.
Estão dispostos a tudo,
 sem nada lamentar...

Os seus fuzis de aço apontam
contra o inimigo que não se vê...
por ruelas escuras,
onde a neve cai feroz...
E da neve mole
não podem sair as botas...

A bandeira vermelha
os olhos lhes fustiga.

Ouvem-se
os seus passos ritmados.

A qualquer momento pode despertar
o inimigo cruel.

E a neve caía nos olhos
dias e noites
sem parar...

Avante, avante,
povo trabalhador!

12

... E avançam com passo seguro...
<É apenas o vento na bandeira vermelha
que ondeia à frente...

À frente há um monte de neve gelada.

Só um cão vadio esfomeado
aparece a coxear...

E tu, velho mundo, como um cão sarnoso,
desaparece ou desfazer-te-ei!>>

... Mostra os dentes como um lobo faminto,
não fiques de rabo entre as pernas,
cão sarnoso, cão vadio...

<escondendo-se atrás das casas?>>

<Vale mais que te entregues vivo!>>

Tra-ta-ta! E só o eco
ecoa das casas
Só a tempestade com uma risada ampla
estala na neve

Tra-ta-ta!
Tra-ta-ta!

E assim vão com passo guerreiro,
atrás do cão esfomeado,
e à frente a bandeira sangrante,
 e invisível na neve
 e imune às balas,
através da tempestade que aparece, terna,
espalhando um tesouro de pérolas de neve,
 com uma coroa de rosas brancas
- à frente vai Jesus Cristo.

 

Janeiro de 1918

 


 

Poetas Russos
Tradução, prólogo e notas de Manuel de Seabra
Editora: Relógio D' Água Editores - edição 1995