Prosa@Poesia

A caixinha de Alice

Joana Rozowykwiat Publicado em 13.02.2007

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      Alice tinha uma caixinha que o avô dela mesmo fez, quando derrubaram o ipê bem antigo da frente da casa em que eles moravam. Hoje nem mais casa tem, que construíram um edifício daqueles muito altos. Ele, o avô, aprendeu a fazer pequenos serviços de marcenaria ainda novo, depois virou economista e não teve mais tempo para nada.

      Mas, querendo guardar a lembrança não só da árvore, mas da sombra, das folhas pelo chão e de suas meninas compondo a paisagem, dedicou-se à elaboração da caixinha. Pegou a madeira que ainda servia, revirou velhas gavetas para encontrar as ferramentas de trabalho e empenhou algumas horas de sua vida àquele mimo, que Alice dava tanto valor.

      Era uma caixa simples, sem muitas complicações - abria e fechava. Tinha um acabamento bem feito, mas nada de muito elaborado. Só que Alice nunca havia colocado nada lá dentro, porque todas as recordações que a caixinha guardava não precisavam ficar trancadas em seu interior. Na verdade, aquele presentinho é que devia estar em algum baú de instantes perfumados.

      Acontece que um dia Alice ficou muito triste porque o seu avô agora fazia parte do álbum de memórias delicadas que ela carregava em algum lugar entre a garganta e o estômago, porque ora incomodava em um lugar, ora em outro. Entre bagunças e objetos reencontrados, a menina que já estava grande ia analisando quais as coisas do avô que valeria a pena ter para sempre.

      Viu móveis, relógios, roupas, livros, algumas antiguidades. Depois achou poucos dólares dentro de uma carteira de viagem, várias cartas possivelmente de amor e uma pasta cheia de fotografias. Revirou, emocionada, um passado tão familiar e um outro desconhecido porque ainda nem sonhava em nascer quando as fotos eram pintadas daquele jeito.

      Foi então que reconheceu o avô em um jovem rapaz com uma pá, em frente à antiga casa do ipê. Ainda não havia ipê, é verdade, afinal de contas era ali apenas uma mudinha, que acabara de ser plantada por ele. Aquela fotografia era tudo o que queria de herança. E foi assim que a caixinha de Alice passou a guardar alguma coisa. Protegia o carinho de uma menina pelo seu avô.