Prosa@Poesia

Sobre vermes e coisas fétidas

Joana Rozowykwiat Publicado em 12.12.2006

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      Eu escrevo esta carta porque não valho nada. Porque cansei de esperar que vocês adivinhem o que penso. Vocês nem prestam atenção em mim. Não percebem toda a amargura de um instante que ressurge fresco e com hálito de pêssego em mim. Ninguém se importa com a chuva que corre ladeira abaixo nas minhas veias, lavando à força toda imundície das noites sujas e me renovando a cada amanhecer.

      Sou assim meio atalho, meio desvio. Eu corro para chegar e choro porque passei. Mas vocês não notam que eu sobrevivo. Eu resisto à frieza do olhar dela, que nem quer saber quem eu sou. Ela é linda e feita de neve. Mas eu vejo quando ela está só e tem medo de parecer fraca. É uma fortaleza de pedras ocas. Minha redoma também é uma bolha de sabão. Estou aqui, podem entrar.

      E vocês trazem a cerveja e fazem a festa. Deixam a bagunça pra eu arrumar. E ninguém vê que eu tenho ressaca e preguiça de resolver meus problemas. Eu acordo bêbado e nem penso mais nela, nem em vocês. Lavo as unhas, corto o rosto e penteio um sorriso. Mas debaixo da minha pele, dos meus pelos e da minha calma, há ainda um grito engolido. Bebo água e dissolvo a areia na minha garganta.

      Eu escrevo cartas de amor como quem lê Paulo Coelho. Imagino uma afinidade tão íntima com os clichês da tevê, que nem penso se sou mesmo aquele que fala tanta besteira. Conheço um universo de sentimentos, mas só de ouvir falar. Não importa, agora são meus, porque quem cria merece consideração. Eu eduquei minhas sensações, amestrei meus instintos e por isso não me joguei contra ela e descobri se existe sol naquele país distante. Mas se quiser, me rebelo.  

      Fico em pedaços, viro pó. Recolho-me num canto da sala e já sou um chumaço de algodão branquinho. E vocês nem sabem que eu era nada até um segundo atrás. Eu não sentia nada. Ou melhor, eu sentia tudo, que pior que não sentir é não conseguir escolher como ficar, não ter uma forma.

      Às vezes, acho que sou bom, sou humano. No entanto vivo nas trevas, vomito lama e restos da nossa conversa de ontem. Vocês sabem, essa é uma carta de amor. Eu devo muito a vocês, aos nossos papos e nossos silêncios. Parte de mim é vocês. Provavelmente a parte melhor, pois é a fatia que ignora as coisas. Tanto as boas quanto as fedidas.

      Estou apodrecendo de tanta consciência. Mas amanhã, quando meus olhos estranharem tanta luz, e eu lembrar que todo dia é assim e eles enfim se acostumarem, serei novamente de ferro. E serei uma planta carnívora que sonha morar na neve. E comerei tudo que se aproximar. Porque eu a quero só para mim. Mas se ela me deixasse fazer carinho nos seus cabelos de fita dourada, eu permitiria qualquer coisa. Até que ela voasse mariposa.

      Prefiro as pessoas alegres, mas me apaixono pelas azuis. Enjôo logo e depois tenho saudade. Eu perdôo e telefono às três da matina. Vocês é que nunca me perdoam e desligam sem entender minha euforia. E sou cinzas mais uma vez. Até o próximo domingo na praia, até a próxima gargalhada de Nanai, até vocês me olharem com ar de surpresa porque ainda não me refiz de aço.

      Vocês são meus amigos. Temos muito tempo pela frente para dizermos devaneios e palavras enraizadas. Agora ainda estou derrubado, com ares de quem vai ter dor de cabeça. Então vem essa lucidez absurda e eu enxergo toda a verdade sobre vermes e coisas fétidas. Vejo estas sombras nefastas, vejo vocês, que não vêem nada. Não me percebem tão confuso. Eu não sou um adolescente problemático, sou mais uma criança medrosa. Acendam a luz que os monstros não me deixam dormir. Mas acordarei homem decidido e seguro, de barba feita e olhar desconcertante. Essa é uma carta de amor. Vocês sabem, de amor a mim.