Prosa@Poesia

Ao legado de João Amazonas

Adalberto Monteiro Publicado em 27.05.2017

Poesia de Adalberto Monteiro, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois, em homenagem ao dirigente comunista João Amazonas, morto em maio de 2002.

Foto: Ilustra por Cezar Xavier

Sem ti
Depois da notícia de tua grande morte,
Os teus camaradas,
Reagem igual à árvore
Que sente que o golpe do machado
Decepou não o principal galho,
Mas a raiz mais funda
E fecunda,
Embora não possam clamar da sorte,
Pois tua vida, longa e prodigiosa,
Lembra o rio
Que banha o teu nome.
Acontece que uma raiz desse naipe,
Ao perecer já deixou outras tantas.
Então, a árvore
Mesmo sem ti
Mantém-se ereta.
Venta um vento bravo
E ela, sempre flexível, se verga
Não se quebra.

Teu partido, alimentado pelo legado
De tua geração de bravos,
É um animal visceral
Por realizações e combates.
Cravado no dorso da serpente
Recebe contra si esguichos de veneno,
Mas segue seu destino:
Jamais abdica de seu elo com o povo,
E dissemina o ideal da foice e do martelo.
Teu partido é uma árvore frondosa:
A copa busca cada vez mais o alto,
A sombra rejuvenesce os exaustos,
As flores injetam esperanças nas almas
E as frutas saciam a fome das crianças e das aves.
Os galhos são escudos, lanças e espadas.
As raízes se espalham
Pelo chão das fábricas,
Pelo coração do povo
E se projetam
Ao fundo do solo pátrio.

Os teus camaradas,
Põem-se a estudar teus pensamentos,
Os teus passos; embora,
Como ensinaste
Não ficam a celebrar teus retratos.
Folheiam livros, jornais, revistas,
Passam em revista a tua obra
De onde jorra seiva viva.

Um homem pequenino,
Os cabelos
Tinham a cor das nuvens
Que cobrem os cimos.
A voz era suave
E alcançava o longe.
Certa vez, em 1984, ele discursava;
No vasto auditório
Era tanto o silêncio
Que até se podia ouvir
O ruflar das asas de uma mosca...
Ele argumentava que era
Inadmissível negar a legalidade
Justamente a um Partido de tantos mártires
Da luta pela liberdade.
Suas palavras não se impunham
Pelo tom alto,
Elas tinham o dom do alimento.

Não cabe santificar
Um homem tão humano,
Uma existência prenhe de
Acertos, realizações, enganos.
É que pequenino soube ser um gigante.
Entre as estrelas de brilho intenso de seu tempo,
É a que mais permanece e se reconhece,
Porque se pôs com os seus companheiros
A reunir e unir os operários,
A construir dia a dia, greve a greve,
Eleição a eleição, luta a luta,
Livro a livro,
Uma fortaleza inteligente, viva e pulsante
Que se apresenta ao combate:
Ferro, aço, plumas, tubérculo, ipê flamejante.
Uma fortaleza capaz de enfrentar
A violência e a sabedoria milenar
De oprimir e explorar
Dos dominantes.

As estrelas se fazem
Mais belas
Se ao invés de se contentarem
Com o brilho solitário,
Põem-se ao trabalho de estender trilhos
No chão escuro e curvo do universo,
E agregadas em comboios,
Puxadas por locomotivas movidas a fogo,
Fazem surgir no céu carrosséis luminosos.

II

Num mundo dividido,
Desde cedo tomou partido.

Houve muitas derrotas, umas tantas vitórias
E uns poucos empates.
Golpes, revoluções, democracias,
Ditaduras, guerrilhas, exílios, tempestades,
E alguma bonança – esse ziguezague que a história ama.
Aos noventa anos ele ainda se lembraria
Daquela madrugada – a liberdade e a lua em eclipse –,
E ele hasteando, aos vinte anos, ao risco da vida,
No alto da mais alta mangueira de Belém,
A bandeira vermelha da qual jamais se afastaria.

Operário pobre
Teve a fortuna de sete vidas:
Mil vezes os opressores festejaram sua morte,
Mil vezes os oprimidos festejaram suas realizações,
Mil vezes a pedra rolou ao pé da montanha
Mil vezes voltou ao cume.
Os que sugam a seiva alheia,
Mil vezes proclamaram a
Eternidade dos pesadelos
E mil vezes o invento a que ele dedicou o melhor de si
Repôs o sonho na consciência dos homens.

III

Há homens que, após terem comandado,
Uma centena de cruentas batalhas,
Se rendem numa refrega ordinária.
Há outros que a tragédia os aniquila
Injetando-lhes veneno sem antídoto.
Outros, de duvidosa sorte,
Têm breve existência.
Poupados de riscos, situações extremadas
Morrem belos.
Mas há outros
Que a vida lhes dá
O privilégio e a prova de uma estrada longa.
Por tanto caminho percorrido
Não são soberbos
Nem vaidosos,
Mas têm a altivez e o orgulho
Da classe que construiu
Muito do que há de bonito e útil no mundo.

IV

Em 1962,
Pôs-se com seus companheiros
A reconstruir o navio
Sem o qual os oprimidos
Não fazem a travessia
Do mar que os separa
Do novo dia.

Depois veio uma época terrível,
A serpente era tão perversa
Que para enfrentá-la,
Além dos olhos gastos de leitura,
Mais do que os dedos calejados
De empunhar a pena,
A história exigiu
Que se empunhassem fuzis.
Então mãos veteranas e juvenis
Embrenharam-se na Amazônia,
A cidade irmanou-se com o campo,
E naquele oceano verde
Foi aberta uma clareira,
E na escuridão da ditadura
Foi acesa uma lareira.
Por quase três anos,
O Araguaia virou uma estrela
Que emitia sinais de luz.
Custou muito sangue
Mas o seu brilho
Incutiu na alma brasileira
A certeza de que Roma
Cairia mais uma vez.

E veio a anistia e a luz do dia,
E mesmo que derrotados
Os reacionários diziam em tom de zombaria:
– É bom que se legalize o Partido Comunista
Para que se veja sua pequenez.
Muito golpeado por ter tido a ousadia
De enfrentar a tirania,
O Partido se refez com a rapidez
Do verde que se alastra pela caatinga ou pelo cerrado,
Depois das primeiras águas.

V

E veio o fim da União Soviética
E veio um tremor de terra,
Um abalo sísmico
No mundo das idéias.
Os opressores proclamaram:
—A pátria sem amos,
Dissolveu-se em bruma
Ao alto as taças de champanhe:
Um brinde ao fim da história
E vida eterna ao czar!

Neste tempo,
Mesmo sob a luz do meio-dia
Os pesadelos povoavam
Os olhos dos homens,
O mapa-múndi dos sonhos
Reduziu-se a uma borra de sangue.
Bandeiras rotas, roídas pelos ratos,
Voltaram aos mastros pelas mãos
De uma multidão entorpecida
Embora fosse justa a ira.

Ele convocou
Os seus camaradas
A vasculhar
Os escombros
Dos países, outrora belos,
Então soterrados.
Tão logo foi baixando a poeira
Foi ficando claro
Como o cupim corroeu
As vigas,
O porquê da aroeira ter se transformado
Em madeira ordinária.

Revelava-se uma vez mais
Um homem de ação e pensamento.
Um combatente qualquer fosse o front.
Explicitou seus erros
E os de seu tempo,
E orientou o Partido
A se fortalecer
Com as lições dos equívocos.
(Ele se assemelhava
Ao boxeador que absorve
E devolve os golpes que recebe.)

Ele rechaçou os covardes
Que ante a derrota passageira
Bateram-se em retirada,
Jogando na lama os estandartes.
Em busca de passaportes
Para os bailes de gala, esses párias,
Retiraram às pressas da bandeira
Os símbolos dos que trabalham.

Era, então, 1992,
E o Partido Comunista do Brasil
Realizava, sob um breu de dúvidas e incertezas,
O seu 8o Congresso.
Os opressores ironizavam – aproveitem,
Pois será o oitavo e o último!

A militância sabia:
Era preciso desvendar novos caminhos.
Ou se fazia o sonho renascer
Ou se pereceria.
Por isso aquele Congresso mais parecia
Um mutirão de camponeses
Que sabem que para viver é preciso
Sempre semear,
Mesmo que os brotos sejam cem vezes
Devorados pelas pragas.

Ele assumira um ar grave,
E estudava e pensava, refletia e elaborava,
Sabia que comandava uma batalha decisiva.
Era um rumor de gente trabalhando,
Era um Partido que sabia que não podia desertar.
Os cérebros trabalhavam em três turnos,
E as pessoas de tanto pensar
Botavam fumaça pelos ouvidos.
E eis que a sabedoria do coletivo
Mais uma vez pôs o sonho de pé.

Impulsionado por novas forças da ciência
E do coração,
O socialismo ressurgia renovado, rejuvenescido.
Novamente, a ave embicava a cabeça em direção à lua,
Novamente, a palmeira lançava
O pendão em direção ao sol.

Ele confidenciaria muito intimamente a si
Que nos seus cálculos não eram descartadas
Fraturas no casco
Tal era a intensidade dos bombardeios.

Mas, a nau, tantas foram as lutas,
Tantos foram os estudos,
Que o aço de seu casco
Adquiriu uma blindagem inaudita,
Além do que passou a ter poderes extraordinários.
Se atingido por um torpedo, o casco em vez de aço
Transformava-se numa membrana que cedia,
Cedia e depois devolvia o petardo!

VI

Uma vez na Escola do Partido
Ele explicaria como se traça uma tática justa.
Um bom canoeiro, disse ele,
Igual a Heráclito
Sabe que um rio nunca é o mesmo.
Não se navega e nem se banha
Num rio duas vezes.
Os bancos de areia são migrantes,
E sobre as correntezas incide
O princípio da incerteza.
Por isso, as mãos ágeis
Do canoeiro
Golpeiam a água com o remo
E a canoa acelera, retarda,
Gira e se esquiva
E escapa ilesa dos rochedos.
O rio ensina que a boa rota
Não é uma reta monótona
Ela, também, tem linhas tortas.
O rio ensina:
Naufraga aquele que é prisioneiro
De velhos caminhos;
Se perde aquele
Que não tem horizonte, nem destino.

VII

E veio o décimo Congresso
E veio o outono da vida.
E ele após ouvir delegado por delegado
Concluiu que se partisse
O Partido seguiria pleno de vida.
Para ele,
Poderia haver morte mais feliz?!
Por isso, depois de ouvir a todos,
Tomou a palavra,
E o seu último discurso
Foi um canto de louvor e confiança
Ao Brasil, ao Partido e ao povo.

Sua vida percorrera o século XX.
O século chegava ao fim
E a vida dele igual à de um rio
Desembocava no mar.
Mas antes de partir,
A ele perguntaram
– O que homem tão vivido
Antevia para o século XXI?
E ele que não desprezava o passado,
E ele que teve os pés sempre ao presente bem atados
E ele que, por método, sempre ia ao mirante
Perscrutar o futuro, meio mago, meio sábio, disse:
“—Em seus começos haverá sombras e luzes,
Mais sombras do que luzes. Depois o quadro se inverterá.
A Humanidade viverá tempos de grandes esperanças.”

E morreu como prometera:
No seu posto trabalho.
Até os últimos dias manteve
Sua fidalguia proletária.
Todavia, antes de ir lavrou um pedido:
“— As cinzas devem ser espalhadas
Na região do Araguaia
É uma forma de juntar-me
Aos que lá tombaram”.

Ele se foi, mas continua
Nas lutas do Partido Comunista do Brasil,
Sua maior obra, seu maior legado.
Ele se foi, mas pulsa
Nos corações dos que o amavam.
Ele se foi, mas está presente
Nas batalhas que os trabalhadores travam!
Ele se foi, mas continua
Nos nossos punhos cerrados!