Prosa@Poesia

Monólogo de Glocester, depois Ricardo III

William Shakespeare Publicado em 12.06.2017

O maior vilão de Shakespeare se anuncia, neste monólogo, um ator de sua própria vida, disposto que está a encenar para todos a seu redor. Usa sua feiúra em seu favor, assim como está determinado a destruir a todos pelo prazer do jogo e do poder. Usurpa a coroa do irmão, para governar por pouco tempo, e morrer perturbado por todos a quem fez mal.

Cercado de cortinas vermelhas, Ian MacKellen interpreta um Ricardo III carregado de referências nazistas.

O sol de Iorque mudou em primavera o inverno

da guerra que nos trouxe um verdadeiro inferno.

As nuvens do terror, do mal, do desengano

perderam-se afinal no abismo do oceano.

Cingem a nossa fronte os louros da vitória

que a glória nos darão nas páginas da história.

Fizemos de troféus nossas duras espadas

e tornamos agora as contendas armadas

em agradável convívio. As marchas marciais

para infundir o mêdo, os terrores mortais

transformando-se estão, nesta hora de bonança,

de festa e de alegria, em músicas de dança.

O rosto ameaçador do guerreiro feroz

seu aspecto perdeu de inflexível algoz,

pois em vez de montar o cavalo de guerra

e espalhar cruelmente a morte sôbre a terra,

nas alcovas procura as mulheres formosas

e entrega-se ao prazer das lutas amorosas.

Mas eu que não me dou à aventura galante

nem posso conceder-me ao luxo inebriante

de ter no leito meu, na mais viva proeza,

uma ninfa ideal de lasciva beleza;

eu que não chego a ousar, e a mim mesmo aconselho

a jamais contemplar o meu rosto no espelho;

eu que sou repelente e, nesta vida imunda,

hei de sempre passar como simples corcunda,

disforme, inacabado, uma espécie de abôrto

que seria melhor se já nascesse morto;

eu que ao sair de casa os cães, em minha frente,

vendo a minha hediondez, ladram raivosamente;

eu, nesta hora de paz que a todos maravilha,

sòmente me entretenho a olhar, quando o sol brilha,

a minha própria sombra e analisar então

o que nela horroriza e causa repulsão.

Clarence eu intriguei mortamente com o Rei.

São ambos meus irmãos. Ambos destruirei.

Eduardo o enviará ainda hoje à prisão,

pensando que êle trama a sua perdição.

Agindo sôbre um rei de espírito atrasado,

fiz da superstição uma razão  de Estado.

Criei as condições, causando vários danos,

para a realização de todos os meus planos.

Com presteza hei de agir, sem recuo e sem mêdo,

mas saberei guardar o meu grande segrêdo.

Jamais recuarei. A guerra fratricida

na sombra travarei sem arriscar a vida.

O ódio que trago em mim é a razão por que vivo

já que sou monstruoso, hediondo e repulsivo,

não ousando sonhar em vir a ser o amante

de uma dama gentil, bonita e bem falante.

Não podendo entregar-me aos prazeres carnais

da vida pueril dos tempos atuais,

eu resolvi assim usar sem compaixão

a intriga e o assassínio, a calúnia e a traição.

Se a natureza deu-me, estranha e caprichosa,

tôda esta fealdade, esta forma horrorosa,

como compensação por meio da maldade,

vingar-me-ei então de tôda a humanidade!

 

Uma Antologia Poética de Dante a Brecht

(Edmundo Moniz - Poemas da Liberdade)