Prosa@Poesia

A história de um retrato

Adalberto Monteiro Publicado em 10.08.2018

Dele me recordo, / Do perfume da loção / Com que banhava a face / Depois que a gilete / Arava seu rosto, / Desbastava a barba, / Sem sacrificar / O elegante bigode.

I

 

Meu pai teve 8 filhos

– Uma nação –

E por eles lutou feito um leão.

Teria fracassado

Se não tivesse ao seu lado

Uma leoa.

(Ela tinha doçura nas garras,

E era tão ou mais sábia do que ele.)

O amor era o que os entrelaçava,

Os atracava, sempre, àquela casa.

Doaram-se aos quatro filhos,

Doaram-se às quatro filhas.

Sabe um rei, uma rainha que mereçam

Verdadeiramente esses nomes?

– Eram eles.

Renunciaram a tudo

Pela prole:

O país.

 

II

 

Trabalhava de domingo

A domingo.

O martelo no pé de ferro,

A ponta do prego

Dobrada com esmero.

Dele me recordo,

O cheiro de sola e da cola

De sapateiro.

Dele me recordo,

Do perfume da loção

Com que banhava a face

Depois que a gilete

Arava seu rosto,

Desbastava a barba,

Sem sacrificar

O elegante bigode.

Dele não me esqueço,

Por aquele cheiro

De café quente

Que povoava a casa,

Que ele bebia encostado

No portal da cozinha,

Olhando para as fruteiras

Do quintal.

Às vezes seu rosto me fica oculto,

Cobre-lhe a fumaça do cigarro...

 

III

 

Aos sábados

Trabalhava de garçom

No salão de festas do Jockey Club.

Lá varava a madrugada.

Naquela época,

Nas tampinhas dos refrigerantes

Quando se raspava a cortiça

Algumas delas eram premiadas.

Ele mesmo na dura jornada,

Pacientemente, as recolhia,

Enchendo os bolsos

Do jaleco e da calça.

Pelas manhãs de domingo

Era aquela farra.

Aquele suspense, a demora interminável.

A cada tampinha contemplada,

Destampava-se um grito

Como se um tesouro tivesse

Sido encontrado.

 

 

IV

 

Aos domingos

Meu pai

Vendia apostas

No hipódromo da cidade,

Levava em revezamento

Cada um dos meninos.

Eu ali na arquibancada,

Entre os ricos e as madames

Do lugar.

Banhado, penteado,

A roupa alva bem lavada e passada,

Que ela mesma costurara,

Um sapato de couro preto reluzente,

Que ele mesmo fabricara.

Criança amada,

Caminhava de queixinho erguido

Entre aquela gente grã-fina,

Que me assustava

Quando uma égua malhada

Na qual um grupo apostara

Cruzava em primeiro a linha de chegada.

 

Conforme combinado,

De tempos em tempos,

Eu me apresentava

Ao guichê onde ele trabalhava.

Perguntava se estava tudo bem,

E me dava uns trocados

Para a guloseima que escolhesse.

 

V

 

Por uns tempos,

Tocou um bar

Que ficava no caminho

Do nosso grupo escolar.

Foi quando vi uma cena

Que me impactou para todo o sempre.

Ele atrás de uma máquina,

Que tinha hastes que giravam em espiral...

Meu infante coração disparou:

Meu pai sabia a mágica de fazer sorvete.

Você quer de quê?

Tem de creme, chocolate, uva e de manga.

E eu, de admiração, mudo.

Na infância,

Não tinha por que invejar nenhum pai desse mundo.

 

VI

 

Dele sabemos de seus defeitos,

Mas minha mãe já nos ensinara

O que aprendera com Deus e a vida: a perdoar

Os talvez pecados.

 

 

Monteiro, Adalberto

Pé de Ferro & Outros Poemas

São Paulo > Fundação Maurício Grabois; Anita Garibaldi, 2017