Resenhas

“A Viagem Interrompida” mostra como a direita golpeou o avanço comunista em Santo André

Cezar Xavier Publicado em 03.02.2016

Pesquisa de Eduardo Luiz Correia começa pela repercussão na imprensa sobre a eleição e posterior proibição dos mandatos comunistas na década de 1940, para observar a articulação das elites contra a perda de espaço eleitoral para o PC do Brasil. Livro será lançado em Santo André, dia 4 de março, e em São Paulo, no dia 28 de março.

O PCdoB de Santo André em parceria com a Fundação Mauricio Grabois e a editora Anita Garibaldi trazem para a militância da cidade do ABC paulista o lançamento do livro “A Viagem Interrompida – A aventura comunista na Santo André da década de 1940”. O livro escrito por Eduardo Luiz Correia conta a surpreendente história da eleição do primeiro prefeito operário e comunista no Brasil: Armando Mazzo, e mais uma grande bancada de parlamentares comunistas no coração do Grande ABC. O livro também conta como foi a articulação de direita para a cassação do registro das candidaturas e o impedimento de assumirem seus cargos legislativos e executivo.

O livro já tem lançamento agendado em Santo André e São Paulo. O evento no ABC será na sexta-feira, 4 de março às 19h00, na Casa da Palavra (Praça do Carmo,171), em Santo André. Na segunda-feira, 28 de março, às 19h00, o lançamento será em São Paulo, no Centro de Estudos Barão de Itararé, à Rua Rego Freitas, 454, 8º andar - conj. 83, na República.

A farsa golpista

O livro resgata um momento histórico da política de Santo André, que muitos desconhecem; e tem similaridades históricas curiosas com a conjuntura atual, de articulação golpista da direita contra os sucessivos governos de esquerda no Brasil. Embora o contexto histórico seja distinto, o livro mostra que as elites nacionais nunca aceitaram passivamente o avanço da esquerda nos espaços de poder. “Cá entre nós, nada de muito diferente do que acontece hoje em dia”, compara o autor, em entrevista ao Portal Grabois.

Correia diz ter a expectativa de que o livro seja mais uma referência, especialmente em Santo André, para entendermos que já houve outros movimentos políticos e populares com muitas potencialidades  e que foram cerceados de maneira muito dura pela elite. Toda a pesquisa de mestrado do autor começa pela tentativa de identificar na imprensa da época as repercussões sobre a eleição e cassação dos mandatos comunistas, embora aquela fosse uma imprensa muito censurada.

Embora o tom fosse bastante “oficialesco”, segundo ele, era no sensacionalismo sangrento do jornal A Noite que se entende o alinhamento mais explícito da imprensa com a classe dominante. Correia cita uma notícia sobre o alarmante e possível desembarque de armas comunistas em Santos, alardeado pelo jornal num dia, e esquecido no outro, como se nada tivesse publicado. Esse clima de guerra fria marca o modo como a perseguição aos comunistas vai se intensificando, mesmo em ambiente de redemocratização. “Mesmo com toda a demonização, os comunistas se tornaram a terceira força eleitoral na região”, diz o pesquisador, mostrando como a consciência de classe era consistente, ali.

Tradição de esquerda

Sob o comando do presidente Dutra, o Brasil na época tornou-se a ponta-de-lança da política anticomunista na região. Dessa forma, diferente de “A Vitória dos Candidatos de Prestes”, de Ademir Médici, mais focado no contexto local, “A Viagem Interrompida” busca apresentar um panorama da geopolítica da época, uma das mais agitadas e fascinantes da histórica política brasileira. “Foram eleições que, a partir do microcosmo das disputas políticas no município de Santo André, em São Paulo, permitem contextualizar os primeiros passos da Guerra Fria no Brasil e na América Latina”, afirma Correia.

Apesar da cassação dos candidatos eleitos e do próprio Partido, tradicionalmente, o ABC manteve uma cultura trabalhista e operária, com intensos reflexos políticos e eleitorais, nas décadas seguintes. Correia cita, por exemplo, um conhecido quadro do PCB, Lincoln Grillo, que assumiu a Prefeitura de Santo André, pelo MDB, em plena ditadura, em 1976. Uma das gestões mais marcantes e transformadoras da cidade foi a de Celso Daniel, do PT. Atualmente, o PT está no governo, com o prefeito Carlos Grana. Além disso, a mobilização operária no ABC contra a ditadura, no final dos 1970, foi intensa e marcou os destinos do país.

Foto: O autor Eduardo Correia entrevistou personagens daquele período, recentemente falecidos.