Resenhas

Anti-Dühring

Christian Lindberg Lopes do Nascimento Publicado em 21.01.2016

A editora Boitempo, por ocasião da passagem do 120º ano do falecimento de Friendrich Engels, teve a iniciativa de traduzir, direto do alemão, uma das principais obras que sustenta o denominado socialismo científico. Anti-Dühring: a revolução da ciência segundo o senhor Eugen Dürhing, mais conhecida como Anti-Dühring.

Dividida em Introdução e outras três partes – Filosofia, Economia política e Socialismo -, esta edição vem acompanhada pelo prefácio das três primeiras versões alemãs - 1878, 1885 e 1894 -, uma quantidade enorme de notas de rodapé além de uma apresentação do pesquisador marxista João Paulo Netto.

A relevância desta obra funda-se em alguns aspectos interessantes: na apresentação, João Paulo Netto diz que Anti-Dühring tem a mesma relevância teórica que o Manifesto Comunista e O Capital. Do ponto de vista filosófico, Anti-Dühring dialoga com a tradição filosófica, sendo que Demócrito, John Locke, Rousseau, Kant e Hegel são alguns filósofos citados. No campo científico, para citar alguns casos, Engels dialoga com Newton, Charles Darwin, Lamark, David Ricardo, Adam Smith. O auxílio destes pensadores tem o propósito de polemizar com Eugen Dühring, mais precisamente com sua concepção de socialismo que exerceu certa influência no movimento operário alemão. O cerne da polarização gira em torno dos conceitos de idealismo e de materialismo. Para Engels, o caráter idealista dado por Dühring não ajudava na compreensão da realidade, por mais que ele tenha sido bastante enciclopédico na exposição do seu argumento. Como contraponto, o materialismo-histórico-dialético é apresentado como alternativa para a análise social, a ponto de afirmar que a natureza, assim como a sociedade, tem uma história que precisa ser compreendida na sua concretude.

Na Apresentação de Anti-Dühring percebe-se o caminho conceitual desenvolvido por Engels, que caracteriza conceitos clássicos do marxismo como socialismo, materialismo, luta de classes e dialética. Para tanto, recorre à tradição filosófica, destacando os aspectos positivos e expondo os limites teóricos desta tradição, mais exatamente aqueles termos caros à literatura marxiana. Em seguida, começa a polêmica teórica com Eugen Dühring, sendo que, para isso, adota termos ácidos do seu vocabulário.

Na seção intitulada Filosofia, Engels desenvolve sua argumentação com base em dois conceitos: o de materialismo e o de dialética. Esta exposição fundamenta-se no contraponto que ele faz à perspectiva idealista da filosofia de Dühring. Inicialmente, Engels aborda as questões relacionadas à natureza para, em seguida, se debruçar sobre os aspectos morais; finaliza explicando a lei da negação da negação ou a lei da contradição, alicerce fundamental para a compreensão da dialética materialista. Com um vasto leque de exemplos extraídos das ciências naturais e sociais, o autor é catedrático e didático nas suas considerações.

No tópico intitulado Economia Política, Engels aborda os aspectos econômicos da polêmica com Dühring. Nos quatro subitens iniciais ele define o que é economia política e faz uma relação deste conceito com o de poder, salientando que o poder desempenha um papel histórico no desenvolvimento econômico, comprovando, através de diversos exemplos, como isto aconteceu na história da humanidade. De igual modo, expressa que as transformações econômicas repercutem nas relações de poder. Mais uma vez Engels diverge da interpretação feita por Dühring, deixando nítida sua posição de analisar a história com base no materialismo-dialético. Nos demais itens, esboça a teoria do valor, recorrendo, em alguns casos, ao livro O Capital. Conceitos como valor de mercadoria, mais-valor (mais-valia), salário, trabalho simples e composto são esboçados com rigor conceitual. De igual modo, especula que o socialismo é oriundo das contradições existentes no modo de produção capitalista e aponta que a emancipação humana resultará apenas a partir do momento em que o trabalho não mais produzir mais-valor. Aparece, aqui, uma das principais polêmicas que envolve os intérpretes do marxismo: o determinismo econômico.

O último item da obra é reservado a discutir o que é Socialismo. Utilizando o método materialista para analisar a história, Engels parte da relação entre a produção capitalista e a consequente divisão do trabalho, estabelecendo que a infraestrutura econômica condiciona a superestrutura política. Percebe-se que a teoria engelsiana manteve tanto a coerência com os escritos redigidos por ele anteriormente - como a Ideologia alemã - quanto a afinidade teórica com os de Marx. Observa-se, deste modo, que o objetivo de Engels era demonstrar que o socialismo tem um fundamento na realidade concreta, sendo  fruto do desenvolvimento das contradições existentes no meio de produção capitalista e na divisão do trabalho promovida pela grande indústria, algo bem distinto do socialismo defendido por Dühring. No último item deste capítulo, Engels estende a análise materialista-dialética da história a alguns temas de ordem cultural, como Deus, a família, a estética e a escola. Diferentemente de Dühring, Engels afirma que o mesmo elemento condicionante para a revolução socialista repercute nas transformações sociais que o novo regime político demanda.

Após concluir a leitura da obra, o leitor percebe que Engels desenvolve o raciocínio aplicando a própria teoria, a saber: o materialismo-histórico-dialético. A forma como ele organiza a redação do texto se dá da seguinte forma: inicialmente ele expõe a argumentação idealista de Dühring (tese); em seguida, faz a refutação (antítese) para finalizar com as próprias ideias (síntese). Em suma, Anti-Dühring é leitura obrigatória não apenas para aqueles que simpatizam com as ideias de Marx e Engels, como também para aqueles que desenvolvem pesquisas em torno da teoria marxista.

Referência

ENGELS, F. Anti-Dühring: a revolução da ciência segundo o senhor Eugen Dühring. Tradução Nélio Scheinder. São Paulo: Boitempo, 2015.

Resenha publicada originalmente no Cadernos do Tempo Presente, n.21, out/ 2015, Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão, p. 112-114. Disponível em < http://www.seer.ufs.br/index.php/tempo/index >

Christian Lindberg Lopes do Nascimento é professor adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe. Graduado em Filosofia, mestre em Educação, ambos pela UFS, realizou o seu doutorado em Educação na UNICAMP. É integrante do Grupo de Ética e Filosofia Política (UFS) e do Grupo Senso (UNICAMP).