Resenhas

Bem-vindo, Lênin!

Augusto Buonicore Publicado em 11.09.2017

O historiador escreve sobre a importância do "Arsenal Lênin", ambiciosa nova coleção que a Boitempo inaugura no centenário da Revolução Russa.

Vladímir Ilitch Uliánov Lênin (1870-1924) foi o mais importante líder bolchevique e chefe de Estado soviético, mentor e executor de um evento que inaugurou uma nova etapa da história universal, a Revolução Russa de 1917. Intelectual e estrategista com rara apreensão do momento histórico em que viveu, escreveu artigos e livros que inspiraram a articulação do internacionalismo socialista e aprofundaram a compreensão do capitalismo, dos efeitos do desenvolvimento desigual, do imperialismo e do Estado. Durante sua existência, praticou o que escreveu e escreveu sobre o que praticou, num notável exemplo de coerência. Quase toda a sua obra – teórica e prática – foi produzida nas duas décadas que inauguraram o século XX, período em que sua influência foi decisiva. Por isso e muito mais, é fundamental voltar a Lênin. A Boitempo aceita o desafio e se lança nesta aventura fundamental: a coleção Arsenal Lênin!

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O lançamento da coleção Arsenal Lênin pela editora Boitempo é motivo de muita alegria para todos aqueles que têm interesse no rico – e contraditório – processo de desenvolvimento e expansão do marxismo ao longo do século 20. Nenhum outro intelectual influenciou tanto as lutas emancipatórias dos trabalhadores e dos povos do mundo quanto Vladímir Ilitch Uliánov, vulgo Lênin. Várias gerações de revolucionários – de todos os continentes – foram, de alguma forma, tributárias do seu pensamento. Contudo, ele tem sido o grande ausente no mundo editorial e nos debates acadêmicos contemporâneos, mesmo entre os segmentos de esquerda. Suas obras desaparecem dos catálogos e dos currículos. Ao bem da verdade, nestes últimos nunca estiveram.

As várias ondas do marxismo que bateram nas costas das universidades brasileiras tenderam a subestimar as contribuições de Lênin. Ocorreu uma verdadeira “operação intelectual” (ou ideológica) visando a separar o pensamento de homens como Gramsci, Lukács e Althusser da sua fonte teórica imediata mais importante. Chegaram mesmo a erigir uma verdadeira muralha da China entre eles, considerados originais e críticos, e Lênin tachado de dogmático. E nisso reside uma contradição, visto que todos se consideraram tributários do pensamento e da ação política de Lênin. Falando de uma forma mais seca e direta: todos se diziam leninistas.

Em 1924, Lukács afirmou que Lênin havia sido “o maior pensador que o movimento revolucionário dos trabalhadores concebeu desde Marx.” Por isso mesmo advogava que “Lênin deveria ser estudado do mesmo modo como ele estudou Marx.”. (Lênin: um estudo sobre a unidade de seu pensamento, p.29). No volume 1 de Para uma ontologia do ser social, ele voltou a escrever: “A obra de Lenin é, após a morte de Engels, a única tentativa de amplo alcance no sentido de restaurar o marxismo em sua totalidade, de aplicá-lo aos problemas do presente e, portanto, de desenvolvê-lo.” (p.301).

Sobre a contribuição de Lênin observou Gramsci nos Cadernos do cárcere: “O princípio teórico-político da hegemonia […] é a maior contribuição de Ilitch (Lênin) à filosofia da práxis (marxismo).” Não precisamos relembrar aqui o quanto é importante o conceito de hegemonia na construção teórica gramsciana. Por fim, citemos a ousada afirmação de Althusser: “Lênin nos oferece elementos para começar a pensar a forma específica da prática filosófica na sua essência e dar retrospectivamente um sentido a numerosas fórmulas consignadas nos grandes textos filosóficos.”. Ou: “graças a Lênin, podemos começar a compreender […] o mundo filosófico hegeliano.”. Estas citações deixam bastante claro o que esses intelectuais pensavam sobre as contribuições de Lênin ao marxismo.

Em 1922, preocupado com o crescente menosprezo pela dialética entre os comunistas russos, Lênin propôs aos editores da revista teórica do Partido Comunista – “Sob a bandeira do marxismo” – que criassem uma “sociedade dos amigos materialistas da dialética de Hegel”. Hoje, devemos conclamar a intelectualidade marxista a organizar uma sociedade dos amigos das ideias materialistas e dialéticas de Lênin!

A obra inaugural do Arsenal Lênin já está em pré-venda!

Escrita exatamente cem anos atrás, às vésperas da Revolução de Outubro, O Estado e a revolução ganha tradução inédita, feita diretamente do original em russo e revisada por Paula Vaz de Almeida. A edição cuidadosa traz diversas notas e comentários, além dos preciosos esboços preparatórios de Lênin que incluem planos para um último capítulo, jamais escrito, e vem acrescida de apresentação e posfácio de grandes especialistas brasileiros e outros anexos selecionados.

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“É impossível superestimar o potencial explosivo de O Estado e a revolução – neste livro, o vocabulário e a gramática da tradição política ocidental foram abruptamente abandonados’” – Slavoj Žižek

“O Estado e a revolução é um livro fundamental, não só por explicitar o que seria um Estado do proletariado no poder, como por ser um verdadeiro laboratório sobre a práxis revolucionária, por mostrar como uma teoria sobre o Estado e a atuação no processo revolucionário permitiram formular a teoria do Estado da classe operária.” – Marly Vianna

Conselho editorial | Arsenal Lênin
Antonio Carlos Mazzeo • Antonio Rago • Augusto Buonicore • Ivana Jinkings • Marcos del Roio • Marly Vianna • Milton Pinheiro • Slavoj Žižek

Onde encontrar?

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Boitempo Editorial

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Augusto César Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. Membro do conselho editorial da coleção Arsenal Lênin, da Boitempo, é também autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

 Publicado no Blog da Boitempo