Teses e Dissertações

Avaliação das formulações teóricas de Relações Internacionais do Vietnã, tendo como base o pensamento de Ho Chi Min, como teorização não-ocidental de Relações Internacionais

Pedro de Oliveira Publicado em 11.08.2016

Defendida no dia 1 de julho de 2016 no Centro Universitário de Brasilia, Uniceub, na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais.

INTRODUÇÃO
Nesta pesquisa investigamos a produção de uma teoria de Relações Internacionais (RI) do Vietnã – tendo como base o pensamento de Ho Chi Minh – como possível Teoria autêntica de Relações Internacionais Não Ocidental. O interesse por esse tema surgiu a partir da leitura da obra de Barry Buzan e Amitav Acharya, que relata a investigação sobre as razões do porquê não se considerava a existência de uma Teoria de Relações Internacionais Não Ocidental e o que poderia ser feito para mitigar tal situação.

O objetivo dos autores foi o de apresentar a tradição de Teorias de Relações Internacionais Não Ocidentais para a comunidade acadêmica do Ocidente, a partir de um recorte asiático e, ao mesmo tempo, de desafiar os teóricos de Relações Internacionais Não Ocidentais a questionarem a hegemonia da teoria ocidental sobre o tema. Entretanto, não se colocaram essas tarefas apenas para verificar antagonismo com o pensamento ocidental ou para, supostamente, demonstrar as deficiências do pensamento não Ocidental. Eles partiram da constatação de que as Teorias de RI Ocidentais são ainda muito precárias em suas fontes e tão dominantes em sua influência para que pudessem servir a um projeto de compreensão mais ampla do mundo em que vivemos.

O livro publicado por esses autores a respeito do pensamento não ocidental das Teorias de Relações Internacionais – Non-Western International Relations Theory: Perspectives On and Beyond Asia, 2010 – tem importância especial no processo de compreensão da história das relações entre os países e os povos do Sudeste da Ásia. Constata uma realidade que é reflexo da hegemonia quase absoluta do pensamento eurocêntrico e estadunidense nas teorias de Relações Internacionais. Revela potencialidades de elaboração não ocidental que enfrentam a hegemonia da teoria ocidental capitaneada pelos Estados Unidos e reúne dez artigos complementares entre si, começando pelo texto do primeiro capítulo – Why is there no non-Western international relations theory? An introduction –, de autoria dos dois autores, organizadores da obra. E chega à conclusão de que o fato de não existir uma teoria não ocidental desenvolvida relaciona-se estreitamente à hegemonia acima referida e às políticas de exclusão presentes nos grandes centros de produção teórica e intelectual do Ocidente.

Neste trabalho, quando utilizamos o termo pensamento nos referimos não apenas à ideologia de um indivíduo, mas também à sua compreensão como uma doutrina, ou seja, um sistema de ideias, concepções e pontos de vista baseados numa visão de mundo consistente e aplicada a uma determinada realidade.

No livro citado acima, os autores convidados a apresentar estudos de caso sobre vários países asiáticos focaram nos exemplos da China, Japão, Coreia do Sul, Índia e Indonésia, e ainda apresentaram um estudo regional mais geral do Sudeste da Ásia ? sem pesquisar especificamente o caso do Vietnã ?, além de uma visão panorâmica das Relações Internacionais do mundo islâmico, com atenção particular sobre os países de origem árabe. A experiência vietnamita, citada no artigo escrito por Alan Chong, não mereceu da parte do autor maior destaque apesar da importância e da projeção exponencial do Vietnã na política mundial durante o período 1954-1975, décadas em que se verificou o desfecho de duas grandes guerras de libertação neste país: a primeira contra a dominação colonial francesa, encerrada com a vitória vietnamita na Batalha de Dien Bien Phu, em 1954; e a segunda, contra a invasão estadunidense (depois ampliada com a presença simbólica de alguns de seus aliados), iniciada em 1964 e encerrada com a chamada grande “ofensiva Ho Chi Minh” da Frente de Libertação Nacional, em 1975. Assim, pretendemos, neste trabalho, aprofundar as investigações sobre este país e identificar similaridades e contradições entre o pensamento de Ho Chi Minh e as principais Teorias de Relações Internacionais Ocidentais, bem como historiar as principais referências do processo de elaboração própria do pensamento deste líder nacionalista e socialista vietnamita.

Em setembro de 2015, comemorou-se o 70º aniversário da proclamação da Independência da República do Vietnã, ocorrida em 1945, e os 40 anos do final da chamada Guerra do Vietnã, em 1975. Segundo o professor Paulo Fagundes Visentini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a guerra e a revolução vietnamita representam um dos mais significativos processos históricos da contemporaneidade, embora paradoxalmente os estudos acadêmicos lhe confiram pouca atenção:

 

Mais do que uma descolonização acidentada, trata-se [a luta pela independência nacional] de um paciente trabalho de mobilização popular para a sucessiva resistência ao fascismo de Vichy[1], ao militarismo japonês, à potência colonial francesa, à superpotência neocolonial norte-americana, e para a transformação social (VISENTINI, 1988, p. 17).

 

Além da relevância acadêmica, a escolha deste tema de pesquisa está relacionada com minha percepção e vivência no ambiente político do Brasil (e mais especificamente da cidade de São Paulo) no final dos anos 60 do século passado. A Guerra do Vietnã foi o fato político que me chamou a atenção para o estudo das Relações internacionais. Estudei no campus da Universidade de São Paulo, a USP, durante os anos de 1968 e 1969, quando fui preso e torturado por ter participado no movimento estudantil antiditadura na época. Naquele período, participei de reuniões necessariamente clandestinas (em função das restrições democráticas impostas pelo governo na ocasião) em que se debatia a necessidade do fim daquela guerra no Sudeste Asiático, onde se exibiam filmes editados pela Frente de Libertação Nacional do Vietnã (FLN) narrando o que estava ocorrendo no teatro de guerra do Vietnã. Esses filmes, enviados desse continente mostravam os ataques dos famosos aviões americanos B-52 ? que derramaram bombas e armas químicas sobre as selvas vietnamitas ? e os esforços da FLN para contra-atacar com armamentos precários, mas que mesmo assim cumpria seu papel de resistência.

Após a experiência de 1969 tentei voltar para a Universidade de São Paulo outras duas vezes, passando no vestibular em 1974 e em 1978. Mas não me foi possível dar sequência a meus estudos por motivos políticos e profissionais. Ao retomar a atividade acadêmica em Brasília, em 2011, comecei a estudar a teoria e outros temas de Relações Internacionais no Centro Universitário de Brasília, UniCEUB. A partir de então passei a pesquisar como o Vietnã, país com parcos recursos naturais e militares, havia conseguido expulsar grandes potências coloniais e imperialistas, como Japão, França e Estados Unidos. Outro aspecto ? ainda na esfera pessoal ? que me fez focar nesta temática foi a viagem que tive a oportunidade de realizar, como jornalista, ao Vietnã, em 2008, quando visitei algumas de suas cidades, durante nove dias: A capital do país, Hanói; uma região que é Patrimônio da Humanidade, a Baía de Ha Long; e a cidade sulina, industrializada, de Ho Chi Minh City, assim chamada atualmente, mas tinha o nome de Saigon no período da Guerra contra a França e os Estados Unidos. Nesta viagem a Ho Chi Minh City tive condições de visitar o Museu da Guerra, com muitos dados e referências sobre o conflito. Chamaram-me a atenção, nesse Museu, as fotos impressionantes das deformações provocadas pelo Agente Laranja, uma arma química usada pelo exército americano ? e que ainda por gerações deverá afetar a saúde e o desenvolvimento de crianças no Vietnã ? e o destaque dado pela organização da exposição a um livro sobre a guerra, In Retrospect, escrito pelo ex-secretário de Estado dos EUA, Robert S. McNamara, no qual confessa — numa espécie de autocrítica – os erros cometidos pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã[2]. Todos estes elementos me estimularam a estudar a experiência vietnamita, de como eles conseguiram superar todas as dificuldades e conquistar a independência e a soberania nacional.

Para tanto, dividimos este trabalho em três capítulos. No primeiro, abordamos as questões teóricas e metodológicas utilizadas neste trabalho, especificamos a utilização do Estudo de Caso como método e apresentamos as principais discussões teóricas que subsidiam nossa pesquisa. No segundo capítulo, apresentamos a nossa pesquisa nas obras escritas por Ho Chi Minh e em fontes secundárias disponíveis. No terceiro, damos destaque aos conceitos desenvolvidos por Ho Chi Minh em contraposição aos de autores de Teorias de Relações Internacionais Ocidentais. Por fim, apresentamos as conclusões.

 

1. AS QUESTÕES TEÓRICAS E OS RECURSOS DE ANÁLISE DO TEMA
 

De acordo com Buzan e Acharya (2010), as razões pelas quais as Teorias de Relações Internacionais Não Ocidentais não são conhecidas e exploradas no ambiente acadêmico ocidental podem ser explicadas a partir de cinco hipóteses. A primeira delas é a possibilidade de que a Teoria de RI Ocidental tenha descoberto o caminho correto para a compreensão das Relações Internacionais. A segunda, de que a Teoria de RI Ocidental tenha adquirido um status hegemônico, no sentido gramsciano do termo. Em terceiro lugar, os autores citados defendem que as Teorias de RI Não Ocidentais existem, mas se encontram escondidas. A quarta hipótese aponta que as condições locais seriam discriminatórias em relação à produção de Teorias das Relações Internacionais. Por fim, eles questionam se o Ocidente não teria atingido uma grande vantagem na elaboração inicial da teoria e afirmam que estaríamos assistindo agora a nada mais do que o período de colheita do que foi plantado. (BUZAN; ACHARYA, 2010)

Sobre a primeira razão levantada pelos autores do livro tomado como referência para esta monografia Buzan e Acharya sustentam a tese segundo a qual “a teoria de Relações Internacionais não pode se constituir única e exclusivamente em função de suas próprias experiências”, mas, ao contrário, “deve ser um domínio aberto às contribuições não ocidentais, que pelo menos deveriam ser levadas em conta na proporção do grau de envolvimento que tiveram na elaboração das Teorias de Relações Internacionais Ocidentais” (BUZAN; ACHARYA, 2010, p. 13).

Para este trabalho, partimos das hipóteses de que essas Teorias Não Ocidentais existem, mas se encontram eludidas e precisam ser trazidas à luz, assim como precisariam romper o status hegemônico das TRIs Ocidentais, que impedem o florescimento de Teorias Não Ocidentais de Relações Internacionais.

A pesquisa acadêmica e a investigação existente sobre as TRIs Não Ocidentais logo após o final da Guerra do Vietnã, em meados da década de 70 do século passado, não foram pródigas em razão de questões ideológicas e políticas. Nos Estados Unidos, por exemplo, após a derrota americana, relativamente poucos pesquisadores se lançaram ao estudo das razões da derrota, da mesma forma que na França não se notou interesse maior em pesquisas sobre a vitória do general vietnamita Vo Nguyen Giap sobre os mais destacados generais franceses daquela época na grande batalha de Dien Bien Phu, em 1954, que encerrou mais de oito décadas de jugo colonial na península indochinesa. 

Após a vitória do Vietnã sobre os Estados Unidos da América, maior potência militar do mundo, quando a conferência de paz de Paris, em 1973, colocou fim oficialmente à guerra e fez de seus principais negociadores ? Henry Kissinger e Le Duc Tho ? os ganhadores do Prêmio Nobel da Paz daquele ano[3], a pesquisa teórica sobre estes acontecimentos revelou uma queda relativa em relação à quantidade e à qualidade de trabalhos acadêmicos especialmente nos Estados Unidos, que são a principal fonte de elaboração de estudos internacionais no mundo. Como escreve o professor Paulo Fagundes Visentini em A Revolução Vietnamita, publicada em 2007 pela Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), milhões de pessoas simples mobilizaram-se para enfrentar a mais sofisticada tecnologia de morte já criada e venceram (VISENTINI, 2007).

Segundo Visentini, o retraimento temporário dos Estados Unidos nas Relações Internacionais é fruto do que ele chama de “Síndrome do Vietnã”. A síndrome consistia na sensação de impotência experimentada pela primeira derrota militar da história norte-americana, agravada por ter sido infligida por um pequeno país do Terceiro Mundo[4]. Representava ainda um complexo de culpa de uma opinião pública alienada e maniqueísta, que descobria que seu país se encontrava na posição de vilão (VISENTINI, 2007). O autor defende que os valores militaristas sofreram duro golpe: dos 2 milhões e 700 mil norte-americanos que passaram pelo Vietnã, cerca de 60 mil morreram e 300 mil foram feridos, e parte destes ficou inválida.

Já Eric Hobsbawm, em seu livro Pessoas Extraordinárias, publicado no Brasil pela editora Paz e Terra ? redigido em 1965 e portanto antes do início de um engajamento mais profundo dos Estados Unidos no Vietnã, diante da possibilidade divulgada pela imprensa americana de que eles pudessem inclusive utilizar armas nucleares para intimidarem os vietnamitas –, afirmou que bombas nucleares não podem ser usadas como uma ameaça para se ganhar uma guerra pequena, que está perdida, ou mesmo uma guerra de tamanho médio, porque, embora as massas possam ser dizimadas, o inimigo não pode ser levado a se render (HOBSBAWN, 1965). Ho Chi Minh, por sua vez, em entrevista aos jornalistas americanos Ashmore e Baggs, que visitaram o Vietnã a pedido do Departamento de Estado americano, em 1967, portanto dois anos antes de sua morte, a respeito da guerra afirmou que nem armas nucleares impingiriam uma rendição ao povo vietnamita (ASHMORE; BAGGS, 1967).

O tema da Guerra do Vietnã continua extremamente atual nos debates sobre Relações Internacionais. Recentemente, em seu último discurso diante do Congresso americano sobre o Estado da União, em 12 de janeiro de 2016, o presidente norte-americano, Barack Obama, disse que

 

Não podemos assumir e reconstruir cada país que entre em crise. Ser líder não é isso. Isso é uma maneira garantida de se cair em um atoleiro, desperdiçando sangue e dinheiro norte-americanos. Essa é a lição do Vietnã e do Iraque, e já deveríamos tê-la aprendido. (The New York Times, 2016, tradução nossa).

 

Dessa frase do pronunciamento presidencial podemos inferir as concepções ainda vigentes no pensamento norte-americano sobre as relações exteriores dos EUA. Primeiramente, porque a ação do exército estadunidense na Indochina deveu-se a outros interesses estratégicos e não a alguma questão de ajuda humanitária ou a um objetivo de cooperação internacional. E, em segundo lugar, são de domínio público quais chamadas “razões de Estado” levaram os Estados Unidos à invasão do Iraque, com base em mentiras sobre a existência de arsenais de armas de destruição em massa naquele país, quando são conhecidos os interesses geopolíticos e econômicos que levaram o então governo de George W. Bush à guerra, que custou mais de 3 trilhões de dólares e milhares de soldados norte-americanos mortos e feridos em combate.

Conforme a análise de Alan Chong, em seu texto sobre o Sudeste Asiático Southeast Asia: Theory between modernization and tradition, dos territórios que viveram o processo de colonização, as populações autóctones tiveram que ser parcialmente educadas e treinadas para extraírem a riqueza para suas matrizes coloniais. E, com a modernização desses processos, afirma ele, ironicamente foram inoculados a consciência e o despertar do nacionalismo (CHONG, 2007). Chong deriva desta constatação o conteúdo de um discurso comum em vários líderes desse movimento anticolonial como foi o caso de Sukarno (Indonésia), Aung San Suu Kyi (Burma), Ho Chi Minh (Vietnã), Jose Rizal (Filipinas) e Lee Kuan Yew (Singapura), inclusive na propaganda do rei Norodom Sihanouk, do Camboja, e do general Pibulsongkhram, da Tailândia. Chong também cita Geertz neste mesmo sentido quando recupera o seguinte raciocínio: Geertz

 

(…) observed that for the newly decolonized populations modernization Nationalism, democracy, socialism, communism, the symbolic pursuit of anticolonial justice, institutionalized representation, regularized administration and the importation of machine technology from the “neo-colonial” West, are apparently reconcilable in the mindset of the post-independence elites according to Western observers. Writing in 1963, Clifford Geertz frequently expressed itself in two interdependent and conflicting motives: the desire to be recognized as responsible agents whose wishes, acts, hopes, and opinions “matter” and the desire to build an efficient, dynamic modern state (GEERTZ apud CHONG, 1963, p. 108).

 

Essa constatação de Geertz é confirmada pelo estudo de Michael Leifer, em 1972, em seu alerta para o fato de que qualquer compreensão que se tenha do sentimento de lealdade do povo do Sudeste Asiático deve partir das características de sua natureza fundamental, ou seja, através das definições de sangue, raça, língua, religião, localização e da tradição herdada (LEIFER apud CHONG, 2010).

Outro analista, Joseph Nye, cientista político e professor da Universidade de Harvard, EUA, na reunião de 2015 do Fórum Econômico Mundial de Davos, foi convidado a falar em uma mesa-redonda sobre o futuro dos exércitos e para que tipo de guerra os Estados deveriam se preparar. Disse ele, nessa ocasião: “Depois da Guerra do Vietnã, por exemplo, as Forças Armadas dos Estados Unidos apagaram o que haviam aprendido sobre contra insurgência, para redescobri-la da maneira mais dura no Iraque e no Afeganistão” (Planejando o uso da força para as guerras atuais – artigo publicado pelo Project Syndicate e traduzido por Celso Paciornik para o jornal O Estado de S.Paulo em 23 de janeiro de 2015). Ou seja, a temática da Guerra do Vietnã tem servido de referência constante para a análise das intervenções dos países centrais no sistema global vigente.

Nesta monografia, além da temática da Guerra do Vietnã, levamos em conta a abordagem desenvolvida pela teoria crítica de Relações Internacionais, exposta no trabalho de Robert W. Cox, segundo o qual a teoria é sempre para alguém e para algum propósito ou “Theory is always for someone and for some purpose” (COX, 1986, p. 207). O autor defende esta tese em função de as Teorias de Relações Internacionais Ocidentais gostarem de posar de “neutras”, mas bastaria uma visão inicial de tais teorias para se perceber, através desta leitura de Cox, que a realidade concreta não se revela através do pensamento dominante das TRIs Ocidentais.

Do ponto de vista metodológico, utilizamos o Estudo de Caso. Esta é uma maneira que nos possibilita observar com propriedade um período histórico determinado e nos proporciona fornecer elementos para uma análise teórica mais consistente. Como é apresentado por Yin (2001), o Estudo de Caso contribui, de forma concreta, para a compreensão que temos de fenômenos individuais, organizacionais, sociais e políticos. A estratégia se mostrou adequada no caso desta pesquisa sobre a produção de Teoria de Relações Internacionais do Vietnã, baseado no Pensamento de Ho Chi Minh, onde o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos estudados e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos no contexto histórico, e confirma a observação de Yin, segundo a qual o Estudo de Caso

 

Permite uma investigação para se preservar as características holísticas e significativas dos eventos da vida real – tais como ciclos de vida individuais, processos organizacionais e administrativos, mudanças ocorridas em regiões urbanas, relações internacionais e a maturação de alguns setores” (YIN, 2001, p. 21).

 

Assim como outros métodos de pesquisa, o Estudo de Caso é uma forma de investigação que naturalmente deverá seguir procedimentos pré-especificados, como os seguintes propostos por YIN:

 

Mesmo um estudo de caso único pode ser frequentemente utilizado para perseguir um propósito explanatório e não apenas exploratório (ou descritivo). O objetivo do analista deveria ser propor explanações concorrentes para o mesmo conjunto de eventos e indicar como essas explanações podem ser aplicadas a outras situações” (YIN, 2001, p. 23).

 

Toda a trajetória de Ho Chi Minh em seu périplo pelo mundo, vivenciando a realidade de quatro continentes e estabelecendo relações culturais, políticas e sociais com diversos ambientes culturais, vai fornecer a matéria-prima para a estruturação de seu pensamento.

 

2. A ANÁLISE DO PENSAMENTO DE HO CHI MINH E  SUA FORMAÇÃO
 

Neste trabalho realizamos uma análise do pensamento de Ho Chi Minh e comparando-o com as Teorias de Relações Internacionais Ocidentais – como uma das linhas de pesquisa propostas por Acharya e Buzan (2010) –, no sentido de estudar se o pensamento do líder vietnamita significa uma construção própria de uma TRI Não Ocidental. Como esse pensamento emergiu e se desenvolveu? Que nível de organização e extensão ele atingiu? Como está relacionado a modelos gerais de pensamento das ciências sociais? Qual é o foco essencial de seu debate principal?

A questão sobre por que não existiria uma produção de Teoria de RI Não Ocidental, segundo Buzan e Acharya, exigia uma pesquisa primeiramente a respeito de como compreendiam a Teoria de RI aqueles diferentes países em foco. Em segundo lugar se deveria estabelecer qual a profundidade da dominação ocidental sobre tais países comparando-a com a influência de outras teorias. Um tema paralelo seria identificar onde havia uma teoria Ocidental mais popular em relação à de outros países da região. E uma terceira questão seria comparar as fontes não ocidentais de Teoria de RI seguindo as quatro matrizes estabelecidas pelos autores: a) As ideias clássicas de Relações Internacionais; b) O pensamento de líderes modernos e das elites desses países; c) Esforços feitos por acadêmicos de Relações Internacionais para aplicarem suas teorias localmente (em uma visão de fora para dentro) e tentativas similares de teóricos que sistematizaram teorias a partir da experiência local tendo em vista uma audiência mais ampla – a partir de seus próprios termos (em uma perspectiva de dentro para fora) (BUZAN; ACHARYA, 2010). Desta relação estabelecida pelos autores em tela vamos nos fixar na que trata da contribuição do pensamento de líderes modernos ? no caso concreto deste estudo, o pensamento do líder vietnamita Ho Chi Minh.

Ho Chi Minh foi o mais proeminente líder contemporâneo da República Socialista do Vietnã. Viveu por 79 anos, nascido em maio de 1890 com o nome de Nguyen Sinh Cung, na província de Kiem Lan, ao norte do seu país. Desde a juventude, engajou-se na atividade de luta contra o colonialismo e pela autodeterminação dos vietnamitas. Tornou-se o principal dirigente da Nação e soube elaborar uma estratégia que acabou por reunificá-la, mesmo que após sua morte tenha sido dividida, provisoriamente, pelos acordos de paz celebrados em julho de 1954, em Genebra, no Vietnã do Norte, com Ho Chi Minh na Presidência; e no Vietnã do Sul, com o imperador Bao Dai no poder. Ho Chi Minh não viveu até o final efetivo da guerra, em 30 de abril de 1975, quando as tropas da Frente de Libertação Nacional libertaram Saigon, a capital do Vietnã do Sul, que logo em seguida se tornaria “Cidade de Ho Chi Minh” (XANH, 2008).

Para compreender o pensamento de Ho Chi Minh, e estudamos cada uma das fases da sua formação política, ideológica e militar. A etapa inicial, após seu nascimento, compreende toda a sua formação básica até o período em que deixou o Vietnã em seu périplo pelo mundo (1890 a 1911). O próximo estágio (1911 a 1920) abarca o tempo em que Ho Chi Minh morou em Paris, na França, quando sob o nome Nguyen Ái Quoc, adotado para se proteger do controle exercido pelos órgãos de segurança franceses, teve acesso ao pensamento progressista e às ideias vigentes sobre as Relações Internacionais, além do destaque que acabou dando, em sua formação, à obra de Lênin, especialmente sobre a questão colonial. O próximo período (1921 a 1930) trata do seu envolvimento com as atividades políticas e a fundação do Partido Comunista da França ? da qual participou ?, do acompanhamento dos trabalhos da Internacional Comunista e da organização do Partido Comunista do Vietnã. A penúltima fase (1931 a 1940) – quando assumiu o nome de Ho Chi Minh, após ter utilizado vários codinomes nas suas atividades clandestinas – abriga os desafios, os esforços e os preparativos para colocar em prática suas ideias e pontos de vista no Vietnã. E o período final (1941 a 1969) compreende o seu retorno ao Vietnã e a ação prática concreta do exercício de Chefe de Estado e de sua liderança em seu país.

Com base em sua trajetória de vida, podemos asseverar que as três principais fontes de seu pensamento foram: o patriotismo e as tradições culturais, humanitárias do Vietnã, nos períodos iniciais de sua formação, especialmente a influência do confucionismo; os aportes do pensamento ocidental mais avançado do ponto de vista social na Europa do início do século XX; e os escritos sistematizados por Marx e depois por Lênin, especialmente o pensamento leninista sobre a Questão Colonial.

 

2.1. INFLUÊNCIAS POLÍTICAS E IDEOLÓGICAS NA CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO DE HO CHI MINH
 

Em sua adolescência, Ho Chi Minh foi influenciado pelas tradições e pelo patriotismo de seus pais. Aprendeu a escrever em caracteres chineses e sofreu o forte impacto do espírito de luta anticolonialista, especialmente em relação à dominação francesa. Seus professores confucionistas, de tendência nacionalista, foram muito importantes em sua formação. Na então capital imperial Hué, Ho Chi Minh adquiriu conhecimentos de ciências sociais e ciências naturais, entrando em contato com a chamada civilização ocidental. Observe-se que aí está também a tradição marxista, que é de matriz ocidental, a despeito de, inclusive sob a influência de Ho Chi Minh, ter se estendido na continuidade para diversos países orientais. Todo esse manancial de conhecimento deu-lhe a possibilidade de estabelecer novas orientações e ideias, bem diferentes daquelas de seus antigos professores.

Este período de sua vida foi marcado pela repressão policial dos colonialistas franceses, que haviam consolidado o seu domínio ideológico sobre o país. O contraste social teve grande impacto em sua percepção da sociedade, caracterizada pela miséria dos trabalhadores e as luxuosas condições de vida dos comandantes coloniais franceses e do mandarinato feudal da região. Entretanto, o fracasso do movimento nacionalista nos primeiros anos de século XX mostrava a necessidade de se estabelecer um novo patamar na luta revolucionária de seu país para se obter algum êxito[5].

Ho Chi Minh foi educado na escola Oriental, mas adquiriu também um bom conhecimento da cultura ocidental, incluindo aí a de extração marxista, além de introjetar uma profunda consciência dos danos da dominação colonial e das consequentes condições difíceis de vida do povo e das massas trabalhadoras. Estes foram os fatores básicos que o levaram a buscar um novo caminho para o que considerava a salvação nacional em seu país.

Sobre os valores espirituais da sociedade vietnamita, Ho Chi Minh escreveu:

 

Our people nurture ardent patriotism, which constitutes a valuable tradition. Until now, whenever the country has faced aggression, this spirit has boiled up and became an extremely mighty wave which could overcome all dangers and difficulties, and submerge all invaders and all cliques of traitors. We can be proud of the glorious pages of history written by the Trung Sisters, Lady Thieu, Tran Hung Dao, Le Loi, Quang Trung, and so on. They are the symbols of a heroic nation and we must bear in mind their great feats and achievements (MINH, 1995, p. 171).

 

A formação política e ideológica de Ho Chi Minh, entretanto, teve um desenvolvimento mais acentuado na França, após o líder vietnamita ter viajado como ajudante de cozinha no navio mercante francês, Admiral Latouche-Tréville, que fazia a linha Haiphong-Marselha, em 5 de junho de 1911. Nessa viagem, conheceu vários países, como o Brasil, onde passou algum tempo na cidade do Rio de Janeiro; os Estados Unidos e a Inglaterra. Fez escalas nos principais portos mediterrâneos e africanos, como Oran (Argélia), Dacar (Senegal), Diego-Suarez (Madagascar), Port-Said e Alexandria (Egito), quando vivenciou situações muito parecidas às que conhecia no Vietnã. Essa vivência permitiu-lhe escrever seu primeiro livro: O Processo da Colonização Francesa.

Sobre esse período de formação de influências doutrinárias e religiosas em seu pensamento, de acordo com Giap (2011), Ho Chi Minh escreveu:

 

The good side of Confucianism is self-improvement in personal ethics. The good point of Catholicism is benevolence. The good point of marxism is its dialectical method. The good point of Sun Yat-sen is that it fits in with conditions of Vietnam. Confucius, Christ, Marx, in pursuit of happiness for mankind and welfare for the society. If they are still alive today and sit together, I believe that they would live together in perfect harmony as close friends. I’m trying to be their humble student (GIAP, 2011, p. 52).

 

É preciso lembrar que quando o Confucionismo penetrou no Vietnã, o patriotismo já havia se tornado a ideologia dominante no país. Assim, um novo tipo de confucionismo patriótico resultante da fusão dessas duas ideologias acabou por se transformar num confucionismo próprio, vietnamita (GIAP, 2011). Mesmo assim, Ho Chi Minh criticou e rejeitou os elementos negativos e conservadores dessa corrente de pensamento. Sobre o assunto, escreveu:

 

The new ethics are much different from the old ones. The old ones are similar to a person whose head is on the ground and his legs are up in the air. The new ones are like a person whose legs rest steadly on the ground and whose head looks up at the sky (MINH, 1996, p. 320).

 

Ainda a respeito das influências asiáticas sobre o pensamento de Ho Chi Minh, consideramos interessante verificar o papel do movimento nacionalista chinês ? e de seu líder Sun Yat-sen ?, que culminou com a vitória do Partido Nacionalista da China, o Kuomintang, em 1911. Ho Chi Minh, em um artigo sobre esta questão intitulado “Imperialist countries and China”, escreveu que Sun Yat-sen, o pai e fundador da Revolução Nacionalista chinesa, sempre se guiou por seus princípios mesmo quando teve de enfrentar grandes dificuldades. A plataforma política de seu partido, explicou Ho Chi Minh, é reformista, o que supõe oposição ao imperialismo e ao militarismo além de expressar a solidariedade com as nações oprimidas nas colônias e com o proletariado no mundo, o que significava simpatia pela Revolução Russa (GIAP, 1996).

Mas com a morte de Sun Yat-sen, depois que o próprio Ho Chi Minh participou do 2º Congresso do Partido Nacionalista Chinês, houve uma mudança radical na orientação protagonizada pela nova direção do Partido liderada por Chiang Kai-shek, no sentido direitista, contrarrevolucionário.

 

Compreendemos, desta forma, que as três principais fontes do pensamento de Ho Chi Minh foram o patriotismo, as tradições humanitárias do Vietnã e a influência do confucionismo. O patriotismo  foi fruto da histórica influência da luta anticolonialista, que marcou a própria formação da Nação vietnamita, nas lutas pela defesa do pais de invasões mongóis, de chineses da dinastia Han, depois do colonialismo francês,  que perdurou por mais de 80 anos, Quando o confucionismo penetrou no Vietnã, o patriotismo já havia se tornado uma ideologia dominante na região, Assim, um novo tipo de confucionismo patriótico foi a resultante da fusão entre as duas ideologias – que acabou por se transformar num confucionismo próprio, vietnamita. Por fim, devemos considerar a influência importante nesta fase da vida de Ho Chi Minh por parte do pensamento nacionalista chinês, protagonizado porSunYat-sen.

3. HO CHI MINH E SUA INTRODUÇÃO À CONCEPÇÃO DE LÊNIN SOBRE A QUESTÃO COLONIAL
 

Antes de entrarmos diretamente na análise da experiência de Ho Chi Minh deste período, seria necessário investigar em relação ao quadro internacional dos debates em torno das TRIs na época em que Ho Chi Minh entrou em contato com o mundo. Sem dúvida, naquele início do século XX, o euro-centrismo era a própria essência das Relações Internacionais.

Pedra angular deste euro centrismo era ver o mundo pela perspectiva ocidental, o que implicava a crença, consciente ou subconsciente, da proeminência da Cultura Ocidental ? o conhecimento, as preocupações e os valores ?, em detrimento das Não Ocidentais (MGONJA; MAKOMBE, 2008).

Esse euro centrismo revelou-se incapaz de interpretar o conjunto dos problemas mundiais, daí o fracasso das elites europeias em dar solução prática aos problemas da Primeira Guerra Mundial, que acabou desaguando na Segunda Grande Guerra, em 1939. Esse entre guerras foi caracterizado por muitos autores como uma fase de predomínio do idealismo sobre o realismo em Relações Internacionais. Brian Schimdt, entretanto, contesta o que poderia ser chamado de “mito fundacional” ou “foundational mith” da RI – que colocava o realismo como consequência teórica do idealismo. Disse ele:

 

Contrary to conventional accounts of the history of the field in which international relations scholars of the interwar period are characterized as ‘idealists’, the distinctiveness of their contribution lies not in their idealism but in their explicit attempt to mitigate the international anarchy (...) although [they] may have been optimists, in that they believed something could be done about the existing international situation, that they failed to face the real character of international politics (SCHIMDT, 1998, p. 191).

 

Conforme a conclusão desse mesmo autor, na verdade havia uma interpretação errada a respeito do nascimento das TRIs com a criação do primeiro departamento acadêmico desta disciplina em Aberystwyth, em 1919, e também em relação ao debate teórico deste campo da ciência no entre guerras. Schmidt destaca que

 

It is important to note how convenient it is to claim that the discipline emerges out of the carnage of the First World War: it makes it so much easier to present a (political) reading of the character of this new discipline as idealist, since it naturally focused on how to prevent such events from occurring again (SCHIMDT, 1998, p. 231).

 

A crítica realista ao pensamento utópico e idealista foi descrita por Carr (1981) como os princípios utópicos, “supostamente universais e absolutos, não eram, de forma alguma, princípios e sim reflexos inconscientes da política nacional [da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, principalmente], baseados numa específica interpretação do interesse nacional numa época específica. [...] A falência da visão utópica reside não em seu fracasso em viver segundo seus princípios, mas no desmascaramento de sua inabilidade em criar qualquer padrão absoluto e desinteressado para a condução dos problemas internacionais. O utópico, em face do colapso dos padrões cujo caráter interesseiro ele não compreendeu, refugia-se na condenação de uma realidade que se recusa a adaptar-se àqueles padrões”. O autor assevera que

 

A profunda falha do tipo de pensamento Ocidental, do direito natural, foi que, quando aplicado à vida real dos Estados, permaneceu letra morta, não penetrou na consciência dos estadistas, não impediu a hipertrofia do interesse estatal, e, portanto, levou a queixas sem objetivo e suposições doutrinárias, ou ainda à falsidade e hipocrisia interiores (CARR, 1981, p. 114).

 

Estas são questões em debate sobre como se encarava a teoria da disciplina de Relações Internacionais quando Ho Chi Minh entrou em contato com o ambiente intelectual europeu.

Os fatos mais importantes que impactaram o cenário das Relações Internacionais no período em que Ho Chi Minh passou a viver na Europa foram a Revolução de 1905 na Rússia e o levante nacionalista na China de 1911, seguidos da Primeira Grande Guerra e, em 1917, da Revolução Bolchevique. Enquanto estudava francês na escola primária em sua infância, Ho Chi Minh já conhecia o slogan mais famoso da Revolução Francesa: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Nesta ocasião, segundo Giap, Ho Chi Minh teve acesso ao pensamento baseado no liberalismo francês que era lido por soldados progressistas da Legião Estrangeira nas colônias do Sudeste Asiático (GIAP, 2011).

Na sua busca por caminhos novos, Ho Chi Minh visitou e residiu em várias colônias e países da Ásia, África e América Latina, testemunhando as péssimas condições de vida dos povos nestes países. Ele também visitou países à época desenvolvidos: durante dez anos viveu entre os Estados Unidos, França e Grã-Bretanha. Neles, Ho Chi Minh leu inúmeros livros, jornais, e outros documentos, e entrou em contato com figuras destacadas nas esferas políticas, sociais e culturais daquela época. Conheceu organizações sociais que investigavam as condições sociais dessas respectivas sociedades, o que lhe possibilitou verificar o que havia de mais avançado e também o que se mostrava mais contraditório em cada um destes povos (GIAP, 2011).

Naquele início de século XX o mundo já se encontrava totalmente sob o domínio do capitalismo. Apenas 45 países se apresentavam independentes, enquanto o colonialismo dominava 84% de toda a área terrestre. Os indianos se levantaram muitas vezes contra o domínio da Inglaterra, mas foram barbaramente reprimidos. Ao final de 1911 os chineses nacionalistas se revoltaram contra o colonialismo, mas não foram capazes ainda de promover reformas estruturais. Somente em 1949 é que, sob a liderança de Mao Tse-tung, a nação chinesa começou a se libertar do jugo do feudalismo e do imperialismo (VISENTINI, 2007).

Nos Estados Unidos, Ho Chi Minh morou em Boston e Nova Iorque. Em Boston trabalhou no Parker House Hotel ? considerado até hoje o mais antigo hotel em funcionamento contínuo nos Estados Unidos ?, fundado em 1855. Em Nova Iorque morou no Brooklyn, visitou muitas vezes o Harlem (onde viviam as populações mais pobres da cidade) e a Estátua da Liberdade.

De acordo com Giap, aquele chamado “Novo Mundo” o impressionou profundamente. Neste período, Ho teve acesso à Declaração de Independência de 1776, onde leu: “All men are created equal and are endowed with certain inalienable rights, among these are life, liberty and the pursuit of happiness”. Passou a admirar fortemente esse desejo de independência e liberdade do povo americano. Tornou-se um admirador das ideias de George Washington, Thomas Jefferson e Abraham Lincoln. Ao mesmo tempo, verificou os paradoxos que estas ideias escondiam sobre liberdade e igualdade, e também como milhões de trabalhadores não reconheciam aquela igualdade de direitos e viviam na miséria, além da violenta discriminação contra os negros americanos[6]. O escritor italiano Domenico Losurdo, em seu livro A linguagem do Império publicado em 2010, faz o seguinte relato:

 

Em 1924, um jovem indochinês (Nguyen Sinh Cung) (...) que chegou à República estadunidense em busca de trabalho, assistiu horrorizado um linchamento. Deixemos os detalhes de lado, pois já os conhecemos ou podemos imaginá-los, e vejamos sua conclusão: “No chão, cercada de um cheiro de gordura e fumaça, uma cabeça negra mutilada, assada, deformada, faz uma careta horrível e parece perguntar ao sol que se põe: Isto é civilização?” (LOSURDO, 2010, p. 34).

 

Sobre a Revolução Norte-Americana Ho Chi Minh concluiu que, apesar de sua vitória 150 anos antes, os trabalhadores das cidades e do campo ainda se encontravam na miséria e pensavam numa segunda Revolução (MINH,1995).

Em Londres, ele trabalhou como limpador de neve e como ajudante de cozinha, sob a orientação de Escoffier, chef de cuisine do Hotel Carlton, que se propôs a ensinar-lhe a arte de cozinhar. Minh, no entanto, preferiu a política. Filiou-se à Associação Internacional de Operários (Overseas Workers Association) e se tornou admirador da insurreição irlandesa, frequentando os ambientes fabianos. O socialismo denominado Fabiano foi um movimento político-social inglês, que surgiu no fim do século XIX, liderado pela Sociedade Fabiana, que propunha como objetivo levar a classe operária ao controle dos meios de produção. Neste período, Minh leu vários livros, e aprendeu o que significava a palavra “Revolução” (GIAP, 2007).

Depois da experiência em Londres voltou para a França e viveu em Paris, de 1917 a 1923, um centro econômico e político da Europa. Esta fase se mostrou importante para que o vietnamita pudesse superar o preconceito que havia nutrido durante anos no Vietnã a respeito da grande metrópole colonialista francesa.

Em Paris Ho Chi Minh viveu o período mais longo nesta primeira década de viagens. Foi quando sofreu a maior influência humanista, das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade do iluminismo, principalmente dos trabalhos de Voltaire, Diderot, Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau e também das ideias que brotaram da revolução burguesa na França. De forma particular, Minh estudou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1791 (GIAP, 2007). Em relação à Revolução Francesa, Ho escreveu:

 

The French Revolution was similar to the American Revolution, it is also a bourgeois and incomplete revolution. France is formally a republic and a democracy; but internally workers and peasants were deprived of their rights, and externally France oppresses and exploits its colonies”. E concluiu: “The Vietnamese Revolution should bear in mind these facts” (MINH, 1995, p. 274).

 

Em Paris, Ho Chi Minh encontrou um engenheiro químico vietnamita, Nguyen The Truyen, que o apresentou a exilados de seu país e de outras colônias francesas que haviam fundado um movimento chamado “União Inter colonial”. Este grupo editava o jornal Le Paria, ao qual Minh passou a colaborar. Logo, Ho Chi Minh assumiu a direção dessa publicação, como gerente-geral e editor chefe. Este órgão tornou-se o porta-voz da luta anticolonial, pela independência e a liberdade. O seu projeto editorial era a luta pela "emancipação dos seres humanos". Esta visão mostra que a libertação do homem havia estabelecido profundas raízes no pensamento de Ho Chi Minh.

Outro órgão também fazia parte das publicações desse movimento, como o Viet Nam Hon (A Alma do Vietnã), que era enviado pelos marinheiros e tripulantes de navios que faziam a rota Vietnã-França e eram distribuídos nas principais cidades vietnamitas. Assim, Ho Chi Minh coletou material suficiente para escrever seu primeiro livro: O Processo da Colonização Francesa, que se transformou numa importante peça de acusação ao colonialismo francês.

Em seguida, Ho Chi Minh aderiu à Associação dos Patriotas Vietnamitas e ao Partido Socialista Francês, o PSF, que era na ocasião o partido dos trabalhadores franceses. Desta forma estabeleceu inúmeros contatos e relações de amizade com políticos famosos, personalidades da sociedade civil e da cultura da França e da Europa de então.

No 18º Congresso do Partido Socialista da França, ocorrido em Tours, interior da França, Ho Chi Minh votou pela III Internacional e filiou-se ao Partido Comunista Francês, que nascia naquele momento como uma dissidência do PSF. A chamada III Internacional, também cognominada Comintern, havia sido fundada em 3 de março de 1919 para substituir a II Internacional, à época acusada de seguir o caminho do reformismo.

Ho Chi Minh, que nessa época utilizava o nome Nguyen Ai Quoc (Nguyen o Patriota), acabou se ligando a dirigentes sindicalistas revolucionários, como Monatte e Bourderon, e pacifistas como Marcelle Capy, como relata Lacouture (1968). O jornalista Paul Vaillant-Couturier ofereceu-lhe as colunas do jornal L’Humanité, onde passou a publicar Souvenirs d’un Exilé (Lembranças de um Exilado) e uma crônica humorística, Le Dragon de Bambou (O Dragão de Bambu). Nesse período, conheceu Jean Longuet, neto de Karl Marx, e o convidou a escrever no Le Populaire (GIAP, 2007).

Ele próprio, Ho Chi Minh, argumentou, nesses debates em torno do problema colonial, que podia não entender uma palavra de estratégia, mas havia compreendido muito bem uma questão: A III Internacional se preocupava muito com a questão colonial e que seus delegados se comprometiam a ajudar os povos oprimidos a recuperar sua independência e liberdade. Enquanto isso, os aderentes da II Internacional não diziam uma palavra sobre o destino das colônias. Foi então que se inscreveu na Juventude Socialista, da qual foi o primeiro adepto vietnamita.

 

3.1. Os 8 pontos do povo Anamita[7] versus os 14 pontos de Wilson
 

O ambiente político internacional do início do século XX estava impregnado pelos debates em torno das consequências do final da Primeira Guerra Mundial. Nesta conflagração Inter imperialista morreram cerca de nove milhões de pessoas, entre civis e militares. Outras 30 milhões ficaram feridas e/ou mutiladas. Durante o conflito, três impérios se desintegraram: Austro-Húngaro, Otomano e Czarista na Rússia. Ao mesmo tempo, ocorreu o fortalecimento dos Estados Unidos no cenário estratégico e militar mundial. O presidente dos EUA, naquela ocasião Woodrow Wilson, havia sido reeleito sob a bandeira de que os americanos não deveriam entrar na Guerra. Mas após eleito, levando em conta a nova situação, chegou à conclusão de que o melhor para os interesses das elites dominantes em seu país seria mesmo participar da guerra na Europa, a favor dos Aliados. Foi então que, com a massiva participação dos soldados americanos, o equilíbrio começou a ficar mais favorável aos Aliados.

Para os Estados Unidos, a guerra havia sido um grande negócio, pois a indústria bélica americana estava funcionando a pleno vapor, produzindo armas e munições para a França e a Inglaterra a crédito, para serem pagos depois do conflito terminado. Acontece que esta política denominada de isolacionismo chegou a um limite, na medida em que, se a guerra se prolongasse, poderia ocorrer uma vitória das chamadas Potências Centrais, a Alemanha e a Áustria – o que acarretaria a destruição econômica dos países aliados, impedindo assim o pagamento dos créditos concedidos pelos bancos estadunidenses. Desta forma, os EUA entraram na guerra para decidir, apesar de Wilson ter sido eleito com a bandeira contra a guerra.

Em 18 de janeiro de 1918, o presidente Wilson pronunciou um importante discurso diante do Congresso dos EUA, defendendo uma plataforma que depois ficou conhecida como os “14 pontos de Woodrow Wilson”. Na prática, este programa foi um primeiro esboço de política exterior e de Relações Internacionais sistematizado pelos Estados Unidos. Mais de um ano depois, Wilson levou o seu programa para tentar garantir a paz na Conferência de Versalhes, nos arredores de Paris, sendo o último ponto a proposta de criação da Liga das Nações. O objetivo era fazer com que os acordos de paz não sacrificassem demasiadamente a Alemanha, pois poderia em seguida criar fortes tensões na Europa, proporcionando novamente condições para outras conflagrações, o que na realidade ocorreu. Os Estados Unidos, na verdade, saíram como os grandes vencedores desta Primeira Grande Guerra, e o fator novo foi a Revolução de Outubro de 1917, na Rússia, que levou os comunistas ao poder.

O primeiro dos 14 pontos de Woodrow Wilson defendia que os pactos de paz deveriam ser negociados abertamente, e após isso os seus termos finais não poderiam ser alvo de entendimentos secretos. A ação da diplomacia precisava ser feita, segundo Wilson, sempre francamente, à vista do grande público. O diplomata Harold Nicolson, em seu livro O Tratado de Versalhes, contesta a eficácia desse ponto, constatando que os acordos de paz, inclusive o Tratado de Versalhes, não foram negociados com transparência. O ponto número dois afirmava explicitamente a liberdade de navegação sobre os mares, além das águas territoriais dos diferentes países, tanto na paz quanto na guerra. Também neste caso, Harold Nicolson afirma em seu livro que a liberdade dos mares não foi assegurada (NICOLSON, 2014).

O terceiro ponto da plataforma do presidente Woodrow Wilson propugnava a remoção, até onde fosse possível, de todas as barreiras econômicas. Sabemos que até os nossos dias essas barreiras continuam de pé e, como Harold Nicolson constatou, “longe de se estabelecer o livre comércio, levantou-se uma barreira de tarifas maior e mais numerosa do que jamais se vira antes” (NICOLSON, 2014, p. 30). O quarto ponto defendia garantias adequadas, dadas e recebidas, de que os armamentos nacionais deveriam ser reduzidos ao mais baixo nível compatível com a segurança interna de cada país. Mas, constatou-se, ao contrário disso, que se ampliaram os níveis dos armamentos nacionais.

O próximo ponto foi o de maior impacto para os defensores do fim do colonialismo. Esse quinto item do programa de Wilson defendia um ajuste livre, aberto, razoável e absolutamente imparcial de reivindicações coloniais, com base na estrita observância do princípio segundo o qual, na solução de todas essas questões de soberania, os interesses das populações concernentes deveriam ter o mesmo peso das reivindicações dos governos cujo domínio estaria em causa. Na obra já citada, Harold Nicolson observa que as colônias alemãs foram distribuídas entre os vencedores de uma forma que não se caracterizou pela liberdade, nem desprendimento e tampouco pela imparcialidade (NICOLSON, 2014).

Mesmo assim, em junho de 1919, Ho Chi Minh e alguns amigos vietnamitas rascunharam uma plataforma de oito pontos, para tentar submetê-la à Conferência de Paz de Versalhes, exigindo liberdade e direitos democráticos para o povo Anamita (vietnamita). Na verdade, essa espécie de manifesto não obteve maior repercussão na Conferência de Paz de Versalhes, mas conseguiu grande impacto nos movimentos de libertação nacional e nos círculos revolucionários vietnamitas. Este episódio, que o levou a tentar entregar o documento a Woodrow Wilson na Conferência que se realizava a alguns quilômetros distante de Paris, também o ensinou que a doutrina consagrada por Wilson em seus 14 pontos — especialmente no que se refere ao direito à autodeterminação dos povos — deveria depender principalmente da capacidade e da força dos próprios povos colonizados. Não se tornaria uma dádiva dos países coloniais.

Os oito pontos alinhados pelos patriotas anamitas e que foi levado à Conferência de Paz por Ho Chi Minh apresentavam reivindicações, melhor detalhadas na tabela abaixo:

 

Tabela 1 – Os oitos pontos de reivindicações do povo anamita

 

Reivindicações do povo Anamita
1.  Anistia geral para todos os prisioneiros políticos nativos.
2. Reforma do judiciário da Indochina, estabelecendo que os nativos deveriam ter os mesmos direitos e garantias legais dos europeus em solo vietnamita. Abolição total dos tribunais especiais que eram utilizados como instrumentos de repressão e opressão dos setores honestos do povo Anamita.
3. Liberdade de imprensa e de opinião.
4. Liberdade de associação e de reunião.
5. Liberdade de viajar ao exterior e de viver em países estrangeiros.
6. Liberdade de estudar e de constituir escolas técnicas e profissionais em todas as províncias para os naturais do Vietnã.
7. Revisão da promulgação de decretos pela promulgação de Leis.
8. Permissão para que os naturais elejam seus representantes na Assembleia Nacional Francesa, para que os deputados franceses ficassem informados das aspirações do povo vietnamita.
Fonte: Elaborado pelo autor.

 

Em um livro dedicado ao estudo das negociações levadas a cabo na Conferência de Versalhes, Paris, 1919, Margaret Macmillan mostra bem como os elegantes representantes das grandes nações vitoriosas da Primeira Grande Guerra viam os representantes de nações vítimas do colonialismo; ela relata que, entre tantas pessoas que se esmeravam em chamar a atenção do Conselho Supremo, um garoto de recados que enviou uma petição de independência para seu pequeno país era desconsiderado demais para receber resposta (MACMILLAN, 2003). De acordo com os biógrafos, Ho Chi Minh foi despachado da Conferência de Versalhes sem cerimônias.

É possível perceber nos textos escritos por Ho Chi Minh naquele período a percepção sobre algumas questões relevantes, como, por exemplo, o fato de que em todas as colônias, do início do século XX, o povo trabalhador estava sujeito à exploração e à repressão, vivendo basicamente na miséria e que todas as nações oprimidas lutavam de uma forma ou de outra pela sua libertação.

As colônias eram a origem de seu senso de internacionalismo. Além disso, percebeu que nos países capitalistas desenvolvidos da época, que se autodenominavam como “o mundo civilizado”, as elites viviam luxuosamente e a grande maioria dos trabalhadores estava cada vez mais empobrecida. A compreensão desta situação o levou gradualmente a uma consciência de classe, expressa nos seus escritos e relatada pelos biógrafos.

Assim, foi neste ambiente de dez anos de viagens, investigações e atividades nas colônias e no Ocidente que Ho Chi Minh adquiriu a percepção sistematizada nas Teses Leninistas sobre a Questão Colonial, publicadas em várias edições do jornal L'Humanité, em 1920.  A este respeito, Ho Chi Minh declarou que no começo foi o patriotismo e não o comunismo que o levou a acreditar em Lênin e na III Internacional. Mas pouco a pouco, explicou ele, progredindo passo a passo na luta e combinando estudos teóricos e atividades práticas, veio a compreender que o socialismo e o comunismo seriam capazes de emancipar os trabalhadores e os povos oprimidos (MINH, 1960).

Poderia se dizer que Ho Chi Minh havia encontrado finalmente uma saída para o que chamava de salvação nacional, ou seja, a libertação nacional associada com a revolução, seguindo no rumo de uma revolução socialista.

Entre 1911 e 1920 Ho Chi Minh visitou mais de 20 países em diferentes continentes. Lia com grande voracidade os clássicos da literatura russa, inglesa e francesa como Leon Tolstói, William Shakespeare, Victor Hugo, Anatole France, Émile Zola; e também os textos de Karl Marx e Vladimir Lênin, passando a dominar fluentemente o francês, inglês, alemão, russo e chinês. Foi em função da leitura da obra de Lênin, entretanto, que Ho Chi Minh procurou se aprofundar no estudo da questão colonial. Entre outros, o artigo de Lênin sobre o Congresso Socialista Internacional de Stuttgart, aborda essa questão:

 

No es la primera vez que se trata la cuestión colonial en los congresos internacionales. Hasta ahora, las decisiones de éstos han consistido siempre en una condenación categórica de la política colonial burguesa como política de rapiña y de violencia. Esta vez, la comisión del congreso estaba compuesta de manera tal, que han prevalecido los elementos oportunistas, con el holandés Van Kol a la cabeza. En el proyecto de resolución se había incluido una frase, en la que se decía que el congreso no condenaba en principio toda política colonial, que en un régimen socialista puede desempeñar un papel civilizador (LENIN, 1979, p. 23).

 

Contra essa opinião de conciliação com o colonialismo, Ho Chi Minh lutou de forma contundente durante todo o período em que trabalhou na Internacional Comunista. Sua leitura mais impactante, no entanto, foi a obra de Lênin intitulada Esboço das Teses Preliminares sobre a Questão Nacional e Colonial que foi publicada pela primeira vez no jornal L’Humanité na edição de 16 e 17 de julho de 1920.

 

La vasta política colonial ha conducido en parte al proletariado europeo a una situación tal, que la sociedad no se mantiene con él trabajo de este último, sino con el de los indígenas, casi esclavizados, de las colonias. La burguesía inglesa, por ejemplo, obtiene más ingresos de las decenas y centenares de millones de habitantes de la India y de otras colonias que de los obreros ingleses. En tales condiciones se crea en ciertos países la base material, económica, para que el proletariado de tal o cual país se contamine de chovinismo colonial. Naturalmente, esto sólo puede ser un fenómeno transitorio, pero hay que tener clara consciencia del mal, comprender sus causas, a fin de saber cohesionar al proletariado de todos los países para la lucha contra semejante oportunismo (LÊNIN, 1907, p. 31).

 

Foi em textos como este que Ho Chi Minh encontrou respostas iniciais para sua indagação de como estabelecer as formas para a libertação de seu país do jugo do colonialismo.

 

3.2. O debate sobre a questão colonial no âmbito da Internacional Comunista
 

Fazendo um rápido retrospecto das primeiras Internacionais, pode-se dizer que a I Internacional lançou as bases do movimento comunista internacional. Foi fundada em Londres no ano de 1864 e contou com a participação de Karl Marx e Friedrich Engels. A Associação Internacional dos Trabalhadores, como era chamada, funcionou até 1876. Pregou, entre várias bandeiras, a abolição dos exércitos nacionais, o direito de greve e a coletivização dos meios de produção. Neste curto período, entretanto, não foi possível tratar da questão colonial.

Com a derrota da Comuna de Paris em 1871, a Internacional somente retoma os trabalhos em 1889 no Congresso de Paris, já sob o nome de II Internacional. Em 1914, os dirigentes desta Internacional aderiram às posições imperialistas nas possessões coloniais, traindo o lema de fundação “Proletários de todos os países, uni-vos”.

Em 1917, a Revolução de Outubro na Rússia foi vitoriosa inaugurando novo ciclo do movimento comunista internacional. Em 1919 instalou-se em Moscou a III Internacional — em russo, o Comintern — uma reunião internacional dos Partidos Comunistas de diversos países que perdurou até 1943. Lênin foi o organizador e ideólogo do início desta Internacional. A partir de sua fundação, essa organização internacional começava a realizar regularmente seus Congressos.

Ho Chi Minh foi pela primeira vez a Moscou em 1922, como delegado ao IV Congresso da Internacional Comunista (de 30 de novembro a 5 de dezembro), onde o tema central dos debates versou a respeito da política de “Frente Única”, além de discutir as questões ligadas à luta dos negros pela igualdade, assim como a questão do trabalho nos sindicatos e a situação dos comunistas na Ásia e no Pacífico. Por coincidência ou não, este Congresso criou uma Seção Sul-Asiática. Ho Chi Minh voltou à França em seguida e somente retornou a Moscou em 1923 quando da realização do Congresso Internacional dos Camponeses. Foi nesta ocasião que ele permaneceu na capital da URSS por mais de ano, quando participou de um curso de organização política.

Esse período foi marcado por alguns eventos importantes. De 1920 a 1923, Ho Chi Minh foi o dirigente do Subcomitê do Partido Comunista Francês para as Colônias e participou do I e do II Congressos do PCF. Nesses dois congressos, criticou a insuficiente atenção dada pelo Partido às questões coloniais.

Em um discurso preparado por Ho Chi Minh para a IC em 1924, ele apresentou um quadro que acabou ganhando grande repercussão:

 

Ao apresentar os dados constantes da tabela acima durante sua intervenção no 5º Congresso da Internacional Comunista, em Moscou, Ho Chi Minh mostrou a discrepância entre a população dos nove países colonialistas alinhados que, somados, perfazem 320 milhões e 657 mil habitantes repartidos em 11 milhões e 470 mil e 200 km², e exploram um total de 560 milhões e 193 mil habitantes repartidos em 55 milhões e 637 mil km². O delegado vietnamita continuou sua fala destacando que mais eloquentes eram os dados se se considerasse a Inglaterra isoladamente: A população das colônias britânicas é 8 vezes maior do que a população da Inglaterra e o território colonial 232 vezes maior do que a da metrópole. Em relação à França, ela ocupa território 19 vezes maior do que o seu próprio território e a população de suas colônias perfazem 76 milhões e 924 mil habitantes, enquanto a metrópole possui apenas 39 milhões de pessoas.

Ao mostrar este quadro da realidade colonialista da época, Ho Chi Minh procurou mostrar que as atenções dadas pelas políticas dos Partidos Comunistas das metrópoles não condiziam com a realidade prática das questões coloniais, pois os programas e plataformas destes partidos, no que se refere às possessões coloniais, estavam relegados à letra morta. E o delegado da tribuna do Congresso mostrou que essa orientação não correspondia à política defendida por Lênin.

No trabalho de Lênin Sobre o Direito das Nações à Autodeterminação, o conceito de autodeterminação das nações é encarado como a separação estatal das coletividades nacionais estrangeiras, entendendo-se a formação de um Estado nacional independente (LÊNIN,1914).

De fato, a partir de seus artigos sobre a questão colonial, Ho Chi Minh acabou por aportar uma importante contribuição ao estudo do colonialismo e às questões da luta pela libertação das nações do jugo colonial. O foco desses artigos era justamente a forma de exploração que acontecia naqueles países sob domínio não apenas da França, mas também da Inglaterra, da Holanda, de Portugal e Espanha, entre outros. Esses artigos foram selecionados e reunidos depois em dois livros: Bán án chê dô thúc dân Pháp (O julgamento do colonialismo francês, em tradução livre), publicado em 1925, e Dây công lý cúa thúc dân Pháp ò Dông Duon (Aqui está a Justiça do Colonialismo Francês na Indochina, em tradução livre).

Nesses livros, Ho Chi Minh estudou a natureza e a violência das leis com as quais o colonialismo operava nas colônias:

 

The history of any colonial conquest has been written from beginning to end with the blood of the natives. And the colonies are the embodiment of the ruthless and barbarous rule of colonialists over millions of natives (MINH, 2011, p. 243).

 

E continua sua análise da seguinte maneira:

 

Most of the vital force of international capitalism is drawn from the colonies, where capitalism exploited raw material from the colonies, where they invested, sell their consumer goods, recruited cheap labor, and in particular native soldiers for its anti-revolutionary military forces” (MINH, 2011, p. 243).

 

O mais importante nesse esforço teórico de Ho Chi Minh foi deslindar um tipo de análise que se difundia entre os dirigentes dos partidos comunistas da Europa, especialmente no que se refere às relações entre o que concebiam como tarefas do chamado proletariado dos países centrais e as tarefas do proletariado dos países coloniais. Segundo Ho Chi Minh, o imperialismo havia desenvolvido uma estratégia de dominação do proletariado das metrópoles e também de controle do movimento operário nas colônias. Escreveu:

 

They used the White proletariat to conquer the proletariat in the colonies. Then they used the proletariat in one colony to fight the proletariat in another colony. Finally, they relied on the proletariat in the colonies in order to rule over the white proletariat” (MIHN, 2011, p. 246).

 

Desta forma, Minh estabeleceu a seguinte analogia sobre essa questão teórica:

 

Capitalism is a leech with a trunk stuck on the metropolitan proletariat and another trunk stuck on the proletariat in the colonies...If we want to kill this leech, we have to cut both trunks. If we only cut one trunk, the other will continue to suck the blood of the proletariat and the animal will continue to live on and another trunk will grow out” (MINH, 2011, p. 298).

 

E desse modo mostrou que o colonialismo não se tratava de um inimigo apenas das nações oprimidas, mas também de um inimigo das classes operárias das próprias metrópoles coloniais.

Com base nessa análise, Ho Chi Minh criticou fortemente a posição de vários partidos comunistas europeus – como já foi referido acima – de subestimação generalizada da questão colonial, e a pouca atenção que se costumava dar, à época, aos problemas da revolução nas colônias. A crítica mais severa feita por ele nesse 5º Congresso da Internacional Comunista, entretanto, foi quando acusou os partidos comunistas europeus de subestimarem a importância da luta anticolonial para a correlação de forças internacional:

 

Discutindo a possibilidade e os meios para realizar a revolução, preparando o seu plano de guerra, vocês, camaradas ingleses e franceses, e vocês também, camaradas de outros países, perderam completamente de vista esse importante ponto estratégico. Por isso, grito aqui com todas as minhas forças: cuidado!  (MINH, 2011, p. 274).

 

Neste sentido, Ho Chi Minh contrastou a tese do Manifesto da Internacional Comunista dirigida aos proletários de todo o mundo em 1919, quando se afirmava:

 

The emancipation of the colonies is possible only in conjunction with the emancipation of the metropolitan working class. The workers and peasants not only of Annam, Algiers, and Bengal, but also of Persia and Armenia, will gain their opportunity of independent existence only when the workers of England and France have overthrown Lloyd George and Clemenceau and taken power into their own hands (RAKOVSKY et al, 1919, p. 32).

 

Sobre essa posição da Internacional Comunista Ho Chi Minh argumentou que a emancipação vietnamita somente poderia ser vitoriosa a partir dos próprios esforços dos vietnamitas. E afirmou:

 

If Vietnam’s national revolution gains victory, French capitalists will be weakened, it would be easier for the french workers and peasants to succeed in their revolution. In 1945, as Japan surrendered to the Allies, the opportunity for the revolution in Vietnam had come (MINH, 2011, p. 275).

 

A partir desse momento, Ho Chi Minh conclamou a Nação para que todos se colocassem de pé e utilizassem sua força para conquistar a emancipação (HO CHI MINH, V Internacional Comunista, p. 554). Sua conclusão a respeito das perspectivas da luta emancipatória na Indochina o levou ao seguinte apelo às forças que pretendiam a libertação do país no Congresso de fundação do Partido Comunista do Vietnã, que aconteceu no sul da China, onde esses líderes se encontravam exilados, em 3 de fevereiro de 1930:

 

The inhuman oppression and exploitation of French imperialism has made clear to our fellow-countrymen that if there is a revolution they can live, without revolution it would be impossible for them to live. As a result, the revolutionary movement is waxing stronger with every passing day (MINH, 2011, p. 9).

 

Ainda na China, Ho Chi Minh fundou a Liga da Juventude Revolucionária Vietnamita, que passou a editar um jornal chamado Juventude. Ele foi responsável também pela organização de um curso para quadros revolucionários vietnamitas. Suas aulas nesse curso foram publicadas em livretos intitulados O caminho da revolução. Esse material contém uma apresentação simples e direta de seu pensamento sobre os problemas da Revolução no Vietnã. A partir daí, Ho Chi Minh selecionou alguns alunos mais aplicados para enviar para a Universidade Militar de Whampoa (no sul da China) para que se tornassem futuros líderes da revolução vietnamita.

Ho Chi Minh viveu na China em Guangzhou e no nordeste do Sião (Tailândia), onde se preparou e se formou política e ideologicamente para o novo tipo de partido que iria protagonizar. Em outubro de 1930, em Hong Kong, a primeira reunião de todo o colegiado do Comitê Central do Partido, seguindo uma orientação da Internacional Comunista, decidiu mudar o nome do Partido para Partido Comunista da Indochina (PCI). Formalmente dissolvido em 1945[8], o Partido reapareceu em 1951 como o Partido dos Trabalhadores do Vietnã. Nessa ocasião, constituíram-se também partidos independentes no Laos e no Camboja. Em 1976, no seu 4º Congresso, o partido voltou a assumir o nome de Partido Comunista do Vietnã.

 

3.3. Os desafios de Ho Chi Minh para galvanizar o Vietnã com suas ideias
 

A esta altura, na década de 30 do século passado, Ho Chi Minh já se tornara um prestigioso quadro político da Internacional Comunista (IC), especificamente no que diz respeito à questão nacional dos países orientais. No cumprimento de missões da IC na China, acabou preso pelas forças do Kuomintang, o Partido Nacionalista chinês que rompera relações com Moscou. Depois de escapar da prisão de Hong Kong e de retornar à URSS, Ho Chi Minh não assumiu nenhuma tarefa e foi enviado para um curso político de longo prazo. De 1934 a 1935 estudou na Escola Internacional V. I. Lênin e entre 1937 e 1938 fez um curso de pós-graduação no Instituto de Investigações dos Problemas Nacionais e Coloniais do Partido Comunista Soviético.

Após sete anos de atividades nesse curso, Ho Chi Minh escreveu uma carta ao membro do Comintern responsável por ele procurando mostrar que seria muito mais útil ao movimento comunista internacional se voltasse para o Vietnã e contribuísse para a construção da resistência e da conquista da independência nacional. (Veja a íntegra desta carta no Anexo 1 desta Monografia)

A partir desse pedido, os dirigentes do Comintern liberaram Ho Chi Minh para que pudesse voltar à sua terra natal. Nos anos em que Ho Chi Minh passou em Moscou, o cenário mundial transformara-se rapidamente. Na Alemanha se assistia ao surgimento do nazismo, enquanto na Itália e na Espanha fenômenos parecidos tomavam conta da política: a ascensão do fascismo na Itália, com o protagonismo de Mussolini, e a vitória do general Franco na Espanha. Entre 1936 e 1938, a França experimentou o governo progressista da Frente Popular, com o socialista Léon Blum na liderança. Este período acabou tendo impacto no Vietnã, pois criou-se um clima de maiores liberdades políticas, possibilitando inclusive a legalidade do Partido Comunista da Indochina. Ao final de 1938, com a queda de Léon Blum e a eleição do direitista Edouard Deladier, voltaram a dominar a reação e as restrições democráticas na França e nas suas colônias, empurrando novamente o Partido Comunista da Indochina para a clandestinidade.

Enquanto os Estados Unidos valorizavam seu isolacionismo, o Japão exercia a ampliação descomunal de seu imperialismo, invadindo a Manchúria, a Coreia e várias áreas costeiras da China. Na verdade, o Japão acabou por dominar praticamente a China continental, exatamente na época em que Ho Chi Minh foi enviado para lá. O governo nacionalista de Chiang Kai-shek enfraqueceu-se com sua política reacionária de tipo fascista, após o período inicial em que adotara uma política de alianças, inclusive com os comunistas de Mao Tse-tung. Mas, diante da invasão dos japoneses, impõe-se a necessidade de alianças pontuais com os comunistas para enfrentar o inimigo externo. Chiang ficou responsável por defender as províncias mais importantes e populosas do país, enquanto os comunistas de Mao ficaram com as áreas menos populosas e menos relevantes economicamente. Acontece que os japoneses estavam interessados justamente nas províncias mais ricas em recursos naturais e nas áreas industrializadas.

Ho Chi Minh teve de entrar na mais rigorosa clandestinidade, mudando mais uma vez de identidade, adotando o nome chinês Hu Guang. Funcionou nessa época como uma espécie de informante do Comintern das atividades tanto dos nacionalistas chineses quanto dos comunistas de Mao Tse-tung. De fato, Ho Chi Minh aproveitou aquela situação para retomar os contatos com os membros do Partido Comunista da Indochina e para preparar sua volta ao Vietnã. Em fins de janeiro de 1941 Ho Chi Minh conseguiu entrar em território vietnamita pela região nortista de Cao Bang.

 

3.4. A conquista da independência nacional e a luta pela reunificação do país
 

Uma importante modificação tática das forças de resistência anticolonial ocorreu com a volta de Ho Chi Minh ao Vietnã. Ele retomou sua ideia de 11 anos antes de constituição do Partido Comunista do Vietnã e não do PC da Indochina. Com isso, os setores burgueses vietnamitas ficariam mais à vontade para apoiar o movimento de libertação nacional, já que este não envolveria outros países da península indochinesa. Outra questão secundarizada por Minh foi o problema agrário. Foi deixada de lado a bandeira da reforma agrária e com isso incorporou-se um grande setor de pequenos proprietários e camponeses que não concordavam com a coletivização do campo.

Neste momento, Ho Chi Minh escreveu uma carta aberta ao povo vietnamita, dirigida especialmente aos patriotas, intelectuais, camponeses, trabalhadores, comerciantes, soldados e conclamava:

 

Hoje, a hora da libertação chegou. A França se mostra incapaz de exercer por conta própria a dominação do nosso país. Quanto aos japoneses, em luta contra os chineses e os aliados, eles não conseguem reunir todas as suas forças contra nós. Se todo o nosso povo se unir, poderemos ganhar das forças expedicionárias francesas e japonesas, mesmo que eles disponham de melhores armamentos (MINH, 1944, p. 43).

 

Os novos fatos da cena internacional corroboraram a posição de Ho Chi Minh. Em junho de 1941 a Alemanha invadiu a União Soviética e logo em seguida os japoneses atacaram Pearl Harbour. Minh, nesta ocasião, escreveu vários artigos nos quais previu o final da guerra, alertando seus companheiros para a necessidade de se prepararem para assumir o poder em Hanói. Na tentativa de angariar apoio junto aos chineses — que entraram em contradição com a política exterior dos soviéticos —, Ho Chi Minh se dirigiu ao sul da China e acabou preso por forças nacionalistas. Somente foi libertado pela amizade que havia construído em períodos anteriores com o general nacionalista Zhang Fakui e o dirigente comunista Chu En-lai.

Enquanto isso, no Vietnã, o movimento Vietminh, criado pelo Partido Comunista do Vietnã em 1941 sob a liderança de Ho Chi Minh, ampliava seu apoio e organização em todo o país. Pela primeira vez na história de resistência vietnamita, um grupo conseguira manter a coesão e o rumo mesmo com a ausência momentânea de seu líder máximo. Tratava-se de uma ampla Frente política de forças interessadas na salvação nacional, unindo uma grande quantidade de vietnamitas cujo lema de união nacional envolveu as populações locais na sua causa e nas reformas socioeconômicas que propunha.

Em 1944, Ho Chi Minh já estava de volta ao Vietnã, retomando os seus contatos com o Vietminh. Seu companheiro de lutas Vo Nguyen Giap foi encarregado de construir um exército de propaganda e libertação popular. Com essas orientações, Giap formou a primeira unidade do exército, composta por 34 jovens guerrilheiros, e que dez anos depois, robustecido com inúmeros batalhões, foi capaz de derrotar o experiente exército colonial francês, na batalha famosa de Dien Bien Phu.

Nesta tarefa de organizar o movimento do Vietminh, ocorreu a segunda oportunidade de Ho Chi Minh negociar com o governo dos Estados Unidos, após a frustrada tentativa de encontrar-se pessoalmente com Woodrow Wilson, na Conferência de Versalhes. Foi quando um avião de reconhecimento americano, que sobrevoava a região norte do Vietnã, sofreu uma avaria e o seu piloto conseguiu saltar de paraquedas. Capturado pelas forças do Vietminh, foi imediatamente levado à presença de Ho que, por sua vez, tinha conhecimento de que o presidente americano naquela ocasião, Franklin Delano Roosevelt, havia se colocado contra o restabelecimento do sistema colonial na Ásia. Além disso, Roosevelt também fizera críticas ao seu homólogo francês, general De Gaulle. Ho Chi Minh se dispôs a acompanhar o piloto até sua base em Kunming para tentar conversar com os americanos sobre como o Vietminh poderia contribuir para a derrota dos japoneses, em troca do reconhecimento da organização como única representante do povo vietnamita àquela altura. Mais uma vez, entretanto, viu frustrada a sua tentativa de aliança com os EUA. De fato, os americanos previam naquele final da guerra contra o Eixo que a URSS iria seguir caminho próprio e provavelmente apoiaria Ho Chi Minh.

No mesmo rumo de buscar alianças, Ho Chi Minh tentou aproximação com os gaullistas na esperança de que o general De Gaulle assumisse posição mais liberal em relação às colônias, mas não houve acordo possível. De volta ao Vietnã, tomou conhecimento de que os japoneses haviam confiscado a colheita de arroz – o que provocou uma catástrofe alimentar na região norte do país. Na verdade, mais de um milhão de pessoas morreram de fome na ocasião. Ao lado deste gigantesco problema humanitário, os japoneses resolveram invadir todas as bases do Exército colonial francês no Vietnã, restituindo o imperador Bao Dai ao poder.

Estes fatos inusitados mudaram radicalmente a situação política e militar no país, e fizeram com que Ho Chi Minh tomasse uma série de medidas emergenciais para melhor aproveitar a nova relação de forças na região. Com os ataques atômicos em Hiroshima e Nagasaki, o poder japonês começou a entrar em colapso e era preciso que o Vietminh avançasse rapidamente para libertar Hanói antes que os franceses se reorganizassem para retomar o poder colonial perdido.

Na Conferência de Potsdam, realizada em fins de julho de 1945, Winston Churchill, Harry Truman e Josef Stálin decidiram que as forças japonesas do norte do Vietnã seriam desalojadas pelo exército de Chiang Kai-shek e as estacionadas ao sul do país ficariam sob o encargo do exército britânico.

Foi nesta oportunidade que Ho Chi Minh escreveu uma carta a seus compatriotas analisando o novo quadro político criado e destacando que as forças japonesas estavam se desagregando e o movimento de salvação nacional crescia em todo o país.  

Por sugestão de Ho Chi Minh, foi inscrita na Declaração de Independência do país a citação de um trecho da Declaração de Independência Americana de 1776, que professa: “Todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade, a liberdade e o direito à felicidade” (ARMITAGE, 2007). Em realidade, desde 1776 até praticamente nossos dias, mais de cem documentos semelhantes à Declaração de Independência americana foram emitidos em nome de grupos regionais ou nacionalistas, e um número maior ainda de declarações locais surgiu em regiões como a América Central, na década de 1820, na China, após a revolução de 1911, e na Coreia, entre 1918 e 1919, como relata o professor David Armitage, do Departamento de História da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em seu livro The Declaration of Independence: A Global History (ARMITAGE, 2007).

De acordo com Armitage, a declaração anticolonialista que seguiria mais claramente os moldes do documento americano de 1776 (A Declaração de Independência dos Estados Unidos) seria a de independência vietnamita, promulgada no rescaldo do colapso do império francês na Indochina em 1945.

Apesar dos esforços de Ho Chi Minh, em outubro de 1945 ficou claro que o único povo disposto a reconhecer a liberdade e a independência do Vietnã era o próprio povo vietnamita.

A partir de 1945, Ho Chi Minh dedicou-se completamente a organizar o país sob uma nova ótica, nacional, popular, independente e soberana. Havia, todavia, que preparar a defesa do Vietnã em diversas frentes de luta, nas articulações internacionais para buscar o reconhecimento internacional de sua independência e a realização da Conferência de Paz; e na organização política e militar que permitisse a unificação nacional — o grande objetivo que estava sempre presente nas preocupações do novo governo — e a preparação para as grandes batalhas que viriam pela frente: como a tentativa feroz dos franceses de recuperarem a sua antiga colônia; a ação americana para manter o país dividido; e as ações do Exército nacionalista chinês, que também nutria interesses estratégicos no mar do Sul da China.

Já a posição dos britânicos estava de certa forma condicionada a alianças mais complexas com a França de De Gaulle. Winston Churchill e o depois ministro Clement Attlee estavam mais preocupados com o futuro da Europa e não consideravam importante, naquele momento, tratar da Indochina que estava sob a influência francesa, pois estavam com problemas suficientes em Burma, Cingapura, Malásia e principalmente Índia. Na realidade, os ingleses contribuíram para libertar os franceses das mãos dos japoneses, ajudando-os com armas e munição, e em seguida voltaram suas baterias contra os avanços vietnamitas no sentido da independência.

Diante desse cenário complexo e em transformação permanente, Ho Chi Minh dirigia um governo de coalizão, com forças diferenciadas, e procurava basicamente organizar a nova Nação independente, diante de tantos interesses regionais e internacionais díspares. Os ingleses desembarcaram na Cochinchina (ao Sul do Vietnã) para cumprirem sua missão, assumida em Potsdam, de expulsar os japoneses na região meridional. Encontraram um país tomado pelas tropas francesas e japonesas. Por outro lado, os próprios vietnamitas lutavam pela sua libertação do jugo colonial, na tentativa de consolidar a sua independência. Ao Norte, 180 mil homens do Exército de Chiang Kai-shek invadiram o Vietnã para cumprir a sua parte no acordo de Potsdam, ou seja, expulsar os japoneses da região setentrional da Indochina. (GIAP, 2011)

Os americanos continuavam a oferecer apoio logístico ao Exército francês. Na verdade, quando o Acordo de Paz de Genebra foi assinado em 21 de julho de 1954, os Estados Unidos já estavam envolvidos no Vietnã ao lado dos franceses. Forneceram US$ 800 milhões ao ano como ajuda econômica ao exército colonial francês. O vice-presidente, à época Richard M. Nixon, disse: “If to avoid further Communist expansion in Asia, we must take the risk of putting our boys in. I think the Executive Branch has to do it” (New York Times 1969).

Os franceses, livres dos japoneses com o final da guerra, assinaram um acordo secreto para substituir os homens de Chiang Kai-shek ao Norte do Vietnã, e colocaram em marcha uma esquadra para tomar o porto de Haiphong, na Baía de Tonquim. Os chineses, então, forçaram os franceses a se acertarem com os vietnamitas de Ho Chi Minh antes da chegada das tropas francesas pelo mar. Bem vistas as coisas, os vietnamitas preferiram um acordo temporário com os franceses para num primeiro momento se defrontarem com os chineses, que sempre foram considerados pelos liderados de Ho Chi Minh como mais difíceis de enfrentar.

Para os vietnamitas, era mais razoável deixar 15 mil soldados franceses entrarem na região norte do país, por um tempo determinado – com a contrapartida de que os 180 mil homens de Chiang Kai-shek não penetrassem no seu território –, pois, caso instalassem suas tropas ao norte, Ho Chi Minh e seus comandados não saberiam até quando permaneceriam na região. Foi o que ocorreu. Vietnamitas e franceses assinaram um acordo que, por sua própria natureza, revelou-se inconsistente. Se o texto fosse levado a sério pelos franceses teriam de ter reconhecido o Vietnã como um “Estado Livre”, o que configuraria uma extraordinária vitória para o Vietminh e para o novo governo de Ho Chi Minh. (GIAP, 2011)

Antes desse acerto, entretanto, foi estabelecido que haveria a assinatura de um acordo em Paris, entre as partes vietnamita e francesa, que deveria ser realizado em julho no Palácio de Versalhes. As negociações com a França se complicaram em função de iniciativas políticas do Almirante D’Argenlieu, comandante das tropas coloniais, que convocara uma reunião no Vietnã para estabelecer uma nova divisão política do território vietnamita. Tal atitude contrariou a delegação vietnamita em Paris que resolveu retornar ao seu país, enquanto Ho Chi Minh lá permaneceu para tentar mais uma vez uma saída para as negociações. Na ocasião, o líder vietnamita tentou articular com o governo americano na embaixada dos EUA, mas novamente não foi bem-sucedido. O próprio Partido Comunista Francês foi contatado, mas também estava envolvido em alianças políticas no governo e acabou não contribuindo para uma saída para as negociações de Paz. O máximo conseguido por Ho Chi Minh foi a assinatura de um acordo de cooperação franco-vietnamita nas esferas econômica, cultural, diplomática e militar. Neste sentido, esse acordo foi considerado uma vitória diplomática, pois o documento reconhecia a existência do “Governo da República Democrática do Vietnã”, como parte signatária.

Na realidade, as tropas vietnamitas e francesas entraram em choque em várias ocasiões, especialmente em dois grandes episódios que ficaram conhecidos como os incidentes de Haiphong e de Langson, ambos com trágicos resultados, com centenas de mortos e feridos.

Em seu livro de memórias, (editado nos Estados Unidos por Edward Crankshaw, 1971 que obteve ampla repercussão pela forma crítica com que tratava a atuação de Josef Stalin) o ex-premiê da União Soviética, Nikita Kruschev, relata conversas com Ho Chi Minh sobre a situação da guerra contra os franceses em meados da década de 1950:

 

Ho Chi Minh told us about the struggle his people were waging against the French occupation forces and asked us to give him material aid, particularly arms and ammunition. After he left Moscow, Ho Chi Minh asked us in writing to send him quinine because his people were suffering from malaria epidemic. Our pharmaceutical industry produced quinine on a large scale, so Stalin went overboard with generosity and said, “Send him half a tone” (CRANKSHAW, 1971, p. 533).

 

Dos preparativos para a Conferência de Genebra, em 1954, Kruschev lembra uma conversa lateral que manteve com o enviado do Partido Comunista da China, Chu En Lai, como representante de seu país nesse encontro, a respeito da situação no Vietnã:

 

Chu En lai buttonholed me and took me into a corner. He said: Comrade Ho Chi Minh has told me that the situation in Vietnam is hopeless and that if we do not attain a cease-fire soon, the Vietnamese will not be able to hold out against the French. Therefore, they have decided to retreat to the Chinese border if necessary, and they want China to be ready to move troops into Vietnam as we did in North Korea. In other words, the Vietnamese want us to help them drive out the French (CRANKSHAW, 1971, p. 534).

 

A essa fala, Chu En Lai argumentou que os chineses já haviam perdido muitos homens na guerra da Coreia e eles não teriam condições de se envolver em outra guerra naquele período. Afinal de contas, após muitas negociações, os chineses e soviéticos concordaram em ajudar os vietnamitas da melhor forma sem entrarem diretamente na luta contra os franceses. E acabaram assinando os acordos em Genebra que decidiram dividir o Vietnã em dois, a partir do Paralelo 17, com o compromisso da realização de um referendo nacional para decidir sobre a reunificação.

Em 6 de dezembro de 1953, o então presidente Ho Chi Minh e o governo do Vietnã do Norte aprovaram o plano para o lançamento da campanha militar que passou à história com a denominação de Dien Bien Phu, contra os colonialistas franceses. De 13 de março a 7 de maio de 1954, a fortaleza construída pelos franceses na região de Dien Bien Phu, perto da fronteira com o vizinho Laos, foi completamente destruída pelos vietnamitas. Um trabalho que levou meses a fio — persistente e minuciosamente organizado por Giap — para posicionar armamento pesado, muito bem camuflado, nas montanhas que cercavam a fortaleza francesa. Ao final de 55 dias ininterruptos de combates, mais de 11 mil soldados franceses foram obrigados à rendição, inclusive o coronel Christian de Castries, não restando à França senão sentar-se à mesa de negociações em Genebra, colocando um fim ao seu processo de colonização de quase 80 anos.

Os acordos de Genebra previram a retirada de todas as tropas francesas do Vietnã setentrional, a partir do Paralelo 17, ficando sob o governo do norte dirigido por Ho Chi Minh, e a parte meridional sob o controle do Imperador Bao Dai. Ambas as partes se comprometeram com a realização de um referendo nacional para definir a reunificação do país. Entretanto, logo após a proclamação da independência em Hanói, as tropas do exército norte-americano invadiram novamente o país a partir de Saigon, na região sul.

Nessa época os vietnamitas ficaram preocupados com as resoluções do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, especialmente aquelas relacionadas com a doutrina encabeçada por Nikita Kruschev da chamada coexistência pacífica com o Ocidente. Por volta de 1959, em função disso a liderança vietnamita adotou uma nova política no 15º Pleno do Partido Comunista do Vietnã, no qual enfatizaram a concepção estratégica da Revolução como uma necessidade para o processo de unificação do país.

Finalmente, depois de muita luta, na primavera de 1975 as forças patrióticas do Vietnã desencadearam uma grande ofensiva e derrubaram o governo pró-americano instalado em Saigon.

Em 25 de abril de 1976, a República Democrática do Vietnã passou a denominar-se República Socialista do Vietnã, que começou a ser governada de forma unificada, com capital em Hanói. Em 1977, o Vietnã foi aceito como membro plenipotenciário da Organização das Nações Unidas, a ONU. E atualmente faz parte de todas as principais organizações internacionais, como as Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento UNCTAD, por exemplo. Integra também várias organizações regionais, como a ASEAN (que acaba de comemorar 48 anos de existência). E ainda a UNESCO reconheceu Ho Chi Minh como herói da libertação nacional e uma celebridade da cultura mundial.

 

3.5. O pensamento norte-americano sobre o Vietnã
 

Para uma pesquisa sobre o pensamento norte-americano a respeito da guerra do Vietnã é de grande valia o estudo do livro já citado do ex-secretário de Estado Robert McNamara, no qual alinha as razões de por que – conforme o seu entendimento – os Estados Unidos foram vencidos. McNamara destaca alguns pontos de seu livro In Retrospect:

 

Nós subestimamos naquela ocasião — assim como o fizemos desde então — as intenções geopolíticas de nossos adversários (neste caso os Vietnamitas do Norte e os Vietcongues, apoiados pela China e pela União Soviética), e supervalorizamos os perigos representados por eles e suas ações práticas; encaramos o povo e os líderes do Vietnã do Sul a partir de nossos próprios conceitos e de nossa própria experiência. Nós os enxergamos como se tivessem a sede e a determinação de lutar por liberdade e democracia (McNAMARA, 1995, p. 321).

 

McNamara, ao mesmo tempo, reconhece em seu livro a subestimação da realidade do Vietnã e do Sudeste Asiático:

 

Nós nos equivocamos completamente a respeito das forças políticas no interior da nação; nós subestimamos o poder do nacionalismo para motivar a população (neste caso os norte-vietnamitas e o Vietcongue) a lutar e morrer por seus ideais e valores, assim como continuamos a nos posicionar da mesma forma em muitas regiões do Planeta; nossos julgamentos equivocados como estes refletem nossa profunda ignorância a respeito da história, da cultura e da política da população naquela área, além da personalidade e os hábitos de seus líderes (McNAMARA, 1997, p. 323).

 

O autor amplia sua análise sobre a conduta dos Estados Unidos para com o conjunto de suas Relações Internacionais naquela época, tentando justificar os posicionamentos americanos em relação ao Sudeste Asiático pela falta de estudiosos competentes que tivessem analisado a região e sua história, como se pode ler:

 

Certamente devemos ter cometido os mesmos falsos julgamentos em relação aos soviéticos durante nossas frequentes confrontações – sobre Berlim, Cuba, o Oriente Médio, por exemplo –, se não tivéssemos acolhido os conselhos de Tommy Thompson, Chip Bohlen e George Keenan. Estes diplomatas investiram décadas estudando a União Soviética, seu povo e suas lideranças, como eles se comportaram como tais e como eles poderiam reagir às nossas ações. Seus conselhos se comprovaram falsos para formar nosso pensamento e nossas decisões. Para estes senhores não havia no Sudeste Asiático ninguém que pudesse ser consultado para a nossa tomada de decisões a respeito do Vietnã. Falhamos na ocasião – e desde então – na tarefa de reconhecer as limitações do moderno equipamento militar de alta tecnologia, das forças e da doutrina de enfrentar o que não é convencional e os movimentos populares altamente motivados. Falhamos também ao não adaptarmos nossa tática militar ao objetivo de ganhar os corações e mentes do povo a partir de uma cultura totalmente diferente da nossa (McNAMARA, 1997, p. 322).

 

Por fim, nessa breve síntese feita por McNamara revela-se a grande batalha ocorrida na esfera da propaganda pela conquista dos corações e mentes dos norte-americanos sobre a guerra travada por seus soldados na península do Sudeste Asiático. Ele relata que os Estados Unidos falharam ao não influenciarem o Congresso e o povo americano em um debate aberto e franco dos prós e contras de um envolvimento em larga escala no Sudeste Asiático. Pondera que os imprevistos ocorridos depois do início da ação levaram a população a desacreditar da necessidade da guerra (McNAMARA, 1995).

Outra visão, entretanto, surge na expressão de pensadores como John J. Mearsheimer, em seu livro A tragédia da Política das Grandes Potências, no capítulo intitulado “A base material do Poder”:

 

Ao seu nível mais básico, o poder pode ser definido de duas formas diferentes. O poder, como o defino, representa apenas que ativos específicos ou recursos materiais se encontram à disposição do Estado. Outros, porém, definem o poder em termos de resultados das interações entre Estados. O poder, segundo afirmam, tem tudo a ver com o controle ou a influência sobre outros Estados; é a capacidade de um Estado de forçar outro a fazer algo (MEARSHEIMER, 2007, p. 69).   

 

Assim, Mearsheimer conceitua o poder que, no caso do Vietnã, não pode ser aplicado em sua inteireza, já que os Estados Unidos detinham desproporcional poder militar e dispunham de riqueza para garantirem suas tropas em condições plenas de combate. Outros elementos, portanto, entraram em cena no caso vietnamita, envolvendo fatores ligados à comunicação e ao estado de espírito da consciência das massas nos próprios Estados Unidos, como destaca McNamara em seu livro no trecho reproduzido acima.

Interessante notar que um dos pensadores realistas mais destacados na Teoria de Relações Internacionais Ocidental — Hans J. Morgenthau — foi um crítico inicial e ruidoso da Guerra do Vietnã com o seu artigo Vietnam and the United States, publicado na revista Public Affairs, 1965.

No mesmo artigo, ele também tece considerações acerca do bombardeamento de pequenas potências, com as quais denuncia que os Estados Unidos conduziram, sem sucesso, a campanha de bombardeamento “Rolling Thunder” contra o Vietnã do Norte de 1965 a 1969, com o objetivo de forçar os norte-vietnamitas a pararem de alimentar a guerra na região sul do país e aceitarem a existência de um Vietnã do Sul independente.

A opinião de Morgenthau, entretanto, estava longe de ter consenso entre os pensadores americanos. Henry Kissinger, o representante principal dos Estados Unidos na Conferência de Paz de Paris sobre a guerra do Vietnã, realizada em janeiro de 1973, foi uma das principais vozes antagonistas à sua opinião. Como secretário de Estado, Kissinger visitou vários países envolvidos no conflito do Sudeste Asiático. Bangkok, Vientiane e Hanói foram as capitais escolhidas por ele para controlar in loco a aplicação dos acordos firmados.

O jornalista Seymour Hersh — que no momento colabora para a revista New Yorker — ganhou o prêmio Pulitzer[9]  pela cobertura da Guerra do Vietnã em 1970, ao revelar o massacre cometido pelas tropas americanas na província de My Lai. Este fato demonstra que os movimentos contra essa Guerra nas universidades e entre a intelectualidade cresciam a ponto de o establishment não ter tido condições deaplacá-los.

CONCLUSÃO
 

Ho Chi Minh soube através do tempo analisar, sistematizar e aplicar um pensamento próprio sobre as perspectivas e a estratégia para atingir o objetivo de libertar o Vietnã da dominação estrangeira e iniciar a reconstrução do país.

Tendo em vista a trajetória compilada nos capítulos anteriores, verifica-se que Ho Chi Minh enfrentou o debate teórico e prático do início do século XX, principalmente a partir do final da Primeira Guerra Mundial, quando tentou instigar o pensamento liberal-idealista de Woodrow Wilson em torno de seus 14 pontos. O passo central dessa aproximação deu-se em função do conceito formulado por Wilson sobre a questão da soberania das nações, possibilidade que Ho Chi Minh procurava estender para as Colônias dominadas por potências ocidentais. Essa visão teórica se chocou frontalmente com o realismo dominante tanto na Europa como nos próprios Estados Unidos, onde o poder Legislativo não aceitou as ideias formuladas por Wilson restringindo-se num primeiro momento ao isolacionismo e depois ocupando os espaços criados com a sua ascensão como Nação hegemônica. O principal teórico nessa ocasião foi Hans Morgenthau e o realismo fornecia os fundamentos para essa hegemonia nascente.

O segundo grande embate teórico que Ho Chi Minh ousou estabelecer foi dentro mesmo das linhas de formulação do movimento comunista internacional, quando estudou e escreveu a respeito de como se deveria tratar a questão colonial pelo movimento operário dos países centrais. Segundo sua tese, não seria razoável secundarizar a luta contra o colonialismo em favor da luta de classes nas metrópoles coloniais, mas seriam essenciais uma harmonização e articulação entre o movimento operário dos países colonialistas e o movimento nacionalista desenvolvido nas colônias.

Ao reunir seus artigos de imprensa sobre a questão colonial no livro French Colonialism on Trial, Ho Chi Minh acabou se tornando um analista privilegiado do colonialismo, apresentando de forma original como imperiosa a necessidade da libertação nacional dos países colonizados.

Ainda no debate interno nas fileiras socialistas e comunistas, Ho Chi Minh travou substancial debate sobre a necessidade de formação de Frentes políticas e sociais amplas nas colônias, que englobassem todos os setores e classes que se colocavam contra o colonialismo, isolando apenas as elites que haviam sido cooptadas pelas forças coloniais e que lhes davam suporte. Somente assim, defendia Ho Chi Minh, seria possível levar adiante os processos de independência nacional. Defendia que apenas depois de conquistada a independência é que se deveria tratar da organização e reconstrução nacional para o estabelecimento de regimes políticos condizentes com a relação de forças criada na luta pela independência.

De acordo com sua concepção, a maior parte das forças vitais do capitalismo internacional provinha das colônias, nas quais esse sistema explorava matérias-primas para suas fábricas instaladas nas metrópoles, a partir de onde vendiam produtos industrializados e recrutavam a força de trabalho.

Neste mesmo sentido, revelou em seus escritos qual seria a estratégia do capitalismo e do imperialismo — usar o proletariado das metrópoles para conquistar os trabalhadores das colônias e utilizar o proletariado em uma colônia para lutar contra o proletariado de outra colônia — para comandar o proletariado tanto das metrópoles quanto das colônias.

Um dos conceitos importantes na formação do pensamento de Ho Chi Minh é o de “similaridade”, através do qual ele via características comuns nas teorias de Confúcio, Lênin, Marx e Sun Yat-sen; como, por exemplo, a busca da paz, da felicidade e da justiça para a humanidade: “Da mesma forma que a França quer democracia, ela não tem razão nenhuma para impedir que o Vietnã adquira sua independência” (MINH, 1995, p. 267). Ele defendia que o Ocidente e as filosofias confucionistas levam em conta os mesmos princípios da virtude, ou: “não faça aos outros o que não quer que façam a você” (MINH, 1995, p. 267).

Se fosse possível sintetizar a sua prática nas Relações Internacionais, poderíamos dizer que Ho Chi Minh notabilizou-se pela habilidade em tirar proveito das oportunidades que surgiram no cenário nacional e internacional do seu tempo. Apesar de estar sempre baseado no estudo da realidade objetiva de seu país, o pensamento de Ho Chi Minh foi flexível e ao mesmo tempo ativo, sem aderir a dogmatismos muito comuns  nas décadas de 1940 e 1950, especialmente após o final da Segunda Grande Guerra — como em 1954 —, quando formulou a política das Relações Internacionais dos vietnamitas para aquele período: “A nova situação traz à tona novas tarefas. Agora a situação mudou, e as atuais políticas e bandeiras devem ser alteradas para se adequarem à nova situação criada” (MINH, 1995, p. 315).

É importante notar que Ho Chi Minh, em seus escritos e proclamações, raramente utilizou citações das obras clássicas de Marx ou Lênin, mas procurou usar sempre um tipo de linguagem simples e inteligível ao vietnamita comum, sem grandes estudos. Ele se empenhou em ligar os grandes princípios revolucionários à prática concreta do dia a dia das pessoas, dos trabalhadores e camponeses. Além disso, destacou a importância do desenvolvimento do pensamento independente e da liberdade de expressão.

Seu pensamento procurou distinguir as revoluções em duas grandes categorias: a “Nacional” e a de “Classes”. Segundo Ho Chi Minh, as revoluções nacionais incluíam movimentos como, por exemplo, o movimento dos anamitas para expulsar os franceses (MINH, 1995). Em relação à Revolução Russa, Ho Chi Minh considerou como revolução de classes no poder, pois no caso da Rússia os trabalhadores da cidade e os camponeses derrubaram os capitalistas e tomaram o poder em 1917.

A partir dessa concepção teórica, Ho Chi Minh analisou a formação da sociedade vietnamita através da história e identificou quais contradições concretas se estabeleceram através do tempo, na batalha pela independência em 1945. Os camponeses pobres, os pequenos proprietários e os grandes latifundiários sempre haviam sido a maioria esmagadora da população. Os operários se concentravam relativamente em pequeno número, nas grandes cidades. Com as seguidas invasões e principalmente com o processo de colonização francesa, o Vietnã apresentou como contradição principal a existente entre o seu povo — tomando-se em conjunto praticamente todas as classes sociais — e os invasores e colonizadores que, por sua vez, cooptavam setores das elites dominantes, como foi o caso do imperador Bao Dai. Esse mesmo raciocínio foi adotado por Mao Tse-tung em sua luta revolucionária pela fundação da República Popular da China, em 1949. Neste sentido, ambos os líderes divergiram da orientação emanada do Comintern, em Moscou, que privilegiava a organização dos operários nas fábricas, colocando a organização dos camponeses em plano secundário.

Em 1924, Ho Chi Minh teorizou sobre a questão do nacionalismo e a importância dessa concepção nas definições estratégicas e táticas da revolução vietnamita. Elaborou que o nacionalismo é a força principal do país baseando-se no fato de ter sido decisivo para a luta contra os impostos em 1908 e responsável pelo levante dos camponeses contra o aumento das taxas sobre o sal. Argumentou que o nacionalismo também foi importante para a aliança com os comerciantes anamitas e os negociantes chineses.

Confirmando a análise de Ho Chi Minh citada acima, ainda em 2015 o articulista Thomas Friedman, do jornal americano The New York Times, fez uma referência à Guerra do Vietnã para analisar o envolvimento dos EUA no combate contra o Estado Islâmico, na qual disse:

 

É uma longa história, complicada, eu sei, mas uma grande parte do que foi não compreender que o drama político central do Vietnã foi uma luta nacionalista indígena contra o domínio colonial — não o abraço do comunismo global, a interpretação que lhe é imposta (FRIEDMAN, 2015).

 

E conclui:

 

Os norte-vietnamitas eram ambos os comunistas e nacionalistas — e ainda são. Mas a principal razão que falhou no Vietnã foi que os comunistas conseguiram aproveitar a narrativa nacionalista Vietnamita de forma muito mais eficaz do que os nossos aliados sul-vietnamitas, que foram também muitas vezes vistos como corruptos ou ilegítimos (FRIEDMAN, 2015).

 

Mas Ho Chi Minh avançou em sua teoria ao esclarecer a sua concepção de socialismo: “Building socialism involves changing the whole society, changing nature, making the society free from human exploitation and hunger, and ensuring welfare and happiness for all” (MINH, 1995, p. 447). Ela foi expressa em mais de um texto, como, por exemplo, quando defendeu que o socialismo significa atingir continuamente melhores condições de vida material e espiritual para todo o povo (MINH, 1995).

A concepção de socialismo de Ho Chi Minh poderia ser sintetizada em seus artigos Socialism means, first of all, to make sure that the people are free from misery, everyone has a job, everyone has enough to eat and wear, and has a happy life; Socialism is to make sure that the people become rich, and the country become prosperous; It is the aim of socialism to improve people’s material and cultural conditions, and all this must be built by the people, compilados em sua obra.

Logo após a conquista da independência, em 1946, Ho Chi Minh fez uma conclamação às Nações Unidas pelo reconhecimento internacional como Nação soberana, onde argumentou que o Vietnã estava pronto para abrir suas portas para a cooperação com as nações democráticas, em todos os aspectos. Esse tipo de orientação verificou-se concreto ao se analisar o regime do governo vietnamita chamada de “Doi Moi”, aplicada na política de desenvolvimento econômico para levar a cabo a industrialização e a modernização do país; construindo uma economia independente e soberana e ao mesmo tempo com a participação ativa na integração econômica internacional.

Um aspecto interessante do ponto de vista teórico a ser destacado, e que tem a ver com a atitude atual do governo vietnamita de privilegiar as relações com os Estados Unidos — como ficou patente na participação do Vietnã no acordo celebrado por Barack Obama no final do ano passado envolvendo 12 países, o acordo Trans-Pacífico —, é o de que ao mesmo tempo em que houve uma determinação fortíssima de sempre viver livre da dominação estrangeira, a sociedade vietnamita soube ser aberta e receptiva às ideias estrangeiras desde que fossem úteis a seu povo. Sem dúvida a atitude mencionada acima está de uma forma ou de outra relacionada às graves escaramuças ocorridas nas águas territoriais vietnamitas do Mar do Sul da China, quando empresas petrolíferas chinesas tentaram prospectar o óleo sem consulta prévia aos Vietnã.

No Testamento deixado por Ho Chi Minh, assinado em 10 de maio de 1969, ele faz uma declaração de confiança na capacidade de seu povo levar a luta pela reunificação do Vietnã até a vitória completa, questão que ficou resolvida apenas seis anos depois de sua morte. Disse ele no documento; “Quaisquer que sejam as dificuldades e privações, o nosso povo vencerá infalivelmente!”. E em seguida:

 

A nossa Pátria será certamente unificada. Os nossos compatriotas do Norte e do Sul serão certamente reunidos sob o mesmo teto. O nosso país terá a enorme honra de ser uma pequena Nação que, por um combate heroico, terá vencido dois grandes imperialismos — o imperialismo francês e o imperialismo americano — e terá dado uma digna contribuição ao movimento de libertação nacional (MINH, 1969).

 

Sobre as Relações Internacionais do campo socialista, entretanto, Ho Chi Minh exprime seus sentimentos de preocupação com a divisão existente naquele período.

Em síntese, Ho Chi Minh contribuiu com seu pensamento para a elaboração de uma teoria adaptada às condições asiáticas e particularmente vietnamitas da Questão Colonial e sobre a Revolução de Libertação Nacional. Para isso foi importante sua concepção de como deveriam ser as relações entre a luta da classe operária nas metrópoles coloniais e a luta dos camponeses em união com a incipiente classe operária das colônias na Ásia. Foi igualmente decisivo a sua abordagem de como poderia ser o dinamismo da Revolução anticolonialista e as possibilidades dessa Revolução ser desencadeada antes da Revolução nas Metrópoles, o que se verificou na realidade concreta do Vietnã.

Devemos considerar também como contribuições respeitáveis as teorias desenvolvidas por Ho Chi Minh sobre as relações dialéticas entra a Revolução Nacional e a luta de classes nas colônias, entre a Independência Nacional e a Construção do Socialismo, não como um modelo importado das outras experiências socialistas no Mundo, mas como elaborações próprias dos vietnamitas, vinculando o patriotismo com o internacionalismo. Estas concepções surgiram da necessidade de construção política e econômica de um país semifeudal e colonizado, com uma indústria subdesenvolvida e uma classe operária reduzida.

Fruto da impossibilidade de se realizar o trabalho de manter a soberania nacional com base apenas na cooperação internacional, diante da ação imperialista de grandes potências Ho Chi Minh e seus companheiros (especialmente com a colaboração de Nguyen Von Giap) elaboraram a teoria sobre a Guerra Popular e sobre a organização da Defesa Nacional do Vietnã, o que garantiu o direito do povo de ser o senhor de seu destino.

Ou seja, com base neste estudo ainda preliminar — passível de um aprofundamento maior em cada um de seus aspectos e dimensões —, podemos dizer que esse conjunto de concepções e práticas concretas – aplicadas sob a direção pessoal do líder Ho Chi Minh e que tiveram continuidade sob outras gerações de dirigentes – converge para a assertiva de que se trata de um pensamento Não Ocidental de Relações Internacionais, próprio da civilização vietnamita, fruto de toda uma história de lutas para manter a soberania do Vietnã, a sua unidade territorial, a independência, a democracia e a prosperidade do país.

 

 

O meu último desejo é que todo o nosso partido faça todos os esforços para edificar um Vietnã pacífico, reunificado, independente, democrático e próspero, e contribuir dignamente para a revolução mundial.

(Ho Chi Minh)

 

 

 

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ANEXOS

ANEXO I – Carta de Ho Chi Minh ao seu dirigente no Comintern

 

“Camarada,

 

Hoje assinalo o sétimo aniversário de minha prisão em Hong Kong. É também o marco do início do oitavo ano de minha inatividade. Nesta ocasião, escrevo para perguntar se você poderia me ajudar a mudar esta triste situação.

Peço-lhe, por favor, que me enviem para qualquer lugar ou me mantenham aqui. Por favor, me confiram uma tarefa que vocês considerem útil. O que lhes peço é que não me deixem ficar aqui por muito tempo neste estado de inatividade, uma situação na qual me sinto viver ao lado e por fora do Partido.

Ficaria muito agradecido a você, camarada, se você me permitisse encontrá-lo para uma troca de opiniões. Creio que assim será melhor. Você não tem me encontrado por um longo tempo.

Meu querido camarada, aceite minhas congratulações fraternais,

Ho Chi Minh”

 

ANEXO II – TESTAMENTO DE HO CHI MINH

 

República Democrática do Vietnã

Independência – Liberdade – Felicidade

 

Ainda que a luta de nosso povo contra a agressão dos Estados Unidos pela salvação nacional deva passar por mais dificuldades e sacrifícios, estamos decididos a conquistar a vitória total.

Isso é certo.

Pretendo, assim que isso se resolva, viajar tanto ao Norte quanto ao Sul para felicitar nossos heroicos camponeses, quadros militares e combatentes, bem como visitar os anciãos e nossas amadas crianças e jovens.

Assim, em nome de nosso povo, irei aos países irmãos do campo socialista e aos países amigos de todo o mundo para agradecer por seu apoio de coração e pela ajuda que deram à luta patriótica de nosso povo contra a agressão dos Estados Unidos.

 

 

***

 

Tu Fu, o famoso poeta do período Tang na China escreveu:

“Em todas as épocas, poucos são os que alcançam setenta anos de idade”.

Esse ano, levando em consideração que tenho setenta e nove, posso considerar-me entre esses “poucos”. Ainda assim, minha mente se conserva perfeitamente lúcida, ainda que minha saúde tenha se debilitado um pouco em comparação aos últimos anos. Quando alguém vivencia mais de setenta primaveras, a saúde se deteriora com a idade. Isso não é lá uma maravilha.

Mas quem pode dizer quanto tempo mais serei capaz de servir à revolução, à pátria e ao povo?

Portanto, deixo estas linhas antecipando o dia em que irei reunir-me com Karl Marx, V. I. Lênin e outros líderes revolucionários. Assim, nosso povo em todo o país, nossos camaradas no Partido e nossos amigos no mundo não serão pegos de surpresa.

Primeiro, falarei sobre o Partido: graças a sua estreita unidade e dedicação total à classe operária, ao povo e à Pátria, nosso Partido foi capaz, desde sua fundação, de unir, organizar e dirigir nosso povo, de êxito em êxito, numa firme luta.

 

A unidade é uma tradição extremamente preciosa de nosso Partido e do povo. Todos os camaradas, desde o Comitê Central até as células devem preservar a unidade e a união do pensamento no Partido como a menina dos olhos.

No interior do Partido, estabelecer uma ampla democracia e praticar a autocrítica e a crítica de maneira regular e séria é a melhor forma de consolidar e desenvolver a solidariedade e a unidade. O afeto e a camaradagem devem prevalecer.

O nosso partido é um partido no poder. Cada membro do Partido, cada quadro, devem estar profundamente inspirados pela moral revolucionária e demonstrar laboriosidade, frugalidade, integridade, probidade, dedicação total ao interesse público e completo altruísmo. Nosso Partido deverá preservar a pureza absoluta e provar-se digno de seu papel de condutor a serviço legal do povo.

Os membros da União de Jovens Operários e nossa juventude em geral são bons, sempre estão preparados para se oferecer, sem temer as dificuldades, ansiosos pelo progresso. O Partido deve fomentar suas virtudes revolucionárias e prepará-los para que sejam nossos sucessores, tanto “vermelhos” como “experientes”, na construção do socialismo.

A preparação e a educação das futuras gerações de revolucionários são de grande importância e necessidade.

Nossos trabalhadores, nas planícies e nas montanhas, resistiram durante gerações a penúrias, opressão e exploração feudal e colonial. Além disso, experimentaram muitos anos de guerra.

Porém, nosso povo também mostrou grande heroísmo, valor, entusiasmo e trabalho. Sempre seguiu o Partido com lealdade incondicional desde que veio à luz.

O Partido deve levar a cabo planos eficazes para o desenvolvimento econômico e cultural para melhorar constantemente a vida de nosso povo.

A guerra de resistência contra a agressão dos Estados Unidos pode se prolongar. Nosso povo pode enfrentar novos sacrifícios humanos e materiais. Não importa o que se passe, devemos manter nossa resolução de combater os agressores ianques até alcançarmos a vitória total.

Nossas montanhas sempre existirão, nossos rios sempre existirão, nosso povo sempre existirá. Com a derrota dos invasores norte-americanos reconstruiremos nossa terra até fazê-la dez vezes mais bonita.

Independentemente das dificuldades e dos contratempos que apareçam, nosso povo está confiante de que obterá a vitória total. Os imperialistas dos Estados Unidos certamente terão que renunciar. Nossa pátria certamente será unificada. Nossos compatriotas no Sul e no Norte certamente serão reunidos sob o mesmo céu.  Nós, que somos uma nação pequena, obtemos a mais honrosa medalha por haver derrotado, através de uma heroica luta, dois grandes imperialismos: o francês e o norte-americano, bem como por termos dado uma valiosa contribuição ao movimento mundial de libertação nacional.

 

Sobre o movimento comunista mundial, o fato de ter sido um homem que dedicou toda a sua vida à revolução me faz sentir ainda mais orgulho do crescimento do comunismo internacional e dos movimentos operários, ainda que me doa a divergência que hoje existe entre os Partidos irmãos.

Espero que o nosso Partido faça todos os esforços possíveis para contribuir na restauração da unidade entre os Partidos irmãos que têm por base o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário na razão e no sentimento.

Confio plenamente que os Partidos e países irmãos irão se unir novamente.

No que diz respeito aos assuntos pessoais, por toda a minha vida servi à minha Pátria, à revolução e ao povo com todas as minhas forças e com todo o meu coração. Se agora devo deixar este mundo, não tenho nada do que me lamentar, exceto de não ter sido capaz de servir mais e melhor.

Quando eu já tiver ido, para não desperdiçar o tempo e o dinheiro do povo, devem evitar um funeral oneroso.

 

***

 

Finalmente, a todo o povo, a todo o Partido, a todo o exército, a meus sobrinhos e sobrinhas, aos jovens e crianças, deixo meu amor ilimitado.

Também transmito minhas cordiais saudações a nossos camaradas e amigos, à juventude e à infância de todo o mundo.

Meu maior desejo é que nosso Partido e nosso povo, unindo estreitamente seus esforços, construam um Vietnã pacífico, reunificado, independente, democrático, próspero e que deem uma valiosa contribuição à revolução mundial.

 

Hanói, 10 de maio de 1969.

Ho Chi Minh.



[1] A Alemanha invadiu a França durante a Segunda Guerra Mundial em junho de 1940. Os franceses assinaram um acordo de rendição com a Alemanha. A principal disposição do acordo foi a divisão da França em duas zonas – ocupada e não ocupada. A Alemanha controlaria a parte norte e ocidental da França e toda a costa atlântica. Os restantes dois quintos do país seriam administrados pelo governo francês, com capital em Vichy, liderados pelo general Pétain. Para além disso, todos os judeus na França seriam entregues à Alemanha. O exército francês seria reduzido a apenas 100 mil homens e os prisioneiros de guerra permaneceriam em cativeiro. Os franceses tinham de pagar os custos de ocupação às tropas alemãs e evitar que os franceses deixassem o país.
[2] Antes dessa autocrítica, no entanto, McNamara havia produzido uma síntese de por que os Estados Unidos deveriam envolver-se naquela guerra. O papel dos Estados Unidos no Vietnã, segundo ele, deveria ser o de dar resposta aos reclamos de ajuda das elites sul-vietnamitas, como membros da “família do mundo livre”, para o enfrentamento do comunismo e de sua “guerra de libertação”, por seus próprios meios, impedindo, assim, que o perigo da agressão comunista fosse capaz de absorver estrategicamente os recursos e o próprio povo do Sudeste da Ásia. Assim, na concepção do ex-chefe do Departamento de Estado dos EUA, os norte-americanos dariam um exemplo ao Ocidente de como lidar com a violência comunista, na guerra e em vários outros níveis. (WOLF, 1970).
[3] No mesmo ano de 1973, Henry Kissinger e Le Duc Tho ganharam o prêmio Nobel da Paz pela atuação no Acordo de Cessar-Fogo no Vietnã. Entretanto, o representante vietnamita recusou a honraria em razão das acusações que pesavam sobre o representante estadunidense, acusado de crimes de guerra.

[4] A Guerra da Coreia fora considerada, por eles, “um empate”.
[5] No ano de 1858 a Marinha francesa desembarcou no porto de Da Nang e logo em seguida invadiu a cidade de Saigon, mais ao sul da península da Indochina. Em 1862 o rei Tu Duc assinou um acordo com os franceses cedendo três províncias para formar um território colonial. Em 1867 a França ocupou mais três províncias, formando a Colônia a que deu o nome de Conchinchina. De 1873 a 1886, os colonialistas franceses ocuparam todo o Vietnã. Em junho de 1884, a dinastia Nguyen firmou o tratado de Patenôtre, reconhecendo o protetorado da França sobre o Vietnã. Neste período, os franceses implementaram um programa de exploração colonial em grande escala, para aproveitar plenamente os recursos naturais, explorar a mão de obra nativa, expropriar a terra dos camponeses e transformar o Vietnã e a Indochina em mercado colonial francês.
[6] Sobre o assunto Ho Chi Minh escreveu um artigo intitulado “The KKK Party”. De acordo com Losurdo, o que mais impressionara Ho Chi Minh foram as barbaridades do capitalismo americano, as mobilizações da Ku Klux Klan e o linchamento de negros. Em 1924, Ho Chi Minh editou um opúsculo intitulado “La Race Noire” sobre as práticas raciais nos Estados Unidos e na Europa.
[7] Anamita era uma etnia que abarcava uma boa parte da Indochina. Interessante observar que não havia nestes povos nenhum que explicitamente exigisse a Independência do Vietnã.
[8] Em 1954 a decisão de “dissolver” o PC do Vietnã teve um caráter tático apenas, para que isso não prejudicasse o esforço de reconhecimento da independência pela comunidade internacional.
[9] Prêmio norte-americano outorgado a pessoas que realizem trabalhos de excelência na área do jornalismo, literatura e composição musical. É administrado pela Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. Foi criado em 1917 por desejo de Joseph Pulitzer que, à época de sua morte, deixou dinheiro à universidade.