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Uma celebração à obra referencial de Moniz Bandeira

Cezar Xavier Publicado em 01.07.2016

A União Brasileira de Escritores (UBE) prestou uma homenagem singela aos 80 anos do historiador e cientista político, Luiz Alberto Moniz Bandeira. Estudiosos de sua obra celebraram os livros que marcaram gerações na luta contra o imperialismo, em defesa da democracia e do socialismo.

Foto: Ilustra Cezar Xavier

 

No dia 14 de junho, uma terça-feira fria de inverno, o auditório da União Brasileira de Escritores (UBE), no centro de São Paulo, foi calorosamente ocupado por cerca de quatro horas para um encontro com a obra de Moniz Bandeira, o cientista político e historiador brasileiro, especialista em política exterior do Brasil e suas relações, principalmente com a Argentina e os Estados Unidos. O escritor baiano nasceu em Salvador, dia 30 de dezembro de 1935, tendo completado 80 anos de escritos, lutas e lúcida análise das turbulências que atingem o Brasil e o mundo neste início de século.

As obras escolhidas para apresentação foram “Formação do Império Americano”, feita por Durval Noronha Goyos Jr., o presidente da UBE, “A expansão do Brasil e a formação dos Estados na Bacia do Prata”, pelo cientista político Tullo Vigevani, “Brasil, Argentina e Estados Unidos (Da Tríplice Aliança ao Mercosul)”, pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, “O Ano Vermelho – A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil”, pelo vice-presidente do PCdoB, Walter Sorrentino, e “A Segunda Guerra Fria”, pelo sociólogo Levi Bucalem Ferrari. A professora Regina Gadelha desenhou um perfil acadêmico do autor, que avança por sua vida política, enquanto a escritora e poeta Cássia Janeiro falou da esparsa e surpreendente obra poética publicada por Moniz Bandeira, mais conhecido por sua pesquisa historiográfica. Além dos principais destaques dessas conferências, Princípios também entrevistou cada um dos expositores. 

Havia expectativa de uma conferência virtual com Moniz Bandeira, direto de Heidelberg, na Alemanha, onde ele encontra-se radicado e é cônsul honorário do Brasil. Desde o início dos anos 1980, quando desenvolveu pesquisas naquela cidade, conheceu a alemã Margot Elisabeth Bender, escreveu sonetos apaixonados para sua companheira, e teve um filho, Egas. Devido a uma cirurgia bucal, ocorrida às vésperas da homenagem, o historiador não pode realizar a conferência online. Apesar disso, não deixou de mandar uma mensagem, onde expressa sua preocupação pela democracia:

“Fiquei imensamente feliz pela iniciativa e muito agradecido em ver meus amigos tratarem de aspectos diversos da minha obra. A iniciativa da UBE é também de grande importância institucional neste momento histórico em que cabe a todos os brasileiros a defesa de nossa democracia, dos direitos fundamentais, do devido processo legal e de nossas instituições, bem como a reflexão sobre os perigos que nos ameaçam.”

O furacão revolucionário passando pelo Brasil

O vice-presidente do PCdoB, Walter Sorrentino, considerou a iniciativa da UBE “brilhante”, porque Moniz Bandeira é um “grande brasileiro, patriota anti-imperialista, um homem comprometido”. “Mas, também, pelo momento que estamos vivendo, que tem muita relação com a obra dele, muito crítico para a evolução do mundo sob domínio imperialista. Isso tudo o Moniz Bandeira trata em profundidade, com clareza”, acrescentou. O dirigente do PCdoB disse estar muito orgulhoso de participar da homenagem. “Esse homem deveria ser muito valorizado internacionalmente pelos brasileiros. Ele ainda é de círculos restritos. Nós devíamos levar isso em conta. Ele é muito conhecido em Cuba e por todos que estudam as relações internacionais”. 

Sorrentino analisou uma obra tão densa, do ponto de vista da pesquisa, quanto as demais, mas talvez a mais literária de todas. “Apesar de densa, é uma leitura deliciosa, histórica”, afirmou. Segundo ele, se homenageia Moniz, porque ele é “um incrível produtor de obras que se tornaram clássicas, modernas e perenes assim que vieram a luz”. 

“Posso dizer de cátedra que o Ano Vermelho se tornou uma obra inexcedível até hoje, mesmo para a historiografia do Partido Comunista do Brasil, as vésperas das comemorações dos cem anos da Revolução Russa”, enfatiza o dirigente partidário. O livro faz um amplo levantamento dos reflexos da revolução de 1917 em nosso país, entre os quais, o mais perene, foi a fundação do Partido Comunista do Brasil, em 1922.

Pela primeira vez, que se sabe, ele incorpora textos importantes de difícil acesso, que foram escritos no calor dos acontecimentos em 1917 a 1922, escritos por Astrogildo Pereira, que foi o principal fundador do PCB, além de muitos escritos de Lima Barreto, Edgar Leuenroth, e outros lideres precursores do movimento operário e revolucionário no Brasil. “Então, nós temos no livro uma grande riqueza documental e informativa que é apresentada ao lado de análises rigorosamente centradas nos fatos, não na mera interpretação dos autores. E que não se detém apenas nos aspectos políticos e organizativos dos reflexos da revolução de 1917 no nosso país, mas envolve os antecedentes nacionais e mundiais, bem como as repercussões sociais e culturais que ajudam a entender aquele momento da história política do nosso país e em particular da história da luta das classes oprimidas do nosso país”, avalia ele.

Sorrentino ainda saudou um fato pitoresco envolvendo Moniz, que poucos talvez conheçam. “Uma outra amostra do compromisso de Moniz, um homem que não era sectário”. Uma curiosidade muito boa, de acordo com Sorrentino, considerando que não sendo propriamente do Partido Comunista do Brasil, tendo tido laços até no Partido Comunista Brasileiro, foram descobrir numa entrevista recente com Moniz para a biografia de João Amazonas, que quem sugeriu o nome do PCdoB foi ele. “É pouco conhecido esse episódio. Ele conversava com Diógenes Arruda, com Maurício Grabois e João Amazonas. Numa conversa dessa, meio que brincando, ele disse: Olha, tem que diferenciar. Porque você não chamam PCdoB, então? E nós, rapidamente, aquilo foi captado. Vida longa a Moniz Bandeira!”

A formação de um ultra-império

O presidente da UBE, o advogado Noronha Goyos Jr, considerou o evento um sucesso por reunir leitores ilustres para falar da obra deste que ele considera “o maior historiador brasileiro de todos os tempos”. Segundo ele, dentre as cerca de trinta obras diversas do autor, foram escolhidas as mais representativas, além dos belos poemas publicados por ele. “A obra dele é atualíssima, coloca a situação do Brasil dos mais diversos momentos sob uma perspectiva histórica, que é válida para analisar o momento atual do país”, afirmou. 

Ao comentar a “Formação do Império Americano”, o advogado sugeriu que este seja “o livro mais importante sobre a história dos EUA que jamais se escreveu em qualquer língua”. Ele destacou o fato do livro ter sido traduzido para o chinês e se tornado uma referência didática na China, tendo vendido cerca de 100 mil exemplares naquele país asiático, para falar de uma outra potência global, sob a perspectiva de um pesquisador brasileiro desconhecido na República Popular da China.

De acordo com Noronha Goyos Jr, a cosmovisão que ele já apresentava nos primeiros trabalhos nas décadas de 60 e 1970, na análise dos problemas brasileiros, ele transferiu para o cenário internacional, que transcende a fronteira dos EUA. Segundo ele, Moniz usa a análise dialética para estudar o fundamento teórico sobre o imperialismo, passando pelo debate entre Kautsky e Lênin, para situar o pano de fundo da sua visão sobre o assunto. “Moniz nos explica onde estão os interesses e o que os americanos fazem para consolidar as suas vantagens”, afirma ele, após pontuar diversas situações históricas envolvendo a estratégia geopolítica norte-americana.

“Esta obra magnífica, o fez recipiente do nosso Prêmio Juca Pato, da UBE, e que é uma das maiores produções intelectuais de um historiador em qualquer lugar do mundo”, concluiu o advogado.

As relações suspeitas entre EUA e Brasil

O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães não economizou distinção a Moniz Bandeira, um dos maiores historiadores brasileiros “e, certamente, o maior historiador brasileiro na área de política externa e política internacional”. “Ele tem um conjunto de obras sobre a política internacional e a política externa brasileira muito importante, principalmente, porque muito atual. Ele faz a história sobre os tempos atuais. Seus livros sobre os EUA, sobre a presença americana no Brasil, sobre o Chile, sobre a integração latino-americana são muito importantes para conhecermos o momento político que nós vivemos”, complementou em entrevista à Princípios.

Sobre “Brasil, Argentina e Estados Unidos (Da Tríplice Aliança ao Mercosul)”, ele ressalta que, apesar do título, a obra revela a política norte-americana para a América do Sul, incluindo Cuba. “Ele procura mostrar as iniciativas americanas em cada uma das grandes questões que tiveram lugar na América Latina.

Moniz mostra nesta obra, de acordo com o diplomata, todos os objetivos permanentes da política exterior americana para a América Latina. “Ele mostra como esses objetivos são perseguidos, sistematicamente, e como eles se desenvolvem através da utilização de todos os meios, TODOS OS MEIOS, ostensivos, ou do tipo que eles chamam operações encobertas”, diz Guimarães.

Ele ainda cita como exemplo disso, o modo como os EUA estiveram presentes no consórcio golpista brasileiro contra o Governo Dilma, de forma subterrânea e extraoficial. “Nós estamos vivendo, hoje, no Brasil, um episódio dessa estratégia política, econômica, militar, ideológica, ostensiva e encoberta. Estamos vivendo isso, hoje, nos dias que correm”, enfatizou.  Em sua obra, Moniz revela como os EUA operam o financiamento de ONGs e movimentos rebeldes para desestabilizar governos não alinhados a sua política.

Ainda sobre o livro, Moniz mostra como, nesse processo, a estratégia dos EUA de evitar a cooperação entre Brasil e Argentina. “Desde a época da proposta do Barão do Rio Branco, de criação do Pacto do ABC, que era mais uma questão de entendimento político, nada de mais, mas que foi considerado hostil pelo Departamento de Estado americano, no telegrama que Moniz cita”. 

Estamos agora numa situação em que os EUA já incorporaram em seu sistema toda a América Central, mais a República Dominicana, o Peru, o Chile e a Colombia, o México, que já havia sido incorporado pelo Nafta. “E agora partiram para o ataque, do ponto de vista econômico, final Mercosul, que é feito através dessa proposta de acordo com União Europeia”, menciona Guimarães, atualizando a historiografia de Moniz. 

Ele explica que a estratégia americana na América Latina é eliminar todas as barreiras ao comércio, aos capitais, desregulamentar tudo, reduzir o estado ao mínimo. “E, do lado de lá, esse grupelho de países, por acaso os maiores do continente, Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela”, disse ele, sobre os alvos de desestabilização dos EUA.

O Mercosul é uma coisa muito simples, explica o embaixador. Tem uma tarifa externa comum que protege as empresas que estão dentro do território em relação as que estão fora, resume. Quando se faz um acordo com a União Europeia, o que se diz é que, para a UE, o Mercosul não existe mais, por que se eliminam as tarifas. “Segundo os defensores deste acordo, o que vai acontecer? As nossas empresas multinacionais poderosíssimas vão enfrentar a competição com as pequeninas empresas alemãs, francesas e inglesas, e vamos vencer a competição”, ironiza.

Rompendo paradigmas sobre a América do Sul

O cientista política Tullo Vigevani destaca a pesquisa documental de Moniz Bandeira como a grande força de sua obra. Ainda que se conteste suas análises e conclusões, o trabalho exaustivo e raro de documentação histórica é inquestionável. “Trata-se de uma pesquisa documental que não muitos estão acostumados a fazer no Brasil. Por isso, nesta comemoração dos seus 80 anos, esse aspecto deve ser bem valorizado”, reafirmou. Para ele, a comemoração e avaliação dessa obra “é uma necessidade na vida intelectual e também política brasileira”.

Vigevani apontou as originalidades da pesquisa e da análise de Moniz Bandeira em “A expansão do Brasil e a formação dos Estados na Bacia do Prata”. Como todas as obras dele, de acordo com Vigevani, esta tem o mérito muito importante de ser uma obra de referência. Em sua opinião, é um livro que precisa ser melhor utilizado para se compreender a formação da América do Sul. “Ele considera as influências da Bacia do Prata sobre o conjunto do contexto sul-americano, retomando, inclusive, a política de Simon Bolívar, e criticando-a até, em relação a alguns problemas vividos nas relações entre Brasil e Argentina, no início do século XIX”.

Um dos aspectos prioritários na leitura deste livro é a inversão de uma perspectiva ufanista da fundação e do desenvolvimento do estado brasileiro. Este é o aspecto primeiro destacado por Vigevani em sua leitura da obra. De acordo com ele, Moniz consegue provar e inverter um raciocínio tradicionalmente ufanista da política brasileira. “Ele não somente destrói o caráter ideológico, ou o caráter com que foram sempre lidas as operações bandeirantes e a expansão do território brasileiro. Ele também mostra, exatamente, como isso foi feito”, destaca ele.

Moniz mostra dentro da lógica da expansão comercialista, como a partir de um determinado momento da expansão capitalista internacional, em particular do capitalismo português, a entrada das bandeiras vai beneficiar as trocas comerciais, mais do que se interessar por uma povoação que não fosse predatória dos recursos naturais. A partir do final do século XVIII e XIX, esse expansionismo predatório brasileiro, inclusive utilizando o tráfico negreiro, vai beneficiar principalmente a Inglaterra e, a partir da metade do século XIX, também os EUA.

“A ação da elite brasileira daquele período acabou formando o estado brasileiro, mas um estado brasileiro que vinha dentro de uma perspectiva de expansão e ‘rapinagem’ daqueles grupos, setores, áreas, povoados que não estavam dentro da formação da colônia portuguesa”, resume ele.

Outro aspecto que chama bastante atenção nesta obra, segundo Vigevani, é a polêmica e a reinserção que Moniz Bandeira fez em relação à guerra do Paraguai. Ao contrário de uma leitura mais difundida das relações na Bacia do Prata, e particularmente da guerra do Paraguai, ele mostra as responsabilidades da elite paraguaia. “Ao contrário de considerar que foi o desenvolvimento do Paraguai que produziu e deu força a Solano Lopez para ter uma política de enfrentamento com o Império brasileiro, havia sido a fraqueza e o atraso da sociedade paraguaia, que possibilitou a Solano Lopez considerar a possibilidade de enfrentar uma aliança tão poderosa como era a Tríplice Aliança”, destaca o sociólogo, o raciocínio principal do livro a este respeito.

Apesar disso, a perspectiva brasileira era a da necessidade de manter a expansão e assegurar a continuidade do território brasileiro, lembra ele. A livre navegação no rio Paraguai era uma necessidade básica brasileira, naquela época, que não havia outro meio de comunicação, e era uma forma de assegurar a permanência da província de Mato Grosso, mas também de outras regiões, inclusive de São Paulo.

Vigevani conclui sua análise afirmando crer que a importância desse livro “é a demonstração das fontes, a pesquisa extremamente extensa que ele fez”. “E a orientação da interpretação, que eu acho que é o elemento fundamental desse livro do Moniz”, pontua.

Guerras Frias e encobertas

O sociólogo Levi Bucalem Ferrari ficou entusiasmado com o evento, pois, para ele, “o homenageado merece”, além de mostrar também um trabalho da UBE muito significativo. “Há anos a UBE não fazia uma coisa assim tão forte”, celebrou ele.

Sobre Moniz, Ferrari destacou o caráter internacionalista de sua obra. “Presta atenção, que a maioria dos grandes escritores brasileiros falam do Brasil, enquanto ele fala do mundo. Isso é raro. Em geral, só norte-americanos e europeus falam do mundo. Você tem um brasileiro falando de problemas mundiais”, enfatizou.

Sobre “A Segunda Guerra Fria, geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos”, Ferrari denunciou a acusação que fazem a Moniz de “usar e abusar da teoria da conspiração”. “Teve uma época, entre os anos 1970 e 1980, de que não devíamos abusar da teoria da conspiração, que só fizesse isso se tivesse provas. De fato, só se deve fazer isso quando tiver provas. Mas e se houver provas. E o Moniz vai atrás das provas”, defende ele.

Ao comparar as duas fases da Guerra Fria promovida pelos EUA, conforme demonstra Moniz Bandeir, a concepção estratégica dos EUA muda e passa a ter uma atuação muito mais agressiva do que na primeira fase da guerra fria. “Na primeira guerra fria, os EUA tinham que jogar um jogo de xadrez. Dá cá, toma lá. Daí ter surgido o estado de bem estar social na Europa. Na segunda guerra fria não precisa disso! É neoliberalismo direto. Quem acha ruim, vai levar porrada, vai ser boicotado”, diz Ferrari. 

Na segunda fase da guerra fria, momento que vivemos historicamente no Brasil, os EUA não aceitam nenhuma contestação a sua hegemonia. Diferente da primeira, em que os países discordantes se alinhavam aos seus blocos, agora não. “Você comprou, anteontem, aviões da França, quando eu queria vender os meus, então eu já te pus no meu caderninho”, exemplificou ele, citando uma transação comercial recente do Brasil. “Uma das causas do golpe branco é alguma desobediência de Lula e Dilma”, disse ele, sobre a derrubada de Dilma do poder, por meios institucionais. Portanto, diz Ferrari, é assim que os EUA ameaçam, com boicotes comerciais, atentados, falso terrorismo, derrubada de governo, invasões e guerras.

No longo prazo, a maior concorrência da política externa dos EUA são os BRICS (bloco de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Ferrari lembra que os BRICS chegaram a cogitar uma moeda única, que enfraqueceria o dólar. Agora, com o golpe no Brasil, o bloco deve sofrer baixa. “Como no nível internacional é a Síria, no Brasil, é na ditadura jurídico-kafkiana que as coisas estão funcionando. Só tem que terminar como o Samuel [Pinheiro Guimarães]: Fora Temer!”, disse ele, provocando risos.

A poética na obra acadêmica

Apresentadas as principais obras acadêmicas de Moniz Bandeira, a escritora e poeta Cássia Janeiro ficou encarregada de comentar a obra poética do historiador, uma vertente que ele desenvolve desde adolescente, mas que publicou de forma esparsa e com grandes intervalos. Ela lembra de ter tido seu primeiro contato com a obra de Moniz por meio de “O Ano Vermelho”. “Eu fiquei estarrecida, em primeiro lugar, pela beleza desse livro”, enfatizou ela.

Para ela, não é difícil enxergar a importância da poesia na obra acadêmica desse grande pensador brasileiro. Ela cita o crítico literário Antônio Cândido, que diz que a dimensão estética é intrínseca à dimensão social da obra, são dimensões inseparáveis. “Encontrei uma frase do Moniz Bandeira que corrobora isso de forma brilhante: Em tudo que escrevi, poesia ou prosa, existe uma unicidade em que a comunidade de propósitos e a práxis se entrelaçam”, comparou ela, observando o modo como, “de uma forma simples e falando de si”, ele se encontra na análise de Antônio Cândido.

Ela conta que Verticais foi publicado em 1956 e Retrato e o Tempo em 1960, mas que Poética, com sonetos de amor, só viria a público em 2009, revelando um hiato enorme na vida poética dele. Ele teria dito que a vida acadêmica roubou-lhe a lírica, mas Cássia discorda ao observar que a lírica está presente também nos estudos acadêmicos do autor.

Sobre a obra mais recente, ela vê um diálogo interessante entre o historiador, o poeta e o amante. São versos escritos para Margot, que, segundo Cássia, não é só musa, “mas pessoa que fica num lugar dentro do coração, dentro da cidade, ou seja, tem um lugar social e geográfico”. “São sonetos de amor de beleza ímpar, que revelam a complexidade inseparável do poeta, do estudioso acadêmico, do ser humano, homem e apaixonado”.

Em entrevista à Princípios, Cássia sugere aos jovens que não conhecem Moniz Bandeira, a começar pela leitura de “O Ano Vermelho”, por ser uma obra, embora acadêmica, que guarda uma força poética muito grande. “Foi uma obra que me impressionou muito e que me marcou pessoalmente. E que realmente levasse essa leitura à obra poética dele, que conversa com a obra acadêmica. Também não é uma obra que você possa ler de repente, mas que você pode aos poucos ir descobrindo”.

O intelectual engajado

A professora Regina Gadelha fez uma apresentação emotiva e detalhada da trajetória de Moniz Bandeira, ao ressaltar seu comprometimento político e engajamento com as melhores causas durante estes 80 anos de vida.

“Ele é o intelectual orgânico engajado. Não faz um livro pelo livro, vai além. Quer trazer matéria, não somente de denúncia, como de reflexão. Busca uma totalidade na sua análise. Faz você refletir a sociedade. A luta de classes está sempre presente; dos grupos que manipulam e estão em poder”, explica ela. 

Para ela, Moniz é um autor que não tergiversa, ao contrário de outros que se deixam levar pelas pressões, porque ele sempre trabalhou na adversidade. Isso o torna um autor absolutamente independente, na opinião dela. “E, talvez por isso mesmo, ele é bastante criticado. Quando querem desatualizar o Moniz, ao dizer que ele não é tão preciso, esta é uma maneira de esconder sua presença. Apesar disso, ele é um homem que se faz presente”, avalia Regina.

Regina se sentiu inspirada pela homenagem a um “intelectual engajado, coerente, de imensa honestidade”, comprovada em mais de 60 anos de trabalhos ininterruptos. A monumental obra que nos lega, - ela lembra que são mais de 30 livros, mais as reedições -, por si só, diz da importância desse historiador. Ela fez um longo relato de fatos biográficos que definem a trajetória acadêmica, política e pessoal de Moniz. Suas pesquisas nos arquivos dos EUA, suas dificuldades e prisão pela ditadura, seu exílio e luta com Leonel Brizola e João Goulart, suas relações com o PCB e a Polop. Sua gratidão pelos muitos que o ajudaram a passar por toda a turbulência com dignidade. 

“Aplaudi Moniz, durante a palestra que proferiu no simpósio Repensando o Socialismo, em dez de junho de 1977, na PUC, no momento mesmo da 29a reunião da SBPC, proibida pela ditadura militar. A sua palestra foi assistida no Tuca por cerca de duas mil pessoas, absolutamente em silêncio, que aplaudiram Moniz de pé”, diz ela, sobre o primeiro contato com o historiador que teria enorme influência em sua trajetória acadêmica, além de se tornar um grande amigo.

Regina ressalta que, a cada reedição de sua obra, Moniz obriga-nos a comprar o livro. “Porque a anterior já está ou ultrapassada, ou complementada, ou ele tem avançado em sua interpretação”, disse ela sobre a obra viva de Moniz Bandeira. Mas ela também salientou o modo como ele dá um depoimento da sua própria vida em cada prefácio que escreve. No caso de “O Ano Vermelho”, ele trata da trajetória para levar a cabo suas pesquisas e as dificuldades para publicação da primeira edição, em 1967, escrito em condições difíceis de clandestinidade e que só veio a público graças à coragem pessoal do seu editor Ênio Silveira.

“Na ocasião da publicação desse livro, que ele entrega pouco antes de entrar na prisão, ele inclusive dá um depoimento de que trabalhou mais de 18 horas por dia, durante seis meses, porque sabia que ia ser preso”, cita ela. Ele já estava condenado; apenas aguardava a ordem da prisão. Ele cumpriu pena de dois anos nos calabouços do Cenimar, o Centro de Informação da Marinha no Rio de Janeiro, mas depois a pena foi comutada para um ano.

Ele relata no prefácio lido pela historiadora: “Entendi que não podia nem devia cuidar da minha vida pessoal. Abandonar a luta, enquanto muitos homens e mulheres, muitos dos quais eu pessoalmente conhecia, arrostavam com armas na mão o regime autoritário. Para mim, que não cria que a luta armada pudesse derrocar o regime autoritário, era necessário combatê-lo por outros meios, como intelectual que sempre fui”.

Poema de Moniz Bandeira recitado durante a homenagem:

Canto do Outubro

Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.

Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.

Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.

Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.

quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.

Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.

Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.

E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.

 


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