Vídeos

Revelações de Diogenes Arruda: Crescimento e Fechamento do Partido (9)

Cezar Xavier Publicado em 18.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

 

Posteriormente ao comício de São Januário, foi feito um grande comício no Recife(7).

Albino – Foi onde? Na Ilha do Retiro?

Arruda – Não. Foi no Parque 13º de Maio. Foi verdadeiramente emocionante. Pernambuco havia sofrido muito com a repressão. Vários dirigentes e militantes do Partido haviam sido mortos barbaramente pela polícia de Pernambuco. Entre eles, um irmão de Gregório Bezerra, chamado Lourenço Bezerra, que tinha uma mulher e cinco ou seis filhos. O maior tinha parece que 5 anos de idade. Pois bem. Foram quebrando as mãos, os braços do Lourenço, para ele dizer alguma coisa. E Lourenço, mesmo tendo uma mulher e cinco ou seis filhos, nunca disse uma palavra — e morreu assim. Também me recordo de um dirigente do Partido chamado Luiz Bispo, era o primeiro-secretário. Foi preso em 1936, reagiu à prisão e aqueles bandidos da polícia política de Pernambuco, que tinha Etelvino Lins à frente, torturam tanto o Luiz Bispo que depois tiveram que juntar os ossos e enterrá-los num saco de aniagem — porque aquilo já era uma massa informe. Mas Luiz Bispo também nunca disse uma palavra (pronuncia com voz grave e pausadamente).

José Francisco Cabelo de Rato, também um outro herói do Partido, e assim outros e outros tantos. Me recordo que em 1938, 39, havia — 37, 38 — um Secretariado do Nordeste do Comitê Central. O seu primeiro-secretário era um jornalista baiano, chamado Clóvis Caldeira, que foi torturado noite e dia (pronuncia pausadamente) sem parar durante um ano inteiro. Depois de uns dois anos, soltaram o Caldeira e ele parecia um homem que tinha saído de um campo de concentração. Magro, tuberculoso, sem poder falar. Mas o Caldeira nunca disse uma palavra (pronuncia pausadamente e com a voz grave). Foi preso com ele um major da Força Pública do Recife, se não me falha a memória chamado major Calmon.

Conheci depois o major Calmon andando com duas bengalinhas, porque botaram ele numa tortura com soda cáustica e as pernas dele secaram. E o major Calmon nunca disse uma palavra. Então, o povo pernambucano, os trabalhadores, os comunistas de Pernambuco, tinham muitos heróis e mártires. Quando se verificou o comício ali, eu me recordo, foi verdadeiramente emocionante. Eu como pernambucano fui instalar legalmente o Comitê Regional de Pernambuco. Fui também no comício do Parque 13º de Maio, e era impressionante a acolhida de operários, de estudantes para ingressar no Partido Comunista do Brasil.

Iza – E esse crescendo foi até...

Arruda – Esse crescendo foi... tivemos as eleições, em dezembro de 1945, tivemos mais de 12% da votação, fomos o primeiro partido no Rio de Janeiro, em Recife, em Santo André, em Santos, em Sorocaba, fomos o segundo partido em São Paulo. Nas eleições municipais: primeiro partido em São Paulo, elegemos o prefeito de Santo André, de Sorocaba(8), e disparado o primeiro partido em Santos, que era considerada a "cidade vermelha", a Stalingrado brasileira, primeiro partido novamente no Recife etc. Quer dizer: nos principais centros urbanos, e principalmente nos centros operários, nós éramos o primeiro partido. Ele foi crescendo em 1946, em março de 47 nós demos um balanço e o Partido estava com 220 mil membros. Porque em 47 nós íamos realizar o 4º Congresso do Partido.

Só que estávamos preparando o Congresso quando o Partido é fechado por um ato arbitrário, monstruoso, ilegal do Tribunal Eleitoral. O Partido é fechado no dia 7 ou 8 de maio de 1947, é jogado na clandestinidade.(9)