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Revelações de Diógenes Arruda: Contatos com Getúlio Vargas (10)

Cezar Xavier Publicado em 19.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

Albino Castro – Arruda, eu queria, antes de avançar até 47, falar mais do período da legalização. Por exemplo, quando Prestes saiu da cadeia ele foi àquele comício com o Getúlio. Quer dizer: o Partido saiu da cadeia, da ilegalidade, e dessa forma foi apoiar Getúlio. Getúlio simbolizava a ditadura. Isso é considerado para muitos um erro histórico do Partido. A aliança com o ditador... Que bem ou mal era o regime dele que tinha torturado e matado.

Arruda – Olha aqui, nós...

Albino – Prestes tinha passado dez anos na cadeia, ele fez aquilo sem consultar os companheiros que tinham reorganizado o Partido?

Arruda – Não, não, não...

Albino – Ah, não foi?

Arruda – Não. Hoje se olhando verifica-se, eu pelo menos acho, que a nossa linha política do período de 1945 a 1947 foi oportunista de direita. Nós acreditávamos que podíamos conquistar o poder através de um processo democrático, eleitoral, parlamentar etc. Éramos dirigentes jovens, os êxitos subiram à cabeça. Grandes vitórias, verdadeiramente desconhecidas na história do Partido e do movimento operário brasileiro. Bem... Mas nós tivemos muitas ilusões de classe. Entretanto, não podemos considerar, não creio correto, que era errada a política que adotamos em relação ao Getúlio. Tinha aspectos que deveriam ser corrigidos. Por exemplo: falar em ordem e tranqüilidade — isso era uma atitude oportunista. Não querer realizar muitas greves — outra atitude oportunista. O apoio incondicional a Vargas — também uma atitude oportunista.

Entretanto, o apoio a Vargas era correto. Em que sentido? Apoiar o governo Vargas no sentido das conquistas democráticas e nas concessões que ele dava em relação à participação da FEB, em relação à redemocratização do país, em relação ao reconhecimento da União Soviética, em relação à legalidade do Partido, em relação à convocação de uma Assembléia Constituinte. E surge aí um fenômeno original. É que na verdade no Brasil só quem lutou contra o Estado Novo, contra a ditadura de Vargas, foram os comunistas. Mais ninguém (ênfase). O seu Octávio Mangabeira tinha ido para Nova York, para os Estados Unidos. E mais ninguém. O resto é conversa fiada. Então, o Getúlio estava fazendo concessões e mais concessões às forças operárias, às forças populares, às forças democráticas.

É nesse momento que surgem elementos que haviam, como nós dizemos, comido na gamela durante todo os dez anos do Estado Novo para articular um golpe. Quiseram nos envolver nesse golpe. O certo é o seguinte: esse golpe contra o Getúlio foi preparado depois de um célebre discurso do senhor Adolf Berle Júnior, que era embaixador dos Estados Unidos, proferido em Petrópolis, onde disse que o comunismo era um perigo, que estava avassalando o Brasil. E deixando a entender que Getúlio estava fazendo concessões aos comunistas. Então, há toda uma encenação de preparação do golpe.

Na verdade, esse golpe não foi contra o Getúlio. Foi contra o processo de conquistas de liberdades: liberdade sindical, liberdades democráticas. E contra a democracia, porque o povo brasileiro estava avançando no sentido da democracia. Agora são esses tipos, aqueles velhos carcomidos, muitos deles vão para o PSD ou para a UDN — principalmente para a UDN —, que procuraram nos acusar. Uma vez fizemos um discurso na Câmara e desmascaramos. Dissemos o seguinte: passaram tantos mil comunistas, tantos mil aliancistas — membros da Aliança Nacional Libertadora —, pela prisão. Temos no Comitê Central do nosso Partido tantos elementos que somados os seus anos de prisão é tanto. Temos aqui deputados que também tiveram tantos anos de prisão. Morreram comunistas, como heróis e mártires do Partido, tantos e tantos. Levantem, queremos saber, entre os senhores, quantos mortos existem entre os seus partidários e quantos passaram pelas prisões. A Câmara foi esvaziando, porque eles não podiam levantar o dedo de ataque a nós. Nunca enfrentaram a luta assim com um debate conosco, franco e aberto, a respeito dessa acusação.

Agora, com Vargas sucedeu o seguinte: nós procuramos estabelecer um contato, e teve entendimentos antes do golpe dado contra ele em 1945. Dissemos: vamos à greve geral, vamos levantar as forças armadas. Nós tínhamos muita força, principalmente no Exército. E o Vargas disse: Prefiro renunciar e ir embora a fazer uma guerra civil. Porque começa comigo e vai terminar nas mãos dos comunistas. E o Vargas foi embora para a sua fazenda lá em São Borja e não quis enfrentar os golpistas no terreno que deviam ser enfrentados — através de uma greve geral, paralisando toda a vida do país, e através da luta armada. Porque os golpistas eram fracos. Quem tinha força nas forças armadas de fato era o Getúlio, naquele tempo, e os comunistas, o nosso Partido. E Getúlio não quis enfrentar a luta no terreno que era possível para garantir o processo democrático.

Albino – Agora, uma outra coisa curiosa... Ah, você não terminou. Desculpe. Termina, termina...

Arruda – Agora, posteriormente, quando são convocadas as eleições, o Getúlio toma a atitude de organizar... vem o PSD, vem a UDN, vem alguns partidos... e Getúlio toma a iniciativa de organizar o PTB. Não sei se vocês se recordam que o Getúlio deu uma entrevista à revista Globo, onde ele explica os motivos...

Albino – Lá do Rio Grande do Sul. É a revista do Érico Veríssimo.

Arruda - Então, ele dá essa entrevista e diz os motivos por que organiza o PTB. É preciso que a gente refresque a memória, hoje que se quer reorganizar o PTB. Bem, Getúlio dizia o seguinte: o comunismo está ganhando toda a classe operária. Foram organizados velhos partidos, como o PSD, a UDN, parecidos com os partidos antes de 30. E eu preciso — dizia ele — organizar um partido que entre na massa de salário mínimo e evite que o movimento operário seja totalmente ganho pelo Partido Comunista do Brasil. E foi com esse objetivo que Getúlio organizou o PTB — contra o Partido Comunista do Brasil. Para ver se conseguia barrar a nossa crescente influência no movimento operário e no movimento sindical.

De fato, o Partido tinha ganho a maioria já do movimento sindical. Tinha feito um congresso de delegados sindicais de todo o Brasil e organizou a Confederação dos Trabalhadores do Brasil. E nós derrotamos os chamados "queremistas", ou getulistas, no movimento sindical — os pelegos, naquele tempo —, e ganhamos a direção do movimento sindical. Só posteriormente, no governo de Dutra, essa Confederação dos Trabalhadores do Brasil foi fechada. Houve intervenção em dezenas e dezenas... centenas de sindicatos — intervenção em quase dois mil sindicatos. Fecharam as ligas camponesas, fecharam os comitês democráticos, ou comitês populares, fecharam o Partido...