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Revelações de Diógenes Arruda: Luta contra as bases americanas (12)

Cezar Xavier Publicado em 23.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

Albino – Depois da ilegalidade do Partido é que vem a história, vamos dizer assim, mais controvertida sua dentro do Partido, não é? Que é a história em que normalmente a minha geração tomou conhecimento através do livro do Peralva, O Retrato. Que é talvez a única versão, ou uma das raras versões, que foi editada sobretudo nesse período que vai de 47 a 56, 57, que é o período da chamada "desestalinização", essa coisa toda. De maio de 47 até 52, que é o ano da morte de Stalin, qual foi o comportamento do Partido? Como ele agiu?

Arruda – 52 não, 53.

Albino – 53, é. O Partido estava preparado para essa ilegalidade? Primeiro tenho uma pergunta mais interessante: o Juracy Magalhães(11) fez uma provocação no plenário perguntando ao Prestes se a União Soviética declarasse guerra ao Brasil de que lado o Partido Comunista ficaria. Eu acho que o Prestes respondeu de uma maneira muito ingênua. Foi uma provocação a qual hoje certamente ele não responderia assim. Como é que você viu aquilo? Você estava na bancada do Ademar de Barros, não é?

Arruda – Não. Eu e o Pomar fomos eleitos pela legenda do partido de Ademar de Barros, mas quando chegamos na Câmara entramos para integrar a bancada comunista. Nos declaramos comunistas. Olha, efetivamente o Juracy Magalhães, como um sujeito muito reacionário, um agente americano desses de um servilismo sem limites, fez uma provocação uma vez num debate na Câmara. Eu creio que, naquele momento, a posição realmente justa, do ponto de vista internacionalista proletário, era dizer o seguinte: Se há uma guerra das potências imperialistas contra a União Soviética, que naquele momento era um país socialista, e o Brasil participa ao lado dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Alemanha etc., qual era a posição dos comunistas brasileiros?

A posição dos comunistas brasileiros seria de se colocar contra essa guerra de intervenção, como se colocaram na época da guerra da Alemanha nazista, contra a Alemanha nazista e em defesa da União Soviética, naquele tempo parte do socialismo. E lutar, no caso brasileiro, contra o governo que se integrasse numa coalizão anticomunista, anti-soviética. Então, o papel de um comunista, de um internacionalista, era fazer a guerra civil, era fazer a revolução no Brasil para evitar que a União Soviética, naquele tempo país socialista, fosse esmagada como havia se tentado na época de Hitler. O debate foi muito aceso na Câmara e eles tentaram, através dessa manobra provocadora, isolar o Partido. Não me recordo quais foram os termos da pergunta do senhor Juracy Magalhães, nem me recordo da resposta do senhor Luiz Carlos Prestes.

Mas me recordo que nós procuramos ver como não seríamos isolados. E tínhamos que fazer que eles saíssem pela culatra. Não foi difícil. Taticamente, a saída foi o seguinte: nós movimentamos toda a máquina partidária no Brasil inteiro, principalmente da Bahia ao Pará, do Norte/Nordeste, e fizemos uma campanha de massas para que os americanos entregassem as bases militares e navais, que ainda estavam ocupadas por eles desde o período da guerra. E dissemos: Fora, americanos! Fora americanos das nossas bases e de nosso país! Fizemos uma campanha de comícios — o comício do Rio de Janeiro teve mais de 100 mil pessoas. Na Bahia, foi um comício impressionante. Em Recife, foi um comício de quase 200 mil pessoas.

Iza – Em que ano?

Arruda – 46. Esse movimento foi de tal importância que se criou no meio da massa um ódio contra os americanos que eles não podiam sair na rua. Mesmo na Bahia, algumas baianas haviam se casado com oficiais americanos e não puderam sair na rua. Ficaram isolados. Americanos recebiam navalhadas nas ruas de Salvador e de Belém do Pará.

Albino – É verdade. Inclusive a irmã de Marta Rocha...

Arruda - A irmã de Marta Rocha, casada com um americano. A juventude na Bahia fez um movimento de repúdio de tal maneira que a moça teve de ser mandada para os Estados Unidos. Foi um movimento verdadeiramente impressionante, de sentimento antiamericano que surgiu no nosso povo. Legítimo. Foi a nossa saída. Isso representou uma grande conquista para o povo brasileiro, porque os americanos queriam permanecer nas bases navais e nas bases áreas.