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Revelações de Diógenes Arruda: Um partido rico (13)

Cezar Xavier Publicado em 24.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

 

Iza – Em que dia o Partido entrou na ilegalidade?

Albino – Oito de maio.

Iza – Na hora em que você soube do negócio, o que você estava fazendo? Você foi cassado imediatamente? E qual foi a reação do Partido? Salve-se quem puder? Como foi?

Arruda – Não. O Partido foi colocado na ilegalidade entre 7 e 8 de maio de 1947. Nós já sentíamos que isso ia acontecer e tomamos todas as medidas. Primeira medida: destruir todos os arquivos do Partido. Recolher os arquivos para os refúgios. E tomamos as medidas também de preservar todas as direções do Partido. Na verdade, não foi preso ninguém. Tomamos uma série de outras medidas para um reajuste do trabalho na clandestinidade. Com o Partido naquele tempo tendo uns 200 mil membros e estando dirigindo o movimento sindical, o movimento camponês e o movimento estudantil, era preciso encontrar as formas adequadas para ir para a clandestinidade. Claro, quando um partido vai para a clandestinidade ele diminui os seus efetivos. Mas o Partido recuou organizadamente, não sofrendo os golpes que a reação desejava desferir.

Iza – Eram quantos deputados?

Arruda – Em 47 nós fizemos o seguinte: deixamos alguns deputados, porque a cassação dos mandatos só veio em janeiro de 48.

Iza – Quer dizer: o Partido ilegal e vocês legais?

Arruda – Legais. Mas recuamos aqueles mais visados e deixamos outros atuando para desmascarar as medidas reacionárias do governo Dutra.

Albino – Tem inclusive a história de que Prestes fugiu da polícia no dia da cassação dos mandatos do Partido e se refugiou no apartamento do João Mangabeira no Hotel Glória...(12)

Arruda – Não. Isso não é verdade. Nós tínhamos um aparelho clandestino bastante bem organizado. O Partido naquele tempo era rico. Por quê? Porque, avaliem vocês: nós tínhamos 17 deputados. Ganhava um deputado 24 mil cruzeiros. Marighella e Amazonas, que eram solteiros, recebiam cerca de 600 cruzeiros. Eu era casado e recebia 1 200 cruzeiros.

Iza – O resto ficava para o Partido?

Arruda – Todo o resto ficava para o Partido.

Iza – De 24 mil, tirava 600, no caso do Marighella...

Arruda – Marighella, Amazonas... Os solteiros. Os casados tinham proporcional à família. Ainda tínhamos os vereadores — nós éramos o partido majoritário no Distrito Federal. Tínhamos vários deputados... nove deputados estaduais em São Paulo, 11 deputados em Pernambuco...

Iza – E foram cassados quantos?

Arruda – Foram cassados todos. Então, isso dava uma base muito grande para o Partido. Nós tínhamos realmente grandes reservas para a direção do Partido, para o Comitê Central, de tal maneira que pudesse não sofrer com as dificuldades naturais que surgem com o Partido na clandestinidade.

Iza – Quando é que você cai na clandestinidade?

Arruda – Eu recuei, mas pouco tempo depois voltei à Câmara. Nós aparecíamos na Câmara durante todo esse período.