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Renato Rabelo: Haroldo Vive!

Publicado em 24.03.2021

O presidente da Fundação Maurício Grabois faz sua homenagem ao dirigente do PCdoB falecido nesta quarta-feira, 24/03, vitima de Covid-19.

Renato Rabelo e Haroldo Lima Foto: Arquivo

Faleceu o nosso bravo e insigne camarada, Haroldo Lima.

O impacto, para mim, foi como um tufão, que cobre os mares. Haroldo era uma fonte fértil de ideias, de pensamento revolucionário, de ímpeto contra as injustiças, a exploração e dominação do nosso povo e dos povos do mundo.

Haroldo não era para nos deixar nesta hora. A nossa Nação, o nosso povo vive um pesado retrocesso. Haroldo deixa enorme vazio. Reunia talento, sabedoria, história, luta e experiência. Haroldo reunia gigantesca convicção do nosso grandioso ideal civilizatório – o socialismo e o comunismo.
Não consigo assimilar que o nosso grande camarada nos deixou. Ele era um grande esteio do Partido. Convivi com ele na luta e na amizade, nos revezes e nas vitórias, combatendo na mesma trincheira em mais de meio século.

Em 1965, logo após o golpe militar de 64, ingressei na Ação Popular. Quem era o líder dessa organização na Bahia? Haroldo Lima! Com sua imensa convicção e vibração, numa reunião com os estudantes universitários, eu terceiranista de medicina, ele me convenceu e aos demais, indicando-me candidato à presidência da UEB. Ganhamos o pleito.

Eu dava os primeiros passos de uma extensa trajetória política, sempre ao lado de Haroldo. Daí em diante, em todos os momentos culminantes de nossa história, estava ladeado com Haroldo.
Foi assim no pertinaz debate teórico-ideológico e político no seio da AP para transformá-la em um partido político com base no marxismo, no leninismo e nos revolucionários marxistas; na mobilização e na condução da AP, junto com Aldo Arantes, afim da integração ao Partido Comunista do Brasil; junto conosco estava Haroldo, já na direção do PCdoB, no trabalho intenso, em plena ditadura militar, para o apoio político e material à resistência armada do Araguaia; da minha volta do exilio na França, lá estava Haroldo no aeroporto me recepcionando; Haroldo estava junto conosco na dura e difícil missão de reestruturar PCdoB, após o fim do regime militar quando o Partido perdeu grandes quadros assassinados pela ditadura; em todo trabalho de edificar o PCdoB, nucleado por Amazonas, e sobretudo nos momentos de apostasias, após o fim a União Soviética estávamos junto com Haroldo; o trabalho protagonista de Haroldo na Constituinte de 1988, ao lado de Amazonas e da nossa direção do partido.

Para não me estender, muito ainda teria a dizer, este é um primeiro depoimento em homenagem a Haroldo, ainda em meio ao forte impacto do seu falecimento. Mas, ainda quero assinalar um momento decisivo da minha companhia com Haroldo.

Após a morte do nosso inesquecível João Amazonas, quando eu tive que ocupar o lugar da presidência do PCdoB, deixada pelo extraordinário e histórico dirigente João Amazonas; encontrei em Haroldo Lima o apoio e a ajuda sem par, para executar esta decisiva e mais importante tarefa de minha vida política. Em um momento tão especial e difícil, Haroldo foi uma referência e forte estímulo para o êxito dessa enorme tarefa.

Haroldo deixa vasta memória, enorme legado nos seus belos e combativos pronunciamentos, nos seus textos vibrantes, e em muitos com a linguagem poética, em artigos e ensaios e na sua prática entusiasta e consequente.

Sua memória, seu legado e seu exemplo nos fortalece, nos enche de maior ânimo para seguir o combate de transformar o Brasil, principalmente nesta quadra, de seguir o caminho da sua ampla emancipação como Nação, no rumo do socialismo.

Quero transmitir a Solange, sua companheira em toda a vida com Haroldo e a toda sua família meus sentimentos de profundos pêsames.

Haroldo, você está presente. Você vive em todas nossas conquistas, dos trabalhadores do povo brasileiro.