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Nise contra o estigma da loucura com afeto, ciência e arte

Elza Campos* Publicado em 18.05.2021

O filme ‘Nise’ foi escolhido como uma homenagem ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial, que ocorre nesta terça-feira 18 de maio. Esse importante movimento social transformou o paradigma do atendimento em saúde mental no Brasil, construído por profissionais, usuárias/os e instituições comprometidas com o fim das violações de direitos humanos. (Análise pode conter spoiler)

Nise, pioneira da luta antimanicomial Foto: Arquivo

“Não se cura além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas”.  (Nise da Silveira)

Resolvi fazer a resenha do filme Nise: O Coração da Loucura, tanto pelo significado profundo do filme, como pelas necessidades que a realidade nos impõe, diante de tanta complexidade e aberrações dos tempos atuais. Filme brasileiro lançado em 2015 tendo como atriz central Gloria Pires no papel da incrível médica Nise da Silveira. Com direção de Roberto Berliner, foi baseado no livro Nise – Arqueóloga dos Mares, de autoria do jornalista Bernardo Horta. Outro papel destacado é de Ivone Lara, que trabalhava como enfermeira em próxima cooperação com a médica. Dona Ivone, primeira Assistente Social negra do Brasil, mais tarde vai se notabilizar como cantora e compositora de sambas do Rio.

O filme foi inspirado na vida dessa psiquiatra nascida em Alagoas, a primeira aluna mulher a se formar na Faculdade de Medicina da Bahia, numa turma de 150 homens.

O cenário da película é o hospital psiquiátrico Pedro II, localizado no bairro Engenho de Dentro, no subúrbio do Rio de Janeiro, na década de 1940, o típico “depósito” de pacientes com distúrbios mentais da velha Psiquiatria.  Ali é contada a história emocionante e inspiradora da médica psiquiatra Nise da Silveira, que desafiava os tradicionais métodos com que se oprimia aquelas pessoas. Nise combateu a visão manicomial, desumana e repressora, repelindo técnicas cruéis como lobotomias, eletrochoques, contenções físicas forçadas, e a dopagem química.  Ela defendeu e praticou um tratamento humanizado e compreensivo da chamada “loucura”, que hoje é a grande referência nesse campo da saúde. Antes de lá chegar, Nise havia sido presa, durante dois anos, por fazer oposição à ditadura getulista do Estado Novo, por ter convicções comunistas e participar de grupos de estudos marxistas.

Esse filme é impactante, provocador de muitas emoções e inquietações que com certeza levamos para a vida toda. Por diversas vezes indiquei a minhas alunas do Curso de Serviço Social, nas disciplinas de Direitos Humanos e Diversidade e Gênero, considerando a necessária reflexão e tomada de posição diante da realidade da saúde pública no Brasil, em particular da saúde mental.

Gloria Pires, excelente atriz brasileira, protagoniza a história real de Nise, mostrando uma mulher corajosa e determinada, que superou muitos desafios. Na Medicina, destemidamente, afrontou as orientações retrógradas e torturantes impostas sobre as pessoas largadas ao léu naqueles “depósitos” manicomiais.  “Tratamentos” e locais sujos, impróprios, viraram verdadeiros espaços de humanização, pintura e modelagem, buscando-se em cada paciente sua expressão própria através da arte.

Já no início do filme, ao adentrar o hospital após esmurrar o portão, enfrenta uma reunião com uma equipe de médicos, só ela mulher, estarrecida com a defesa de métodos de eletrochoque e lobotomia, que ela questionava impetuosamente.

Por seu posicionamento, Nise é encaminhada ao pior espaço do hospital, onde conhece a enfermeira Ivone Lara (interpretada pela atriz Roberta Rodrigues). As duas mulheres, incansavelmente, transformam o local em marcenaria, sapataria, oficina de costura, trabalhos agrícolas, pintura, dança e modelagem, aliando a terapia ocupacional. Ivone trabalhava na enfermagem do hospital e depois ainda se formou em Serviço Social, dedicando-se especialmente aos cuidados com saúde mental.  Costumava percorrer as enfermarias e pavilhões do Instituto Psiquiátrico Pedro II, ouvindo as pessoas que lá estavam, combinando seu trabalho com a arte.

Importante relembrar a memória de atuação de Ivone Lara, uma das primeiras assistentes sociais negras do Brasil, e uma das maiores sambistas em nosso país, no sentido de destacar as intervenções muitas vezes silenciosas, mas transformadoras de profissionais da saúde entre elas as /os assistentes sociais que atuaram e atuam com respeito à condição humana, oportunizando o protagonismo, e o direito de escolhas e de desenvolver-se mesmo onde parece ser impossível. Uma justa homenagem também no dia 15 de maio, dia da/o profissional de Serviço Social.

Destaca-se o desempenho de Nise da Silveira e Ivone Lara, no rompimento de padrões patriarcais e de reforçamento à luta das mulheres e de rompimento à sua histórica condição de discriminação no Brasil. Lembramos que Nise era nordestina e Ivone negra, elementos presentes de forma intensa nos preconceitos: (mulher, nordestina e negra). Adensa-se que historicamente as mulheres sempre ocuparam lugar social de inferioridade, estando vulneráveis a diversos tipos de discriminação.

Nesse sentido, o filme discorre possibilidades de mudança de hábitos. Nise é representada como mulher forte e, ao mesmo tempo, afetuosa. O seu trabalho foi transformador em novas perspectivas do regime asilar e fora dele, além do confrontar a hegemonia masculina na psiquiatria.

O trabalho dessas duas bravas mulheres se contrapôs à ciência hegemonizada por homens brancos e machistas, na medida em que reconhecia sentimentos, opiniões, afetos como partes essenciais inerentes à condição do ser humano, necessárias à vida plena de qualquer pessoa.  O movimento antimanicomial – que ganhou maior força a partir dos anos 70, transformando as unidades de atenção à saúde mental da atualidade – deve muito à ousadia de Nise e de Ivone.

Nessa quadra da vida, vivemos momentos complexos e difíceis considerando a pandemia e também a postura e as ações explícitas e implícitas do governo de Bolsonaro no desmantelamento das políticas públicas, o ataque as Universidades públicas fundamentais na geração de conhecimento, na inovação e na formação de profissionais, incluindo os da área da saúde, como o SUS que sofre ainda mais após a aprovação da Emenda Constitucional 95 (EC 95/2016). Há alguns anos a rede substitutiva aos manicômios e os serviços de Saúde Mental de base comunitária estão aniquilados, muitos deles com diminuição de recursos humanos e materiais e alguns, ainda, reproduzindo práticas manicomiais. Segundo nota do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo[1], Clínicas, comunidades terapêuticas e organizações gestoras de equipamentos públicos que atuam na perspectiva manicomial mantém a exclusão, o confinamento e o desrespeito à diversidade e às singularidades sob pretexto de tratamento.

Mas, nos somamos à Luta Antimanicomial reforçando a importância de ações dignas e diversificadas para a pessoa com sofrimento psíquico, de maneira a garantir o direito à liberdade e o direito a viver em sociedade, lutando contra o estigma da loucura.

Por isso, o próprio nome do filme chama atenção – “o coração da loucura” – pois quer expressar que, mesmo no dito “louco”, lá em seu peito bate um coração pulsante de afetos.

Nise: O coração da loucura (2015)
1h 48min / Drama, Biografia
Direção: Roberto Berliner
Roteiro Flávia Castro, Maurício Lissovsky
Elenco: Glória Pires, Simone Mazzer, Julio Adrião

[1] https://www.crpsp.org/noticia/view/2522/18-de-maio-dia-da-luta-antimanicomial. Consulta realizada no dia 15 de maio de 2021.

*Elza Campos é assistente social, mestra em Educação e Trabalho pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), professora universitária, ex-presidente da UBM e titular da Secretaria de Mulheres do PCdoB-PR.