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Comuna de Paris, um convite à beleza coletiva

por Jean Tible* Publicado em 21.05.2021

Rebelião ensinou que não basta tomar o poder, é preciso constante (e radical) imaginação política, aposta no fazer compartilhado e organização da fecundidade. O prático e o belo, o útil e o poético são essenciais à chama revolucionária… Artigo abaixo é a apresentação para edição brasileira do livro Luxo Comunal: O imaginário político da Comuna de Paris, de Kristin Ross*.

Vive la commune! é um grito-chamado ecoando neste século e meio depois do gesto subversivo que tanto marcou e inspirou gerações e gerações de sonhadores-fazedores, dos sovietes de 1905 e 1917, da Comuna de Xangai de 1968 à zad de hoje no bocage do oeste francês e às comunidades autônomas zapatistas nas montanhas do sudeste mexicano.

Kristin Ross já tinha escrito, nos anos 1980, um belíssimo livro sobre a espacialidade da Comuna invocando o poeta-trabalhador, transformado pela Comuna, Arthur Rimbaud.1 Agora, no contexto dos levantes globais, volta a se debruçar, nesta incrível obra publicada em 2015, sobre a curta e extraordinária experiência proletária de 72 dias de insubordinação criativa e suas sobrevidas.

Estouro e existência

A pesquisadora da cultura e política francesas dos últimos dois séculos nos leva para as reuniões populares que estavam fervilhando a partir de 1868, quando o Segundo Império relaxa um pouco suas leis repressivas e abranda a censura. Embora os sindicatos fossem proibidos, a partir da década de 1860 cai o delito de coalizão e se permite a emergência das associações de trabalhadores. Vai se formando um corpo coletivo contestatário, em greves (legalizadas em 1864), em restaurantes em regime de cooperativa e em espaços como salões de danças, salas de concertos e armazéns onde se juntavam multidões ávidas por rebelião.2 Nesses clubes, as “colmeias zumbidoras” espraiam a ideia de uma comuna social nas classes perigosas (o grito-chamado acima abria e encerrava muitos desses encontros). A polícia (e seus numerosos espiões), sempre estudiosa das sementes da oposição, vai acompanhar isso de perto – um fervoroso adversário da Comuna vai chamar as reuniões públicas de “Collège de France da insurreição”, percebendo essa escola de elaboração coletiva desobediente. Quando o clima parisiense esquenta para valer, o governo proíbe e fecha todos os clubes no dia 22 de janeiro de 1871.

No início de março, num contexto de derrota e rendição dos governantes, os batalhões da guarda nacional se agitam: organizam um encontro, elegem uma comissão executiva, pensam numa estrutura federativa e levantam a bandeira de defesa da República. Muitas armas estavam em Paris, que havia vivido cinco meses de cerco e penúria, e o governo envia 10 mil soldados aos bairros operários para retomá-las. Na madrugada do dia 18 de março, o exército estava recolhendo os canhões que defenderiam a cidade na guerra contra a Prússia – era perigoso deixá-los com a população em convulsão. As mulheres de Montmartre se jogam nos canhões e nas armas dos soldados que não se mexem. O general das tropas ordena abrir fogo contra elas. Um suboficial grita mais alto para levantarem as armas, e é obedecido pelos soldados (será fuzilado por Versalhes meses depois)3. No que alguns dizem ter sido o primeiro dia de sol do ano, a revolução brota, com sua embriaguez que tudo pode mudar e deslocar.

Daí se encarna um dos mais fantásticos experimentos políticos de igualdade e dignidade – um conjunto de atos de destituição do Estado e suas instituições burocráticas por homens e mulheres comuns. Anônimos revolucionários, um messias coletivo composto por trabalhadores vindos do interior atraídos pelo progresso, artesãos em grande número, operários e mulheres, vagabundos e artistas. Um movimento produz novas condições, relações, afetos e subjetividades, e libera e potencializa as capacidades. O mundo de ponta-cabeça como em todos os processos revolucionários, nos quais as hierarquias são subvertidas e as ruas e a cidade tomadas – “podemos amar uma cidade, conhecer as casas, as ruas na sua mais longínqua e terna memória, mas é somente na hora da revolta que apreendemos realmente a cidade como sua cidade”.4

Antítese do Império, eis o autogoverno da classe operária. Seu principal trunfo? Sua “existência em ato”, a “forma política enfim encontrada para a emancipação do trabalho”.5 Não decreta nem proclama o fim do Estado e dos capitalistas, mas agencia ambos com medidas concretas importantíssimas que ali se esboçaram. A Comuna suprime o exército permanente e o caráter político da polícia, substituindo-os pela população em armas. Seus conselheiros municipais são eleitos, com mandatos imperativos e permanentemente revogáveis, e o mesmo ocorre com os demais funcionários públicos – como magistrados e juízes – que passam a receber salários de operários. Ataca-se o poder da Igreja, cortando seu financiamento público e expropriando seus bens. As fábricas e oficinas abandonadas são transformadas em cooperativas. Institui-se a liberdade de imprensa e a moratória dos aluguéis, expulsões e dívidas. O casamento passa a ser livre, e a Comuna adota as crianças não reconhecidas e torna gratuita e para todos a educação (com operários-professores), além de organizar cursos noturnos e salas de leituras em hospitais e creches nos bairros operários. Uma efervescência cultural exuberante, com atrizes e atores tomando posse dos teatros e abrindo-os. Os muros se tornam falantes (com cartazes de diversos formatos e cores) como depois, no mesmo lugar, em 1968 e em 2016-2020.

O governo autoritário abandona a cidade, deixando para trás, inclusive, os doentes nos hospitais. Nas suas poucas dez semanas, a Comuna sustenta as infraestruturas da vida na forma de uma autogestão generalizada – “a posse direta dos trabalhadores sobre todos os momentos de suas atividades”.6 Rompe, assim, os limites entre o político, o cultural, o social e o econômico, numa proposta geral, total, de uma nova presença. Esse corpo político se opõe à dominação monárquica e de classe, mas, sobretudo, se constitui de modo positivo, a partir da deliberação e tomada de decisões não mais secretas, e sim abertas à criação coletiva.

Composição e luxo comunal

Para J. B. Clément, autor da célebre música Le temps des cerises e um dos defensores da última barricada, “a germinação extraordinária das novas ideias surpreendeu e causou terror, o cheiro da pólvora comprometeu sua digestão; eles foram pegos de vertigem e não nos perdoarão”. A sinistra semana sangrenta de maio ceifa dezenas de milhares de vidas em sua reação despótica. Os meios que não foram empregados contra os prussianos o serão contra a Comuna (a verdadeira inimiga da ordem), que se encontrava cercada, na parte norte e leste, pelos prussianos e, na parte sul e oeste, por Versalhes – uma aliança de classe sem falhas. “Paris foi cortada na faca”, diz Louise Michel, usando uma imagem da caça. “Escrever esse livro”, argumenta a professora e comunarda, “é reviver os dias terríveis nos quais a liberdade passou raspando na gente e fugiu do abatedouro”.7

Mas não é nesse abjeto e covarde massacre que, felizmente, se concentra Ross. Em outra bonita contribuição anterior, a autora reflete sobre 1968 e sua invenção política que persiste e se reinventa, como na zad de Notre-Dame-des-Landes, que ela já visitou várias vezes e sobre a qual editou e traduziu um livro em inglês.8 Em 1967, a mítica editora Maspero publica o clássico História da Comuna de 1871, de Lissagaray, um comunardo que se dedicou por mais de duas décadas a uma monumental contrapesquisa para desmontar as mentiras do poder – seu livro será proibido por um bom tempo. Em 1968, outro momento de “febre de fé, de devoção, de esperança”,9 era impossível encontrar um exemplar nas livrarias parisienses que ferviam, todos já vendidos e lidos com entusiasmo.10 Esses anos loucos vão marcar uma volta do interesse pela Comuna, inclusive por influência dos surrealistas e situacionistas, em facetas que recordam aquelas semanas intempestivas de 1871: a fusão entre política e cotidiano, militância e vida, o prazer das novas amizades e cumplicidades nos gestos anti-hierárquicos de associação e cooperação.

Sua ênfase é no pensamento comunardo, do evento em si e das duas décadas seguintes, na medida em que o acontecimento transformou alguns de seus atores e apoiadores, como Élisée Reclus e Paul Lafargue, mas também Marx, Kropotkin e William Morris. Ross não parte em busca de lições da história, mas de que modos essa experiência se insere no presente e nas suas lutas. Percebe, nesse sentido, a sagacidade do conceito de “luxo comunal”, proposto no manifesto da Federação dos Artistas de Paris, escrito por Eugène Pottier, artesão e autor da Internacional (composta nas semanas posteriores à Comuna). Esse apelo do dia 13 de abril defende uma partilha não somente igualitária das coisas, mas também das nossas melhores habilidades, destacando as artes decorativas e os ofícios como marcenaria, cerâmica, costura, carpintaria, rendaria, sapataria e tantos saberes de artistas-operários. Uma beleza coletiva para todo mundo, de dimensão estética nas vidas cotidianas e não mais nos circuitos e apropriações elitistas e fechados. Uma aposta no fazer partilhado e na relação com a matéria, o trabalho livre, ou melhor, a livre atividade.

Como parte intrínseca das lutas contra as divisões hierárquicas e dominações, ocorre uma sublevação contra as barreiras nacionais – a “Comuna anexou a França à classe trabalhadora de todo o mundo”.11 Os membros da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) eram bem ativos nos clubes citados acima, fomentando um clima internacionalista e anticolonial. Uma das ações mais conhecidas da Comuna vai ser a derrubada da coluna da Praça Vendôme (feita com a fundição de canhões capturados) por ser uma celebração imperial e militarista de opressão de outros povos. Seu novo nome após a demolição? Praça Internacional. A categoria de estrangeiro é abolida, todos agora são cidadãos. Isso se concretiza na presença-chave dos poloneses Dombrowski na direção das operações de defesa militar e de Wroblewski (um oficial da insurreição polonesa de 1863), do húngaro Frankel (membro da AIT) na comissão do trabalho e da russa Élisabeth Dmitrie?, uma das fundadoras da União das Mulheres pela Defesa de Paris.

Essa organização é fundada a partir de um Apelo às cidadãs que se abre nomeando o verdadeiro inimigo – não o estrangeiro invasor, mas os franceses assassinos do povo e da liberdade. A União vai se dedicar a cuidar dos feridos com ambulâncias e comitês por bairros, além de distribuir marmitas revolucionárias. A União será um dos principais órgãos da Comuna e vai responder a anseios fortes do período anterior, nas reuniões populares desde 1868 e na formação da Sociedade para a Afirmação dos Direitos das Mulheres, sobre o trabalho das mulheres e salários mais dignos, direito ao divórcio e escolas primárias democráticas para as meninas. Naqueles dias embriagantes, um grupo majoritariamente feminino leva uma guilhotina ao pé da estátua de Voltaire e a queima; na sequência, todas serão jogadas no fogo.

Os anos 1870 são marcados por uma dupla tensão, de “movimentos ou acontecimentos espaciais” decisivos. Por um lado, essa década marca um ambiente favorável à expansão colonial, com a velocidade e linearidade das estradas de ferro, conectando pontos antes inacessíveis, em coordenadas sistemáticas e numa movimentação geopolítica consoante com o imaginário da linha reta de Haussmann que perfurou e destruiu bairros operários. A reação, por outro, vai qualificar a Comuna de “Paris no poder dos pretos” e os comunardos de “selvagens, um anel no nariz, tatuados de vermelho, fazendo a dança do escalpe sobre os destroços enfumaçados da Sociedade”, explicitando a guerra civil (e o aniquilamento, cá e lá). Uma categoria racial englobando operários e animais, selvagens e bárbaros que Rimbaud vai reivindicar e positivar como vínculo político concreto.12

A Comuna, apesar dos limites apontados (por não ter se coordenado bem militarmente e não ter tomado todo o dinheiro do Banco da França), encanta Marx e Bakunin, proudhonianos e blanquistas. Uma confluência das águas subversivas na proposição posterior de um “comunismo anarquista” e sua bagunça das divisões entre perspectivas em conflito (comunismo e anarquismo, por exemplo). A onda de choque da Comuna produz transformações em intelectuais, que se afetam por esse acontecimento e, cada um, com seu tempero, elabora a aposta por uma “transformação baseada numa vasta federação voluntária de associações livres em nível local”. Ross sabiamente conecta a insurreição numa das “capitais do mundo” com o interesse aguçado dos pensadores ligados à Comuna (Reclus, Marx, Morris e Kropotkin) pela organização coletiva da terra em tantos povos e até em coletividades não humanas. O mir russo, pescadores e camponeses islandeses, os iroqueses da América da Norte, o apoio mútuo como chave dos mundos animal, vegetal e humano, o elo entre Louise Michel e outros deportados com os Kanak na Nova Caledônia.

Isso nos situa num dos planos mais significativos de hoje – conjugar organização territorial e laços solidários transnacionais, o que já estava presente nos limites do isolamento que deixava vulneráveis tanto a Comuna de Paris (nos seus vínculos com o campo) quanto as comunas rurais. William Morris, em Notícias de lugar nenhum, imagina a derrubada da coluna de Nelson, monumento nacionalista na Trafalgar Square, em Londres e sua substituição por um pomar, com damasqueiros. O prático e o belo, o útil e o poético nas artes de não ser governado. Partamos da abundância.13 Não do luxo vazio, destrutivo, medíocre e monocultural capitalista, mas do luxo comunal da riqueza existencial dos povos da terra em luta, nas Américas e no planeta. A comuna como “organização da fecundidade”,14 pelo prazer das lutas-vidas-criações; como composto por Waly, cantado por Gil e encenado pelo Oficina e por tantas, a felicidade guerreira.

*O livro foi publicado no Brasil pela Autonomia Literária, parceira editorial de Outras Palavras, que nos cedeu este capítulo. Para saber mais, clique aqui. Se você fizer parte de Outros Quinhentos, nosso programa de autossustentação, tem 25% de desconto em todos os livros da editora.


1 Ross, Kristin. Rimbaud, la Commune de Paris et l’invention de l’histoire spatiale. Paris: Les Prairies Ordinaires, 2013 [1988].

2 Merriman, John. A Comuna de Paris: 1871 origens e massacre. Rio de Janeiro: Anfi teatro, 2015 [2014], p. 22-23.

3 Michel, Louise. La commune. Paris: La Découverte, 2015 [1898], p. 178; 266.

4 Jesi, Furio. Spartakus: symbolique de la révolte. Bordeaux: La Tempête, 2017 [1970-1977], p. 101.

5 Marx, Karl. “The Civil War in France”. Em: Marx, Karl e Engels, Friedrich. Writings on the Paris Commune. Draper, Hal (org.). Nova York: Monthly Review Press, 1971 [1871], p. 76.

6 Debord, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997 [1967].

7 Michel, Louise. La commune. Paris: La Découverte, 2015 [1898], p. 233; 42.

8 Mauvaise Troupe Collective. The Zad and Notav: Territorial Struggles and the Making of a New Political Intelligence. Londres: Verso, 2018.

9 Lissagaray, Prosper-Olivier. Histoire de la Commune de 1871. Paris: La Découverte, 2000 [1896], p. 200.

10 Ross, Kristin. Maio de 68 e suas repercussões. São Paulo: Sesc, 2018 [2002].

11 Marx, Karl. 1871, p. 80.

12 Ross, Kristin. Rimbaud, la Commune de Paris et l’invention de l’histoire spatiale. Paris: Les Prairies Ordinaires, 2013 [1988], p. 16; 206.

13 Ferreira da Silva, Denise, comunicação pessoal, agosto de 2020.

* Jean Tible é militante e professor de Ciência Política na Universidade de São Paulo. É autor de Marx Selvagem (Annablume, 2013; 2. edição, 2016) e co-organizador de Junho: Potência das Ruas e das Redes (Fundação Friedrich Ebert, 2014) e Cartografias da Emergência: Novas Lutas no Brasil (FES, 2015). Textos e livros disponíveis em: https://usp-br.academia.edu/JeanTible