Artigos

Che Guevara: o aniversário do ausente

Eric Nepomuceno Publicado em 14.06.2021

Se não tivesse sido assassinado por um soldadinho boliviano na segunda-feira, 9 de outubro de 1967, Ernesto Rafael Guevara de la Serna, o permanente Che Guevara, estaria fazendo 93 anos nesta segunda-feira, 14 de junho. Ele foi preso e desarmado um dia antes, em La Higuera, um povoadozinho minúsculo nos confins da Bolívia. Antes mesmo de ser interrogado, veio, dos Estados Unidos, a ordem determinante: matar o preso.

Créditos da foto: Fidel Castro e Ernesto Che Guevara (Reprodução/bit.ly/2Sx0LWE)

 

CONHEÇA O ESPECIAL CHE GUEVARA 1928-1967

 

Tempos depois, uma das testemunhas da sua morte contou o que disse o Che ao soldadinho que apontava, trêmulo, um fuzil para ele: “Vamos, seja homem! Faça o que tem de fazer!”.

E então, levou o primeiro disparo e tombou morto. Outros tiros vieram depois, como se fosse preciso matá-lo mais de uma vez.

Terminou assim uma vida única e incomparável. Pensando em tudo que o Che viveu, parece impossível ele ter sido levado um ano antes de chegar aos 40. Como se cada um dos seus dias tivesse bem mais que 24 horas.

Embora sua trajetória tenha sido revirada pelo avesso em um sem-fim de trabalhos e pesquisas, livros e documentários, sempre permanece a expectativa de novas descobertas. E essa expectativa dá a dimensão, ou parte dela, que sua figura ocupa no imaginário popular até mesmo de gerações que não tinham nascido quando ele foi abatido. Para os mais jovens, sua imagem fixou-se como a de um libertário. Para os que eram jovens quando o Che vivia, a de alguém coerente com suas ideias e compromissos até o fim.

Desde que, ainda estudante de medicina, ele saiu de moto percorrendo – e descobrindo – a América Latina, seu caminho não teve volta.

A miséria, o abandono, a exploração, a destruição deixaram naquele rapaz de classe média de Córdoba, a segunda maior cidade argentina, marcas permanentes. E foi contra isso que ele se insurgiu, principalmente depois de ter passado uma temporada na Guatemala do presidente Jacobo Árbenz, um militar progressista que implantou uma reforma agrária que acabou levando as empresas norte-americanas a perderem seus latifúndios. Com isso, a CIA entrou em ação, e Árbenz e sua Guatemala sofreram em 1954 o primeiro golpe de Estado nos moldes dos que depois se repetiriam ao longo do mapa latino-americano.

O Che foi parar no México, onde acabou se juntando a um grupo de cubanos liderados pelo advogado Fidel Castro, e o resto é história.

Da série de perguntas sem respostas surgidas ao redor da figura do Che, várias permanecem de uma atualidade exemplar rondando minha memória. Por exemplo: o que ele acharia do mundo de hoje, da América Latina de hoje, Cuba de hoje?

Depois da vitória da Revolução, a verdade é que ele custou a achar um espaço próprio dentro do processo.

Presidiu o Banco Central com certo tédio e dando mostras de seu corrosivo e luminoso humor. Há registro de uma reunião que durou horas sem chegar a lugar algum, com ele, na cabeceira da mesa, rabiscando folhas e folhas em branco.

A certa altura perguntou quanto dinheiro havia em caixa. A resposta preocupante refletia a crise: o suficiente para dois meses e pouco de importações.

A solução encontrada pelo Che, nascido em Rosário, criado em Córdoba e, como todo interiorano, crítico extremo da prepotência dos nascidos em Buenos Aires: pediu parte substancial daquele dinheiro, explicando que compraria portenhos pelo que valiam, venderia pelo que eles achavam que valiam, e com o lucro iria salvar a Revolução.

Pouco depois mudou de cargo: passou a ser ministro da Indústria. Acontece que era avesso à burocracia.

Não tardou muito a ir embora de Cuba, levando sua proposta de luta para outras paragens.

Hoje, o que o Che diria da derradeira revolução vivida pela América Latina, a Sandinista, que em 1979 fechou décadas de ditaduras da família Somoza? Como veria a brutal virada de um dos principais líderes daquela revolução que vivi de perto, Daniel Ortega? O que diria do guerrilheiro que foi essencial para libertar seu país e depois implantou um regime em tudo similar ao que ajudou, e como!, a derrubar?

Como descreveria o que seu próprio país, a Argentina, vem vivendo desde o retorno de Juan Perón ao governo, em 1973, e principalmente o que aconteceu depois da sua morte, em 1974? Teria retornado para participar da resistência armada à ditadura sangrenta implantada em março de 1976?

Do Brasil de hoje, então, melhor nem pensar.

Uma coisa, porém, é certa: do alto dos 93 anos que faria neste 14 de junho, ele estaria na barricada.

Contra essa permanente desigualdade, essa humilhação padecida pelos abandonados de sempre, pela bonança abjeta dos beneficiados de sempre.

Porque para o Che, nunca houve caminho de volta.

 
As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do PCdoB
 
 
Fonte: Carta Maior