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A Internacional, o hino dos trabalhadores, completa 150 anos

Raul Carrion Publicado em 23.06.2021

Inicialmente, A Internacional era cantada com a música da Marselhesa. Em 1888, após a morte de Eugène Pottier, outro operário – Pierre Degeyter – musicou a letra de A Internacional, dando-lhe sua versão definitiva.

A insurreição operária da Comuna de Paris – entre 18 de março a 28 de maio de 1871 – foi afogada em sangue, contabilizando a morte de mais de 30 mil comunardos e a deportação para as mais longínquas colônias de outros 40 mil o operário.

Eugène Pottier – que participou ativamente da Comuna – escreveu, ainda em junho de 1871, escondido em Paris, a letra de A Internacional, que veio a tornar-se o hino dos trabalhadores de todo o mundo. Para evitar a morte, logo depois Pottier teve que emigrar para a Inglaterra.

Inicialmente, A Internacional era cantada com a música da Marselhesa. Em 1888, após a morte de Eugène Pottier, outro operário – Pierre Degeyter – musicou a letra de A Internacional, dando-lhe sua versão definitiva.

Em homenagem aos 150 anos da Comuna de Paris e da criação de A Internacional, transcrevo a seguir um artigo de Lenin sobre Eugène Pottier , uma breve biografia de Pierre Degeyter e a sua letra em português.

Eugène Pottier, o poeta de A Internacional

 

Em novembro de 1912, se passaram 25 anos desde a morte do poeta-trabalhador francês Eugène Pottier, autor da famosa canção proletária A Internacional (“De pé, ó vítimas da fome”, etc.).

Essa canção foi traduzida para todas as línguas europeias e não apenas europeias. Qualquer que seja o país em que um trabalhador consciente vá parar, qualquer que seja o lugar onde o seu destino o levar, por mais estrangeiro que se sinta por não falar a língua, sem conhecidos, longe da pátria, sempre encontrará camaradas e amigos por intermédio de A Internacional.

Os trabalhadores de todo o mundo têm tornado seu esse canto do combatente da vanguarda, do proletário poeta e o converteram no hino proletário mundial.

E, agora, os trabalhadores de todo o mundo honram a memória de Eugène Pottier. Sua esposa e sua filha ainda vivem, e vivem na miséria, como sempre viveu o autor de A Internacional.

Pottier nasceu em Paris, em 4 de outubro de 1816. Tinha 14 anos quando escreveu sua primeira canção – “Viva a Liberdade”. Em 1848, durante a grande batalha dos trabalhadores contra a burguesia, combateu nas barricadas.

Pottier era filho de uma família pobre e como pobre viveu toda a sua vida. Um proletário que ganhava o seu pão embalando caixotes e, posteriormente, desenhando motivos para tecidos.

A partir de 1840, ecoaram em suas combativas canções todos os acontecimentos importantes registrados na vida da França. Nessas canções, ele despertava a consciência dos oprimidos, chamava os operários para a unidade, fustigava a burguesia e os governos burgueses da França.

Durante a grande Comuna de Paris (1871), Pottier foi eleito membro da Comuna, reunindo 3.352 votos dos 3.600 emitidos. Tomou parte ativa em todas as ações da Comuna, esse primeiro governo proletário. A queda da Comuna o obrigou a emigrar para a Inglaterra e para os Estados Unidos.

A famosa canção A Internacional foi escrita em junho de 1871, no dia seguinte – por assim dizer – da sangrenta derrota de maio (…).

A Comuna foi esmagada (…) mas A Internacional de Pottier difundiu as suas ideias por todo o mundo e hoje está mais viva que nunca.

Em 1876, no exílio, Pottier escreveu poema “Os trabalhadores dos Estados Unidos aos trabalhadores da França”, no qual retrata a vida dos trabalhadores sob as botas do capitalismo, sua miséria, seu trabalho de forçados, sua exploração, sua firme certeza no triunfo vindouro de sua causa.

Regressou à França somente nove anos depois da Comuna e prontamente entrou para o Partido Operário. Em 1884, foi publicado o seu primeiro livro de poemas. Em 1887, apareceu o segundo, intitulado “Canções Revolucionárias. Outras canções do poeta-trabalhador só foram publicadas após a sua morte.

Em 8 de novembro de 1887, os trabalhadores parisienses acompanharam o corpo de Eugène Pottier até o cemitério de Père Lachaise, onde estão enterrados os fuzilados da Comuna. A polícia organizou uma repressão, arrancando a bandeira vermelha. Uma imensa multidão assistiu ao enterro. De todos os cantos saíam os gritos de “Viva Pottier”.

Pottier morreu na miséria, mas deixou erguido em sua memória um monumento imperecível. Foi um dos maiores propagandistas por intermédio da canção. Quando escreveu sua primeira canção, o número dos trabalhadores socialistas podia ser contado, no máximo, em dezenas. Hoje, a histórica canção de Eugène Pottier é conhecida por dezenas de milhões de proletários (…).


Vladimir Ilitch Lenin – 3 de janeiro de 1913

Pierre Degeyter, o músico de A Internacional

 

Pierre Degeyter nasceu em Ghent, Bélgica, em 8 de outubro de 1848, em uma família pobre, que se mudou para Lille, no norte da França, em 1855, em busca de emprego. Pierre passou a trabalhar como operário e frequentou o curso noturno de Música, no Conservatório de Lille, onde obteve o primeiro prêmio, num concurso realizado em 1866. Juntou-se, então ao coro de trabalhadores da Lira dos Trabalhadores de Lille – fundado pelo líder socialista Gustave Delory – onde tocava harmônio e compunha canções.

Em 1888, Degeyter musicou os versos de A Internacional – a Marselhesa dos Trabalhadores –, de Eugène Pottier. Sua música estreou em fins de julho, no Sindicato dos Vendedores de Jornais, obtendo enorme sucesso.

Até 1900, A Internacional só era conhecida no norte da França, tendo se tornado a canção dos mineiros da região. Posteriormente, ficou conhecida no resto da França. Em fevereiro de 1900, foi cantada em Bourges, igualmente pelos manifestantes de Saint-Quentin e nos festejos do 1º de Maio de diversas cidades. Logo, A Internacional popularizou-se nas manifestações de rua, nos Congressos, nos sindicatos.

Em 1905, foi a canção dos amotinados do Encouraçado Potiomkim. Em 1907, ressoou no Congresso de Stuttgart e, em 1910, no Congresso de Kopenhagen. Em outubro de 1917, foi o hino da vitória dos insurretos da Praça Vermelha, em Moscou. Pouco a pouco, tornou-se o Hino dos Trabalhadores de todo o mundo.

Pierre Degeyter, que no início era socialista, posteriormente ingressou no Partido Comunista Francês. Em 1927, com quase 80 anos, fez parte da delegação do Partido Comunista Francês às comemorações do 10º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro e cantou com o povo soviético A Internacional.

Pierre Degeyter faleceu em Saint-Denis, em 26 de setembro de 1932, com quase 84 anos. Em seus funerais, compareceram em torno de 50 mil trabalhadores, para homenageá-lo.

A música de A Internacional celebrizou-se e foi fundamental para que todos passassem a cantá-la ao redor do mundo!

A Internacional

De pé, ó vítimas da fome!

De pé, famélicos da terra!

Da idéia a chama já consome

A crosta bruta que a soterra.

Cortai o mal bem pelo fundo!

De pé, de pé, não mais senhores!

Se nada somos neste mundo,

Sejamos tudo, ó produtores!

Bem unidos façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional.

Messias, Deus, chefes supremos,

Nada esperamos de nenhum!

Sejamos nós quem conquistemos

A Terra-Mãe livre e comum!

Para não ter protestos vãos,

Para sair deste antro estreito,

Façamos nós por nossas mãos

Tudo o que a nós diz respeito!

Bem unidos façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional.

Crime de rico a lei o cobre,

O Estado esmaga o oprimido.

Não há direitos para o pobre,

Ao rico tudo é permitido.

À opressão não mais sujeitos!

Somos iguais todos os seres.

Não mais deveres sem direitos,

Não mais direitos sem deveres!

Bem unidos façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional.

Abomináveis na grandeza,

Os reis da mina e da fornalha

Edificaram a riqueza

Sobre o suor de quem trabalha!

Todo o produto de quem sua

A corja rica o recolheu.

Querendo que ela o restitua,

O povo só quer o que é seu!

Bem unidos façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional.

Fomos de fumo embriagados,

Paz entre nós, guerra aos senhores!

Façamos greve de soldados!

Somos irmãos, trabalhadores!

Se a raça vil, cheia de galas,

Nos quer à força canibais,

Logo verá que as nossas balas

São para os nossos generais!

Bem unidos façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional.

Somos o povo dos ativos

Trabalhador forte e fecundo.

Pertence a Terra aos produtivos;

Ó parasitas, deixai o mundo!

Ó parasita que te nutres

Do nosso sangue a gotejar,

Se nos faltarem os abutres

Não deixa o sol de fulgurar!

Bem unidos façamos,

Nesta luta final,

Uma terra sem amos

A Internacional.