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As manifestações em Cuba

Luiz Bernardo Pericás* Publicado em 15.07.2021

Trata-se de uma luta ideológica que adquire contornos dramáticos. Cuba é muito importante para a esquerda mundial. Todos devemos lutar pela ilha e pelos ideais da revolução

Trabalhadores acudiram ao chamado e foram para as ruas gritando “Yo soy Fidel”. Foto: Foto: Adelante/Fotos Públicas

Os protestos em diferentes cidades cubanas, iniciados em San Antonio de los Baños no domingo passado, têm sido amplamente noticiados pela grande imprensa como um sinal de que o povo do país estaria, aparentemente, cansado de seu governo e que buscaria trocar o modelo socialista por outro supostamente mais “liberal” e “democrático”. Segundo essa narrativa, os problemas econômicos, agravados pela pandemia do novo coronavírus, teriam sido fundamentais para deflagrar as manifestações. É preciso, contudo, ter cautela neste momento para não ser influenciado pelos veículos da mídia estrangeira ou por informações provenientes de meios “alternativos” escusos, em geral, de grupos da internet locais, com intenso apoio dos Estados Unidos.
 
A pandemia, por certo, afetou Cuba. Mas são muitos os países que viram a economia se deteriorar com o avanço da Covid-19. No Brasil, é possível verificar enormes taxas de desemprego e um processo acelerado de precarização e “uberização” do trabalho, com aumento da pobreza e da desigualdade, dentro de um quadro de calamidade sanitária sem precedentes em nossa história, com níveis alarmantes de casos e óbitos pela doença em todo o território. Nenhuma nação no planeta passa por uma tragédia similar. Isso sem contar com uma crescente crise política, que vem desgastando a cada dia mais o governo de Jair Bolsonaro, o qual constantemente tem ameaçado as instituições e até a realização das eleições em 2022.
 
Em Cuba, ao contrário daqui, o presidente Miguel Díaz-Canel goza de confiança irrestrita entre os trabalhadores da ilha. A imensa maioria da população apoia a continuidade de sua administração, diferentemente do que as agências de notícias tentam mostrar. Sem dúvida, o país passa por dificuldades. O PIB encolheu 11% em 2020, a escassez de remédios e alimentos é uma realidade, há falta de peças de reposição, apagões elétricos têm ocorrido e houve uma nítida diminuição do turismo (um setor extremamente importante para o ingresso de divisas), com uma redução de voos do exterior. Isso para não falar da produção de açúcar, afetada por uma má colheita em 2021, motivada por uma forte seca.
 
Talvez o mais grave neste painel, contudo, seja o contínuo bloqueio econômico imposto pela Casa Branca. Se já não bastasse vivenciar as agruras da pandemia (como o resto do mundo), Cuba tem passado por dificuldades em obter insumos médicos e alimentos por causa do embargo contra a ilha. Em outras palavras, se há algum verdadeiro culpado pelo estado em que se encontra o país, este não é, por certo, o governo cubano, mas sim, Washington.
 
Enquanto Díaz-Canel constantemente apresenta, de forma transparente, todas as questões que afligem a população em audiências e conferências públicas e televisionadas, procura, ao mesmo tempo, equilibrar uma política realista e austera (calcada numa conjuntura extremamente delicada) com a luta diária para preservar as conquistas sociais da revolução, construídas ao longo de décadas. Não é tarefa fácil. Não podemos deixar de lembrar que Cuba está desenvolvendo pelo menos cinco vacinas contra o coronavírus, um feito admirável para a nação caribenha. E que apesar do aumento do número de casos de Covid-19, há um empenho enorme das autoridades em mitigar o problema, com o envio de médicos para as regiões mais afetadas e a adaptação de hotéis em hospitais de campanha. Em torno de US$ 184 milhões foram gastos, em 2020 e 2021, para tentar lidar com esse grave problema de saúde. De qualquer forma, Cuba tem um dos menores índices de contágio e de perdas de vida pelo coronavírus no mundo.
 
Ainda assim, em um momento dramático como o atual, alguns grupos locais, apoiados e financiados por potências estrangeiras, se aproveitam da situação para semear o caos e a discórdia. Vale lembrar que as mobilizações do dia 11 de julho não foram espontâneas nem tão grandes quanto informam e que muitos elementos que participaram delas não eram representativos da maioria do povo cubano.
 
Enquanto ocorriam, as manifestações (em boa parte, orquestradas) recebiam o apoio declarado de Joe Biden, o líder da maior potência imperialista do planeta, e de Jair Bolsonaro, o principal representante da extrema-direita da América Latina. É ingenuidade achar que Washington não esteja por trás desses protestos. Por décadas a Casa Branca realizou tentativas de assassinato de dirigentes cubanos, apertou o bloqueio e ameaçou a “mayor de las Antillas” de todas as formas. Muitos dissidentes e ONGs conhecidas (como a organização de Rosa María Payá, a Fundação para a Democracia Panamericana, que tem sede em Miami e que propagandeou durante os atos seu slogans “Cuba decide”) continuam recebendo apoio moral e material dos EUA para desestabilizar o país (lembremos que Payá se reuniu, em anos recentes, com personagens nefastos como Luís Almagro, Marco Rubio, Donald Trump, Leopoldo López Gil e Jeanine Áñez). No dia 11, “coincidentemente”, ocorreram, simultaneamente, pequenos protestos em algumas localidades da Flórida...
 
Díaz-Canel, por sua vez, convocou a massa em favor do governo. Trabalhadores acudiram ao chamado e foram para as ruas gritando “Yo soy Fidel”. Nos próximos dias, as autoridades em Havana terão condições de mostrar o outro lado da situação e colocar a verdade dos fatos em seu devido lugar.
 
Nunca é demais recordar o caso da Bolívia, quando Evo Morales, depois de reeleito em 2019, sofreu um golpe de Estado e obrigado a renunciar à Presidência, teve de sair do país: a direita governou autoritariamente a nação andina por meses com o apoio dos setores mais reacionários do Hemisfério Ocidental. Em 2020, contudo, Luis Arce, candidato do MAS, ganhou as eleições de forma esmagadora e Morales retornou, explicitando como toda a narrativa sobre a “democracia” proposta pela direita boliviana fora fabricada. Outro exemplo ainda, quando Juan Guaidó, o autoproclamado “presidente” interino da Venezuela, recebeu o suporte de empresários locais, norte-americanos e europeus, assim como de autoridades governamentais de vários países. Ao final, nada aconteceu. E Maduro permaneceu no poder. Desta vez, tentam desestabilizar a ilha caribenha...
 
Esta é uma luta ideológica que agora adquire contornos dramáticos. Alguns pretendem destruir o legado revolucionário e promover o neoliberalismo em Cuba. Outros, inspirados em Che Guevara e Fidel Castro, se empenham em preservar e aprofundar o socialismo. Cuba é importante demais para a esquerda latino-americana e mundial. Todos nós devemos lutar pela ilha e pelos ideais da revolução.
 
*Luiz Bernardo Pericás é professor de História Contemporânea na USP, doutor em História Econômica (USP) e pós-doutor em Ciência Política pela Flacso (México) e pelo IEB/USP. Autor de Caio Prado Júnior: uma Biografia Política, organizou Caminhos da Revolução Brasileira (Boitempo, 2019)