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Idos de Março aversos

Roberto César Cunha Publicado em 27.08.2021

O geógrafo imagina os Idos de Março de Júlio César às avessas no Sete de Setembro de Bolsonaro. O golpe contra o romano o eternizou, enquanto o golpismo da milícia a enterrará no esquecimento.

Os solavancos políticos amiudadamente servem, entre outros, para dois princípios básicos: conter desejos que ultrapassam os limites das relações sociais em voga e; satisfazer interesses oligarcas mais mesquinhos possíveis. Assim, não é necessário esquecer, que a vida de Júlio César foi determinada nesse sentido de poder político através de suas lutas e batalhas. Consagrado como conquistador, seu último triunfo (a conquista do Egito a lado de Cleópatra) separa-se dos Idos de Março em apenas pouco mais de dois anos. Porém, o Quinze de março de 44 a.c. se transformou em sua maior vitória: Júlio César é morto no senado romano pelos ditos “libertadores” capitaneados por Brutus, Cássio e Cícero, e vira um Deus.

Com inteligência mancêbica, iluminados pelo passado do assassinato de Rômulo, o crime desfuncionou-se em um erro. Sem nenhum planejamento para assegurar a posse do poder, uma vez que, não conseguiram eliminar os desafetos adjuntos de Júlio César, os “libertadores” viraram “conspiradores”, e a única opção foi a fuga de Roma. Resultado disso, a segunda maior coalizão da história romana foi montada: o Segundo Triunvirato - Marco Antônio, Otaviano e Lépido. Com legiões implacáveis, esses, os cesarianos, massacraram os agora cesaricidas, em um campo em Filipos na Grécia. Cícero vendo a iminente derrota, afirmara que o assassinato de Júlio César: “foi um acerto de contas e não um primeiro passo de um grande projeto político”.

Por conseguinte, à luz dos acontecimentos recentes no país, ao invés de ir “no passado do assassinato de Rômulo” (golpes pretéritos no Brasil), não é incomum suspeitar que pode existir a possibilidade do Sete de Setembro de 2021 tornar-se os Idos de Março aversos. Visto que, o governo do presidente Bolsonaro representa similaridades com os conspiradores. Com isso, elenca-se quatro principais características, por ora, da possível inversão de Bolsonaro ao propósito ambicionado:

(1)  Não tem controle político: várias quedas de ministros propagandistas (educação; meio ambiente; saúde; cultura), não controla sua própria turma; não tem estrategistas e nem pensantes na sua equipe, Saddam Hussein, Benito Mussolini, Adolf Hitler etc. eram cercados por gênios e cientistas meritórios; não controla as delinquências dos seus próprios filhos e familiares; optou pelo dadaísmo político. Nesse caso, entregou aos "amigos do centrão” seu muro de arrimo. Arthur Lira e Ciro Nogueira são do território do maior adversário; e não conseguiu eliminar seus adversários políticos, Lula está vivo e altivo. Fez mais inimigos que amigos.

(2)  Não tem controle econômico: não estatizou nem um setor essencial da economia, sobretudo de energia (petróleo, gás, hidroeletricidade); tem influência tênue sobre parte do empresariado, muitas vezes por admiração desse, e não por laços de comprometimento (via corrupção, cooptação e interesses de classe); coleciona os piores indicadores econômicos e sociais; o nacionalismo em jogo é puramente servil, nítido alimento de subalternidade;

(3)  Não tem controle ideológico: não possui uma proposta de nova sociedade, como Hitler (Mein Kampf) e Muammar Kadhafi (Livro Verde). Nesse aspecto, ele tem apenas o neopentecostalismo, que se sabe: é vacilante e fortemente sugestionável. Não tem como fazer-se líder supremo como o Aiatolá Khomeini no Irã.

(4)  Não tem controle institucional: sofre barreiras nas Forças Armadas, MPF, STF, STJ, Congresso Nacional, OAB, PF, TSE, e nas instituições estaduais; São quase vinte governadores em oposição ao governo; O Brasil não é do tamanho da Líbia ou do Iraque. É preciso uma rede muito grande de espionagem, boicotagem, sabotagem e estrutura tática. Não conseguiu manter a Amazônia sob controle. Um delegado derrubou seu ministro mais fiel.

Por derradeiro, as fanfarronadas verbais sobre um golpe de Estado são diretamente proporcionais a tibieza dos políticos. Dito isso, se o Brasil é tanto Roma como Júlio César, as forças democráticas e seus líderes (Lula, Ciro Gomes, João Dória, governadores, sindicatos etc.) podê-lo-iam montar o maior consórcio político da história nacional, tipo o Segundo Triunvirato, para acertar definitivamente as contas com a democracia. Para isso, é preciso pensar com largueza e agir com alta política.

Roberto César Cunha é geógrafo, Mestre e Doutor em Geografia (UFSC) e pesquisador nível pós-doutoramento no PPGGEO-UFSC