Entrevistas

Gilse Cosenza, moça e combatente de Minas

Fernando Garcia de Faria* Publicado em 15.03.2021

Gilse Maria Westin Cosenza (1943-2017), mineira de nascimento, conta sua vida militante desde suas primeiras tomadas de consciência sobre o patriarcado e as injustiças sociais, o grêmio da escola, a Juventude Estudantil Católica (JEC), até a Ação Popular (AP) e o PCdoBrasil. Narra como foi o dia do golpe de 1964 em Belo Horizonte e as dificuldades da resistência naquele momento. Sua experiência em Minas Gerais, São Paulo e Ceará forjaram uma militante madura que analisa de forma profunda sua vida política e de seu Partido. 

Em mais de duas horas e meia de entrevista, ela destrincha as dificuldades do movimento estudantil pós-golpe, a integração à produção e sua convivência com trabalhadores rurais – afirma e reafirma a importância de estar perto do povo –, suas fugas e sagacidade para sobreviver à vida clandestina; sua participação na incorporação dos militantes da AP ao PCdoB. 

A prisão e resistência à repressão na cadeia são um ponto marcante da entrevista. Sua fibra diante daquelas dificuldades se soma à narração, sob uma abordagem de gênero, na condição de presa política e mulher. 

Sua soltura se deu através de uma brecha jurídica – que antes da repressão perceber ela já estava bem longe de Belo Horizonte. Ficou na sua cabeça a frase proclamada pelo advogado e amigo: “Suma, esqueça Minas Gerais!” Não foi possível esquecer e não foi tão cedo que ela voltou. Quando saiu da prisão, as presas cantaram uma versão da música de resistência da Guerra Civil Espanhola: “Se tu quieres escribirme, ya sabes mi paradero. Se tu quieres escribirme, ya sabes mi paradero! En la lucha contra el facho! En la lucha contra el facho! Primera linea de FUEGO!” Um símbolo de força para quem sai e para quem fica.

Ela conta também a convivência com Pedro Pomar e João Batista Franco Drummond. Isso agravou o impacto da Chacina da Lapa, em dezembro de 1976. Sua ida para o Ceará, depois da queda das duas estruturas partidárias, fez com que se recomeçasse o trabalho de construção partidária. Só não foi um reinício do zero, pois havia, entre outros, Benedito Bizerril segurando alguns contatos que a repressão não pode localizar. 

Com os estertores da ditadura, Gilse – com uma aguerrida militância comunista no Ceará, entre eles Carlos Augusto Diógenes (Patinhas), Abel Rodrigues, Inácio Arruda, Chico Lopes, Benedito Bizerril, Lula Morais e tantos outros – reconstruiu as estruturas de direção, a vigorosa participação do PCdoB nos movimentos estudantil, comunitário e sindical. Protagonizou também a campanha da legalidade do PCdoB, em 1984-85.

Em que pese o conteúdo da entrevista verse até a primeira metade dos anos 1980, Gilse teve uma continuada e rica vida militante. Foi candidata a deputada federal pelo PCdoB em 1990 e, sem recursos, recebeu um surpreendente apoio da população. Foi presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM) e teve a pauta das questões da emancipação da mulher como uma nota constante em suas palestras e na leitura do mundo. 

O Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois publica este documento in totum em homenagem a Gilse e também em homenagem ao centenário do PCdoB que se aproxima. A entrevista foi feita nos marcos do Projeto Marcas da Memória, em 22 de outubro de 2012, pelos historiadores Fernando Garcia de Faria e Felipe Spadari da Silva, na casa da entrevistada, em Belo Horizonte (MG). O roteiro ficou a cargo de Fernando Garcia de Faria e Augusto Buonicore. A câmera e o som foram de Felipe Spadari da Silva. E a edição foi de Alessandra Stropp