Entrevistas

Janeiro Branco: o retorno dos psicodélicos no tratamento da saúde mental

Flavio Lobo Publicado em 09.01.2022

No mês dedicado à saúde mental, a revista Cult divulga o dossiê No Rastro da Angústia com entrevista do neurocientista brasileiro Eduardo Schenberg, que analisa o ressurgimento, em todo o mundo, de terapias assistidas por drogas psicoativas. Os tratamentos pioneiros estão se tornando alternativa ao uso maciço de remédios psiquiátricos, em meio aos preconceitos e proibicionismos, podendo causar transformações legais profundas, inclusive na indústria farmacêutica.

Eduardo Schenberg, entrevistado por Flavio Lobo, na Revista Cult, parceira editorial de Outras Palavras

Eduardo Schenberg é um dos pesquisadores que compõem a vanguarda da ciência psicodélica brasileira. Doutor em neurociência pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador honorário da Imperial College de Londres, Schenberg trouxe para o Brasil parte de uma pesquisa internacional promovida pela ONG estadunidense MAPS, que testou, em pacientes voluntários, um modelo pioneiro de psicoterapia com MDMA, ou metilenodioximetanfetamina, para tratamento de transtorno de estresse pós-traumático. Criou e preside o Instituto Phaneros, dedicado à pesquisa e à formação de profissionais na área das terapias psicodélicas.

Qual é o cenário da saúde mental no mundo e no Brasil?
Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já projetava que a saúde mental seria o maior desafio sanitário global do século 21. Os governos, em geral, investem nessa área muito menos do que a OMS recomenda. Isso acontece por diversas razões, desde o estigma associado a doenças mentais e as discussões infindáveis se elas são ou não doenças reais e outros problemas da psiquiatria, até o excesso de diagnósticos. Traçar a linha divisória entre problemas patológicos e não patológicos não é simples. Mais do que uma divisão binária entre o que é e não é doença mental, o que existe é um espectro com muitas tonalidades. O quadro da saúde mental no Brasil é preocupante. Na última década, temos nos destacado entre os países em pior situação em termos de número de casos de vários tipos de transtorno – figurando até, em certas pesquisas, como “o pior do mundo”.

Diante do tamanho e da complexidade dos desafios, como você avalia os modelos terapêuticos mais utilizados atualmente para lidar com transtornos mentais?
O campo da saúde mental em geral e o da psiquiatria em particular estão num momento de transição. Nos anos 1970 e 1980 houve muita empolgação com a chegada de novos fármacos. Isso que hoje parece normal, a existência de centenas de medicamentos psiquiátricos, é coisa dos últimos cinquenta anos. Antes, praticamente não existiam drogas psiquiátricas, e os pacientes, quando eram tratados, faziam psicoterapia, psicanálise ou outros tipos de terapias verbais, comportamentais ou envolvendo técnicas como banhos relaxantes. Não havia os chamados “psicofármacos”, moléculas que atuam no funcionamento do sistema nervoso.

Quando essas drogas começaram a chegar, em meados do século 20, a abordagem médica foi se afastando da psicologia, da psicanálise, da visão social e humanística, e passou a buscar se constituir como uma ciência biológica do cérebro. Hoje, os resultados desse processo são variados e controversos. Os psicofármacos funcionam para milhões de pessoas, mas não funcionam extremamente bem, falham para outros milhões de pessoas – 15%, 20% ou 50% dos pacientes, dependendo da droga e do transtorno – e têm muitos efeitos adversos. São bastante comuns relatos como “desde que estou tomando antidepressivo, nem sei dizer se melhorei muito da depressão, mas minha libido foi para o chão”. Há pesquisas muito robustas mostrando que a psiquiatria é a área da medicina na qual os medicamentos mais produzem efeitos adversos, chegando ao dobro dos registrados na neurologia. A lógica de buscar o produto, a pílula, que só precisamos engolir para resolver o problema combina com a cultura consumista na qual estamos mergulhados. As evidências indicam que pendemos excessivamente para uma abordagem biofarmacológica e que devemos procurar um equilíbrio com perspectivas subjetivas e sociais.

O que as terapias com psicodélicos trazem de novo? Qual é o potencial dessa abordagem nesses contextos que você descreve?
É quase como recomeçar do zero. Não no sentido de desprezar conhecimento acumulado. Sabe-se muita coisa sobre doenças mentais e formas de tratamento, mas a forma com que conhecimentos e instrumentos são usados e articulados nas chamadas “psicoterapias assistidas por psicodélicos” é completamente diferente. O modo como as substâncias são usadas e os objetivos almejados são muito diferentes: sempre em sessões de psicoterapia, entre duas e seis vezes ao longo de alguns meses – período que, na prática clínica, pode se estender, em alguns casos, a um ou dois anos. Cada sessão de psicoterapia com uso de psicodélicos é uma experiência de vida, uma vivência psíquica que envolve todo o organismo, corpo e mente. São experiências intensas, frequentemente com riso, choro, emergência de memórias, visões… que comumente são lembradas em detalhe e classificadas pelos pacientes entre as mais significativas da vida, mesmo vários anos depois. As pessoas muitas vezes reconhecem a importância de um tratamento bastante tempo depois de tê-lo feito, seja ele químico, psicológico ou psicanalítico, mas é bem rara a lembrança tão vívida e detalhada de momentos de insight, reconhecidos como transformadores. Por décadas, os psicodélicos foram deixados de lado como instrumentos terapêuticos, e isso não decorreu da falta de evidências do potencial deles, mas do fato de serem substâncias que atuam de modo diferente do que é ensinado e aprendido na formação médica e terapêutica da grande maioria dos profissionais. E o fator formação é muito importante mesmo. Aplicar modelos de psicoterapia com psicodélicos exige preparo, não se trata de dar a substância para o paciente e ficar olhando o que acontece. É um processo inter-relacional estruturado, com etapas definidas, o que exige estudo, treino e dedicação.

Psicodélicos também são chamados de alucinógenos, e seus efeitos imediatos, incluindo visões extraordinárias e estados emocionais intensos, podem se assemelhar a sintomas de doenças mentais. Essas semelhanças explicam parte da resistência ao uso terapêutico dessas substâncias?
Um dos grandes desafios é difundir a compreensão dos efeitos dessas substâncias, superando preconceitos e visões distorcidas. Antes de serem chamadas de psicodélicas, elas foram categorizadas como, por “imitarem a psicose”. Algumas das primeiras descrições médicas dos efeitos dos psicodélicos chegam a lembrar, pelo teor preconceituoso e alarmista, antigas descrições de rituais indígenas feitas por missionários religiosos europeus. Além dos preconceitos presentes na formação acadêmica tradicional, há o “viés de amostragem”. Na experiência clínica, psicólogos, clínicos gerais e psiquiatras tendem a só ter contato com o assunto das drogas ilícitas por meio de pacientes que estão com problemas com essas substâncias. Equivocadamente, muitos acham que essa amostragem representa o universo dos usuários. Mas as pesquisas epidemiológicas mostram que não representa.

A maioria dos consumidores de drogas ilícitas não desenvolve usos problemáticos?
A imensa maioria dos usuários nunca chega ao consultório para falar sobre o assunto porque não precisa – são pessoas que, tendo boas ou más experiências, encontram sua forma de lidar com essas substâncias, usam só em alguns períodos da vida, aprendem a moderar o uso e tendem a reduzi-lo ao ficarem mais velhas. Os mesmos profissionais de saúde, por sua formação e prática clínica, tendem a identificar estados alterados – ou “não ordinários” – de consciência com surtos psicóticos, ataques de pânico, crises alucinatórias… Deixam assim de considerar que a produção proposital desses estados – socialmente estimulada e valorizada – está presente em todas as culturas, com ou sem consumo de drogas, e que esses estados podem ter muitos outros sentidos e funções, inclusive curativos. Um desses estados, conhecido como overview effect, é descrito por astronautas que viram a Terra do espaço. Parece que nosso ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações [Marcos Cesar Pontes], infelizmente, não teve essa experiência. Talvez o setor estivesse hoje numa melhor situação caso ele tivesse acessado esse estado de consciência.

Como exemplo de psicoterapia assistida por psicodélico, pode descrever o protocolo para tratamento de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) que você testou no Brasil?
Esses protocolos se baseiam na integração de componentes que, nas abordagens médicas e terapêuticas tradicionais, seguem uma concepção dualista que separa doenças cerebrais e psíquicas, tratamento do cérebro e da mente, um profissional que medica e outro que escuta e conversa. A terapia com MDMA para TEPT desenvolvida pela ONG estadunidense MAPS foi pioneira mundial na psicoterapia assistida por psicodélico, abordagem que hoje é a mais avançada, testada e bem estruturada. Esse protocolo terapêutico, que está em fase final de aprovação pelo FDA, a Anvisa dos Estados Unidos, dura de três a quatro meses. Primeiro o paciente faz três consultas preparatórias de uma hora e meia cada, sem o psicodélico, para falar do trauma e de sua vida e também para ser informado e tirar todas as dúvidas que tiver sobre a própria terapia, para conhecer os terapeutas e constituir laços de confiança com eles. Depois dessa preparação, acontece a primeira sessão com psicodélico: uma dose de MDMA (de baixa a média), para que o paciente entre em contato com a substância e tenha uma experiência que não o assuste – o que não impede que, para vários pacientes, já seja uma sessão bastante significativa. As sessões com o psicodélico duram oito horas, com música e acompanhamento constante de dois terapeutas.

Há muita conversa nas sessões com o psicodélico?
A tendência é de mais introspecção na primeira metade da sessão e mais conversa na segunda, mas isso varia muito. Em seguida fazemos três consultas integrativas de uma hora e meia, sem psicodélico, para conversar sobre as vivências do paciente durante a sessão com MDMA e depois dela. Para a segunda sessão com o psicodélico, o paciente decide com os terapeutas se a dose da substância será ou não aumentada. Depois dessa sessão, há mais três consultas integrativas, uma terceira sessão com psicodélico e as três consultas integrativas finais. No total são quinze sessões de psicoterapia, sendo três de dia inteiro, com MDMA, que eu chamo de “cirurgias psiquiátricas” por conta da intensidade do processo e da dedicação que ele requer dos terapeutas.

O psicodélico reduz as respostas cerebrais de defesa e medo, facilita o acesso em estado normal a memórias reprimidas ou muito dolorosas e permite que o paciente enxergue sua história e seu trauma de perspectivas novas. É um processo intenso, íntimo e trabalhoso, que requer estrutura e muito preparo para ser feito com segurança e dar bons resultados.

Esse é um protocolo de pesquisa, certo? Uma vez aprovado o uso do psicodélico para esse tipo de tratamento, a prática clínica poderá ser mais flexível?
Exatamente. Pesquisas, testes clínicos e processos de avaliação e aprovação por órgãos como o FDA exigem protocolos rígidos, iguais para todos os pacientes. Na prática clínica, alguns pacientes só precisarão de uma sessão com psicodélico e outros poderão se beneficiar mais com tratamentos um pouco mais prolongados. Também já estão sendo desenvolvidos e testados modelos com diferentes métodos de psicoterapia.

Quais têm sido os resultados desse protocolo com MDMA? Os efeitos benéficos se mantêm com o passar do tempo? As outras terapias com psicodélicos que estão sendo testadas têm obtido resultados semelhantes?
Há uma visão de que o MDMA produz uma euforia que mascara o trauma e que esse efeito teria curta duração. Há casos de uso de psicodélicos fora de enquadramentos terapêuticos, sobretudo de cunho religioso, ritualístico, como a ayahuasca, que mudam a vida das pessoas mas, na maioria das vezes, especialmente no uso recreativo, não têm efeitos tão duradouros. No caso do protocolo terapêutico que descrevi, as pesquisas vêm mostrando que dois terços dos pacientes têm ganhos robustos e prolongados. Um estudo da MAPS mostra que, um ano e meio depois da terapia, aumenta o número de pacientes cuja vida melhora muito e chega a superar esses dois terços.

Acompanhados por até cinco anos, esses pacientes que sofriam de quadros graves de TEPT mantêm os ganhos e não voltam a precisar de remédios nem de muita psicoterapia adicional. Protocolos de tratamento com psilocibina para depressão, por exemplo, vêm registrando resultados similares: cerca de dois terços com ganhos muito importantes e um terço com benefícios moderados. A diferença é que, no caso da psilocibina, os ganhos de longo prazo ainda não foram tão bem demonstrados. Mas é preciso considerar que são protocolos em estágio menos avançado de desenvolvimento que o da MAPS com o MDMA.

É realista prever que essas terapias serão acessíveis para a maioria e oferecidas pelo Sistema Único de Saúde, o SUS?
Devemos buscar esse objetivo, já que a maioria dos brasileiros só poderá ter acesso pelo sistema público. O SUS é provavelmente o maior sistema de saúde do mundo, mas vem passando por anos de sucateamento e sabotagem mesmo, o que é bem triste e preocupante. No Brasil, o investimento em ciência, pesquisa e desenvolvimento também só vem diminuindo. Não seria realista imaginar que as primeiras clínicas psicodélicas estarão no SUS. Mas não tenho dúvida de que será importante levar essas terapias para o sistema público de saúde.

Flavio Lobo é jornalista, assessor e consultor de Comunicação. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

Este texto é parte da edição 276 da Revista Cult — parceira editorial de Outras Palavras. O número tem como destaque o dossiê No Rastro da Angústia. 

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