Especiais - Che Guevara, 1928-1967

Che Guevara nas trilhas da revolução latino-americana

Augusto C. Buonicore Publicado em 02.10.2017

No dia 9 de outubro se completam 50 anos da morte do comandante Ernesto Che Guevara. Tombou no seu posto de combate pela libertação econômica, política e social da América Latina. Mas quem foi Che Guevara? Qual sua contribuição à causa socialista? Tentaremos, sem grandes pretensões, encontrar algumas dessas respostas neste artigo.

CONFIRA O ESPECIAL: CHE GUEVARA, 1928-1967

“Outra vez sob meus calcanhares o lombo de Rocinante, retomo o caminho com meu escudo no braço (...). Muitos dirão que sou aventureiro, eu sou de fato, só que de um tipo diferente, daqueles que entregam a pele para demonstrar suas verdades”. (Che Guevara)

 

No dia 9 de outubro se completam 50 anos da morte do comandante Ernesto Che Guevara. Tombou no seu posto de combate pela libertação econômica, política e social da América Latina. Mas quem foi Che Guevara? Qual sua contribuição à causa socialista? Tentaremos, sem grandes pretensões, encontrar algumas dessas respostas neste artigo.

Nas décadas que se seguiram à sua trágica morte na Bolívia, Che foi perdendo sua substância e se transformando num ícone; na verdade, um dos maiores ícones da segunda metade do século 20. Seu rosto de guerrilheiro altivo foi estampado em camisetas, cartazes e pichações por todo o mundo. Se existe um lado positivo neste fenômeno, pois mantém viva a imagem de um dos maiores heróis latino-americanos, o outro lado acaba acobertando as ideias e o projeto político pelo qual Guevara viveu e morreu: a libertação da América Latina do jugo imperialista, a conquista do socialismo e a construção do homem e da mulher novos.

O sistema capitalista tem uma incrível capacidade de incorporar alguns elementos da cultura alternativa, até mesmo revolucionária, e transformá-los em objetos de mercado, formas sem conteúdo, neutras, inofensivas. No entanto, a personalidade forte de Che não pode ser presa, capturada, na camisa de força do ícone, da marca, do mito.

Por isso, para compreender o verdadeiro Che, é preciso ir para além do ícone, da marca e do mito. Estes não têm sangue correndo nas veias, não são de carne e osso, não sentem fome ou frio. Eles não têm dúvidas ou medos, são fantasmas que não convivem com as malditas contradições cotidianas. Ao contrário dos ícones, os homens e mulheres de verdade, inclusive os mais revolucionários deles, padecem de todas essas vicissitudes humanas; e Che foi, acima de tudo, um homem. Um homem do seu tempo.

 

O homem e seu destino

Ernesto Guevara de la Serna nasceu em 14 de junho de 1928 na Argentina. Filho de família de pequenos produtores de erva-mate, cresceu usufruindo a vida de um membro das classes médias sul-americanas. Desde muito cedo, sofreu com os seus problemas de saúde. Aos dois anos apareceu-lhe a asma, que o acompanhou, como um fantasma, durante toda a sua vida, inclusive nos seus derradeiros dias em terras bolivianas.

Ironicamente, aquele que seria considerado o mais temido comandante guerrilheiro, foi declarado inapto para o serviço militar no seu próprio país. Guevara, então, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires.

A doença, no entanto, não enfraqueceu o seu espírito indomável; pelo contrário, ela o impulsionou a ultrapassar todos os limites. Com 23 anos comprou uma motocicleta e, ao lado de um amigo, percorreu diversos países da América Latina. Em 1953 se formou em medicina e partiu novamente em outra aventura para conhecer mais e melhor o seu sofrido continente. Passou pela Bolívia e depois seguiu para a Guatemala, onde havia um governo democrático e popular, dirigido por Jacobo Arbenz. Este havia expropriado as terras da poderosa empresa estadunidense United Fruit. Nesta ocasião Guevara comprou alguns livros marxistas e passou a estudá-los com afinco.

O jovem Guevara, que apoiava o governo, se alistou para trabalhar num programa de saúde entre a população indígena, mas foi obrigado a ficar num posto médico na capital guatemalteca. Em 18 de junho de 1954 o presidente Arbens foi derrubado do poder por mercenários apoiados pelos EUA. Guevara tentou organizar um grupo de jovens para resistir ao golpe reacionário. Afirmaria mais tarde: “Na Guatemala era necessário lutar, porém quase ninguém lutou.”. 

O jovem médico argentino, fichado como “perigoso comunista”, foi incluído nas temidas “listas negras” dos condenados à morte, e obrigado a se refugiar no consulado argentino. O novo governo conservador, servilmente, devolveu as terras nacionalizadas à United Fruit, retirou os direitos trabalhistas dos camponeses pobres, prendeu, torturou e assassinou vários militantes de esquerda.

Guevara extraiu deste trágico acontecimento as suas primeiras – e inesquecíveis – lições sobre a luta de libertação na América Latina. Ele concluiu que: 1º o imperialismo estadunidense era o principal inimigo dos povos; 2º a luta revolucionária seria o único meio para se conquistar um poder popular e socialista; 3º as burguesias nacionais haviam esgotado o seu papel na luta revolucionária anti-imperialista no continente.

Ele passou dois meses asilado no consulado, e então seguiu com outros refugiados para o México. Ali entrou em contato com elementos da oposição cubana, ligados ao movimento “26 de julho”, que o convidaram para participar dos planos para derrubada do ditador Fulgêncio Batista. Escreveu Che: “Falei com Fidel uma noite toda. E ao amanhecer já era o médico de sua futura expedição. Na realidade, depois de minhas caminhadas por toda a América Latina e do arremate na Guatemala, não era necessário muito para incitar-me a entrar em qualquer revolução contra um tirano.”. Amarrava-se assim o destino do jovem médico argentino ao da Revolução Cubana.

Depois de um ano de preparativos, em novembro de 1956, 82 homens partiram em direção a Cuba a bordo do Granma. Antes de chegar ao seu objetivo, a expedição foi descoberta pelas forças armadas do ditador cubano e, após duros combates, ficou reduzida a apenas 15 homens, que se refugiaram em Sierra Maestra. Os poucos sobreviventes uniram-se aos camponeses pobres. Estes lhes serviram de base de apoio social para o início da ação guerrilheira. Em pouco tempo Che assumiu o comando da 2ª coluna de guerrilheiros. No dia 1º de janeiro de 1959 as suas tropas conquistaram a cidade de Santa Clara e o ditador Batista fugiu de Cuba. Três dias depois, os “barbudos” de Fidel entraram triunfantes em Havana e Guevara foi nomeado governador militar daquela província.

A revolução vitoriosa foi profundamente popular, assentada nos camponeses e nos trabalhadores urbanos, e cumpriu todos os seus compromissos. O governo revolucionário expropriou os latifúndios, muito deles pertencentes a companhias estadunidenses. Quando as refinarias estrangeiras localizadas em Cuba se recusaram a refinar petróleo vindo da URSS, o governo as nacionalizou. Em represália, Washington suspendeu a compra de açúcar, visando a sufocar a economia da ilha. A cada pressão do imperialismo, o governo cubano radicalizava ainda mais as suas posições nacionalistas. A revolução foi rapidamente mudando seu caráter, de nacional-democrática passou a ser socialista.

Em abril de 1961 ocorreu a tentativa de invasão de Cuba por mercenários, pagos e apoiados pela CIA, na Baía dos Porcos. As tropas invasoras foram destroçadas em poucas horas. Fidel rompeu definitivamente com os Estados Unidos e se afirmou marxista-leninista.

Ainda neste ano Che representou Cuba na reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), ocorrida no Uruguai e convocada especialmente para condenar o novo regime cubano e excluí-lo da organização. Neste conclave Guevara denunciou firmemente os planos do imperialismo contra Cuba e defendeu o governo de Fidel da acusação de estar tentando exportar a revolução aos demais países da América Latina. Declarou ele: “Não podemos deixar de exportar exemplos, como querem os Estados Unidos, porque o exemplo é algo espiritual que ultrapassa as fronteiras. O que damos de garantia é que não exportaremos a revolução, damos a garantia de que não se moverá um fuzil de Cuba, que não se moverá uma só arma de Cuba, para luta em nenhum outro país da América.”.Continuou ele: “O que não podemos assegurar é que as ideias de Cuba deixem de implantar-se em algum outro país da América. O que asseguramos a esta Conferência é que, se não se tomarem medidas urgentes de prevenção social, o exemplo cubano penetrará nos povos e, então, aquela exclamação de Fidel em 26 de julho e que foi interpretada como uma agressão, se tornará uma realidade. Fidel disse que se mantiveram as atuais condições sociais ‘a cordilheira dos Andes será a Sierra Maestra da América’.”.

Na volta, Guevara passou pelo Brasil e foi condecorado por Jânio Quadros. Poucos dias depois, sob forte pressão da direita, o polêmico presidente brasileiro renunciaria, abrindo uma crise política e militar que conduziu o país à beira de uma guerra civil. 

Em outubro de 1962, aconteceu uma nova crise com os EUA. O governo daquele país descobriu que Cuba possuía mísseis nucleares e passou a exigir que fossem imediatamente desmontados. Houve, então, uma nova ameaça de invasão militar e o mundo chegou bastante próximo de uma guerra nuclear. Os soviéticos recuaram e, unilateralmente, sem acordo com os cubanos, decidiram retirar os mísseis da ilha. Fidel e Guevara sentiram-se traídos pelos russos.

Em 1961 Guevara foi indicado para ministro da Indústria. Defendeu uma industrialização mais rápida e a centralização maior da economia. Por suas posições entrou em conflito com os soviéticos que defendiam uma Cuba nãoindustrial, concentrada na produção de açúcar – numa espécie de divisão internacional do trabalho “socialista”. Polemizou também em torno da predominância de incentivos materiais para o aumento da produtividade do trabalho e advogou a necessidade de uma emulação assentada fundamentalmente na ideologia socialista. Como ministro, Guevara visitava as fábricas e os canaviais e participava dos trabalhos manuais. Ele foi o principal incentivador do trabalho voluntário na produção, seguindo exemplo dos primeiros anos da revolução soviética. Os membros dos ministérios e das universidades, uma vez por semana, ajudavam no corte de cana ou exerciam outro tipo de trabalho manual e produtivo. À frente deste esforço estava o ministro da Indústria e presidente do Banco de Cuba, Ernesto Che Guevara.

Guevara valorizava muito o aspecto ideológico também na construção do chamado “homem novo”, ou seja, de um novo humanismo socialista. No artigo O que deve ser um jovem comunista, escreveu ele: “o que se coloca para todo jovem comunista é ser essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime do melhor dos humanos. Purificar o melhor do homem através do trabalho, do estudo, da prática da solidariedade contínua com o povo e com todos os povos do mundo; desenvolver o máximo de sensibilidade, até o ponto de sentir-se angustiado quando em algum canto do mundo um homem é assassinado e até o ponto de sentir-se entusiasmado quando em algum canto do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade.”.

 

Outras serras, outras trincheiras 

No entanto, Che não se adaptou bem à função de ministro e acabou pedindo para ser substituído no cargo. A partir de 1964 tornou-se uma espécie de relações exteriores da Revolução Cubana, viajando para vários países da América Latina, África e Ásia. Em 1965, misteriosamente, desapareceu da vida pública e renunciou a todas as suas responsabilidades junto ao governo e à direção do Partido Comunista Cubano. Isto era necessário tendo em vista o novo projeto revolucionário em que ele iria se envolver.

Na sua carta de despedida a Fidel escreveu: “Outras serras do mundo requerem meus modestos esforços. Eu posso fazer aquilo que lhe é vedado devido à sua responsabilidade à frente de Cuba, e chegou a hora de nos separarmos (...). Declaro uma vez mais que eximo Cuba de qualquer responsabilidade, a não ser aquela que provém do seu exemplo. Se minha hora final me encontrar debaixo de outros céus, meu último pensamento será para o povo e especialmente para ti, que te digo obrigado pelos teus ensinamentos e pelo teu exemplo, ao que tentarei ser fiel até às últimas consequências dos meus atos; que estive sempre identificado com a política externa da nossa revolução, e continuo a estar; que onde quer que me detenha sentirei a responsabilidade de ser revolucionário cubano, e como tal atuarei. Não lamento por nada deixar nada material para minha mulher e meus filhos. Estou feliz que seja assim. Nada peço para eles, pois o Estado os proverá com o suficiente para viver e para ter instrução.”. Esta carta é um veemente desmentido aos boatos que correram o mundo – e foram usados pelos inimigos da revolução cubana – sobre um possível rompimento nas relações entre esses dois grandes revolucionários.  

Depois de participar de uma frustrada tentativa revolucionária no Congo, Che partiu secretamente para a Bolívia. Este país foi escolhido por sua localização central, que, acreditava ele, permitiria estender o movimento guerrilheiro por todo o continente latino-americano. Em março de 1967 o pequeno grupo armado comandado por Che foi descoberto pelos órgãos de repressão. Num primeiro momento ele obteve algumas vitórias sobre o desorganizado exército boliviano, mas logo entraram em ação os “rangers”, treinados pelos norte-americanos no Panamá, com o apoio de um “técnico” da CIA.

A experiência da guerrilha boliviana revelou os equívocos de muitas das concepções político-militares defendidas pelo revolucionário cubano, entre elas: a afirmação de que já existiriam as condições objetivas para eclosão de uma revolução socialista em toda a América Latina, cabendo apenas a ação enérgica de um pequeno grupo de revolucionários para que se constituíssem as condições subjetivas. 

No início de outubro eram apenas 17 os guerrilheiros que permaneciam vivos ao lado de Che – um número maior do que o que se alojou na Sierra Maestra em 1956 –, mas as condições eram-lhes completamente adversas. A guerrilha atuou numa zona hostil, em condições bastante diferentes das existentes na serras cubanas. Os camponeses compunham uma massa ainda atrasada e que não tinham a tradição revolucionária. A principal força social de esquerda na Bolívia, os mineiros, havia sido esmagada pelo governo em junho de 1967. Esta era uma prova de que as revoluções não podiam ser copiadas.

Nos seus últimos dias, Guevara escreveu no seu diário: “Dia de angústia que em certo momento pareceu ser o nosso último dia. (...) o exército está mostrando maior efetividade de ação, e a massa camponesa não nos ajuda em nada e se converte em delatores.”. Estes eram claros sinais de que uma tragédia estava prestes a ocorrer. A situação exigia recuo, mas já era tarde demais.

No dia 8 de outubro de 1967 o pequeno grupo foi cercado e massacrado. Che acabou sendo ferido e depois preso. No dia seguinte seria executado ilegalmente por ordens do governo do general Barrientos, temeroso de que um julgamento público pudesse se transformar num palanque para as ideias revolucionárias de Che. O corpo do comandante guerrilheiro foi enterrado clandestinamente e por mais de 30 anos o local permaneceu em segredo.

Sobre o trágico desaparecimento de Che e as esperanças que ele semeou, cantou o poeta e compositor cubano Pablo Milanés: “Não porque caístes/ Tua luz é menos alta./ Um cavalo de fogo/ Sustenta a tua escultura guerrilheira/ Entre o vento e as nuvens destas serras./ Não porque foi calado és silêncio/ E não porque te queimaram,/ Porque te dissimularam sobre a terra,/ Porque te esconderam/ Em cemitérios, bosques e pântanos/ Vão impedir que te encontremos./ Che comandante, amigo.”. E por todos os rincões de nossa América os trabalhadores respondem: presente!

 

* A primeira versão deste artigo foi publicada na revista Juventude.br, nº 4, de dezembro de 2007. 

** Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi.

 

Bibliografia

 

AQUINO, RUBIM et alii. História das Sociedades Americanas. Rio de Janeiro: Eu e você, 1981.

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

HARNECKER, Marta. Fidel, a estratégia política da vitória. São Paulo: Expressão Popular, 2000.

SADER, Eder (org.). Che Guevara. Coleção Grandes Cientistas sociais. São Paulo: Ática, 1988.