Carapuças para ela e eu

Grãos, botões, gotas, gravetos, pedregulhos

e estrelas pontilhando suas vontades no escuro.

Coisas que o chão e o céu conversam naturalmente.

Nas miudezas, nas migalhas vivem a fome dos passarinhos

e as lembranças dos insetos.

As formigas memorizam-se em formigas todos os dias.

O corpo delas calça o chão, aceita as folhas,

Sobe e desce os troncos das árvores.

Porque vegetam no minério das raízes.

Nada as gotas do orvalho.

Porque a água incorpora umedecimentos.

E eu me lembro de que nem me lembro de ser, apenas ser.

Ou de estar, apenas estar.

Ela se perde entre as palavras,

lugar em que os poemas se encontram, brilham asas.

Ela está por lá (e os poemas sempre por aqui).

Presa do lado de fora vestida em blusa de listra.

E eu vestida por estas vírgulas.

 


Marta Eugênia
Professora de Língua Portuguesa
http://eugenico.blogspot.com/