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Lécio: fim da crise depende de solução para endividamento dos EUA

Cezar Xavier Publicado em 06.08.2019

O 6o. colóquio realizado pela Fundação Maurício Grabois, na sede do PCdoB, em São Paulo, no dia 23 de julho, terça-feira, perguntou: A grande crise de 2008 foi superada? Os economistas e estudiosos que debateram o tema foram Nilson Araújo, Renildo Souza, Lécio Morais e A. Sérgio Barroso.

Lécio Morais, assessor econômico da bancada do PCdoB no Foto: Cezar Xavier

O comentário de Lécio, assessor econômico da bancada do PCdoB, no Congresso Nacional, procurou demonstrar como a globalização financeira, criada para possibilitar o livre fluxo cambial pelo mundo, se tornou uma teia de capitais fictícios impossível de se desvencilhar. O esforço norte-americano pela flutuação cambial em todo o mundo acabou tornando a grande potência no maior devedor líquido do mundo, um fenômeno inédito na história econômica. A implosão da bolha hipotecária daquele país só agravou ainda mais a situação, aumentando a quantia de títulos podres nas mãos do tesouro americano. Deste modo, todas as soluções pacíficas para a crise afetariam profundamente a economia daquele país. Lécio sugere que, a depender do dólar, qualquer solução para essa crise prolongada terá que favorecer os EUA, não pondo em risco de colapso aquela economia, em favor de outras potências. 

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Leia a íntegra do comentário de Lécio:

 

 

Crise contra riqueza

 

 
(Foto: Cezar Xavier

 

O capitalismo tem uma vantagem imensa de ser considerado  o sistema mais eficiente na criação de riquezas. Esta tem sido a qualidade que ele usa desde longínquas épocas para se tornar o monopólio de criação de riquezas.

 

 

O problema são as crises cíclicas. A crise relativiza essa qualidade do capitalismo de ter para si o monopólio da produção de riqueza. Portanto, a questão da crise é fundamental para compreender o capitalismo.

 

 

A causa da crise é uma dedução, uma conjectura do Marx que fala em superacumulação e superprodução. É um raciocínio que retroage, pois em toda crise existe destruição de capital. Depois da destruição, o capitalismo volta a crescer. Então, esta é a solução para a superacumulação.

 

 

Existe um problema na taxa de lucro, no qual temos que nos fixar.

 

 

Marx não conseguiu fazer o raciocínio completo, portanto Engels acabou completando a formulação do texto da tendência da queda na taxa de lucros com todos os problemas que conhecemos.

 

 

Papel do estado na crise

 

O papel do estado no dinamismo do sistema capitalista, tem três coisas e que o estado entra: o capital como consumidor de riqueza, que age sem precisar ser capitalista. Ele não precisa vender e ter lucro pra poder acumular. Ele simplesmente tira pela tributação sem precisar prometer nada pra ninguém.

 

O segundo é o estado como emissor do capital portador de juro, por meio da divida publica. Este é uma intervenção importantíssima na dinâmica do capital.

 

 

O terceiro é o problema das fronteiras nacionais, que fragmentam o sistema capitalista internacional. O capitalismo é realmente internacional, mas é fracionado pelas fronteiras. Para ele se manter coeso, precisa do mecanismo das taxas de câmbio, pois as fronteiras vêm acompanhadas de moedas nacionais. Essa taxa de câmbio tem que equalizar os diversos fatores de produtividade em várias economias. Fica complicado quando as moedas não são conversíveis. As poucas moedas conversíveis são aquelas em que o estado usa sua moeda para comprar lá fora, se endivida lá fora, não precisa comprar moeda de ninguém. E aquelas que não são conversíveis. E para fazer o comércio comum, se manter no sistema capitalista, precisa obter moeda conversível. Precisa exportar e importar e ter um saldo em moeda para poder se financiar no exterior e pagar o seus encargos.

 

 

As travas de Bretton Woods

 

O problema da globalização! O acordo de Bretton Woods fechou as portas, trancafiou o capitalismo internacional. Os mercados financeiros eram muito regulamentados. E o movimento do capital, mesmo quando era livre em partes do centro do capital, estava restrito de várias formas. Quando mudou as condições da dinâmica do mundo, até por problemas geopolíticos norte-americanos, tiveram que fomentar que outros países, seus aliados pudessem crescer e facilitar para que pudessem exportar para os EUA. No final, resumindo, perderam produtividade e capacidade de concorrer com seus próprios aliados que foram incentivados, especialmente Japão, Coreia, toda a Europa Ocidental.

 

 

Isso fez com que nos locais onde as taxas de lucro eram maiores, os capitais americanos não podiam ir. Ao final dos trinta anos, parte da Ásia estava ascendendo e os capitais americanos e europeus não podiam ir pra lá. Era tudo muito preso. Então, quando quebrou Bretton Woods, o dólar flutuou, agora tem taxa de câmbio para equalizar. Tem que ter taxa de juros pra equalizar por cima a capacidade de produzir e sacar contra o futuro, o que o capitalismo faz com o crédito bancário. Isso tudo tinha que fazer uma integração, que o mercado financeiro faz.

 

Globalização financeira

 

 

Toda a questão que se coloca sobre o mercado financeiro, no caso da globalização, o próprio sistema financeiro é produto e razão disso. Por isso que ele se agigantou tanto. Com a globalização, foi grande o esforço dos EUA e seus aliados maiores para que houvesse taxa de câmbio livre em todo o mundo. Desmontar mercados financeiros internos em todo esses países. O que aconteceu não foi apenas capitais indo para a periferia, mas indo e tendo que ter taxa de câmbio, mercado financeiro interno, para que lá eles pudessem montar suas cadeias de produção. Isso foi um esforço tremendo.

 

 

E as taxas de câmbio e juros que exprimem a taxa de lucro é uma coisa construída sobre milhões e milhões de operações recorrentes. Não tem uma caneta para fazer isso. Esse é o gigantismo. Por conta disso, é claro, existe uma especulação. Porque também se não especular, não consegue se formar preços. É o preço que se paga pela a formação de preços. Inclusive da taxa de juros e da taxa de cambio espalhada por todo canto.

 

 

Inclusive tem o problema da integração dos grandes capitais financeiros que tiveram que se integrar. Integrar Nova York com a City Londres é um enorme desafio para evitar que desníveis criassem fluxos violentos de um lugar para o outro, indo e voltando. Foi um grande empreendimento.

 

 

Boa parte do volume de riqueza que circula no mercado financeiro mundial, é uma riqueza que também se acumula de uma forma recorrente, que soma-se ela com ela mesmo. Então, quando você espreme, ela reduz bastante, porque tudo é ativo e passivo. Os derivativos são isso. Ninguém pode impedir que um agente de mercado diga que vai fazer uma operação de swap sobre determinada operação de empréstimo e só daqui a um ano você pode fazer uma escolha: você me paga em dólares ou euros. Depois de um ano, o devedor quando chega no pagamento vai escolher. Isso é uma operação de swap, isso é uma operação que é um seguro. Quem está fazendo que está comprando, quem garante isso no final, é porque o sujeito que ofereceu este swap está fazendo um swap contrário do outro, de forma que aquilo vai se anular. Boa parte do crescimento de preço de bolsa de título não precisa de dinheiro, o valor cresce no dia-a-dia, nas cotações, nas operações de implantação. A bolsa de valores de Nova York está valendo quatro vezes mais do que valia naquela época (De 7 mil para 27 mil pontos). Isso significa que houve tanto dinheiro para emitir? Não. Elas simplesmente incharam. Não monetiza, pois ninguém está vendendo as ações. Se todo mundo vender todas aquelas ações, os US$ 27 trilhões, vai dar alguns trilhões no final, pois, naturalmente, o preço desaba e toda a espuma desaparece.

 

 

Deslocamento produtivo

 

 

Existiu realmente superprodução nesse ciclo da globalização? Tem muita estatística medindo isso, mas seguramente que houve. Aliás, houve duas ondas de grande explosão de acumulação. Uma onda dos 1980 até o final dos 1990, impulsionada pela terceira revolução, a cibernética, as patentes em novas áreas e tecnologias e materiais, quando a física colaborou para criar propriedade para o capital. E foi também o momento em que começou a haver um grande deslocamento produtivo. Foi quando toda essa indústria da segunda revolução tecnológica foi se deslocando dos EUA e da Europa para a Ásia, aproveitando-se que existiam mecanismos financeiros e mercados que podiam executar essa transferência de capitais.

 

 

Muitos países foram beneficiados por isso. A Ásia toda. Falar que o neoliberalismo é uma coisa de estagnação não passa de um problema eurocêntrico. Para nós foi um desastre, pois na Ásia houve uma grande abertura de fronteiras do capitalismo. Centenas de milhões de trabalhadores que viviam sob condições tradicionais de campesinato foram proletarizados. Isso abriu um enorme mercado lá dentro.

 

 

Nós que já havíamos atravessado essa fronteira do capitalismo, depois do boom da Segunda Guerra Mundial, quando os nordestinos foram absorvidos em São Paulo, ficamos presos numa pinça. Por um lado, o centro do capitalismo, por outro a Ásia ascendente, fabricando coisas muito baratas. A América Latina levou um ferro danado! Estagnamos. Além de todas as nossas tragédias tupiniquins, como essas taxas de juros inacreditáveis, criados para gerar um mercado financeiro interno, que só agora começou a dar seus primeiros passinhos às custas próprias e não do Estado.

 

A segunda onda foi aquela após a sequência enorme de quebras na periferia por questões de taxas de câmbios. Foram mais de 20 países, alguns deles, como Brasil, a Argentina e o México, quebraram duas vezes. Não existiam condições de haver taxas de câmbios livres e flutuantes. Foram substituídos na marra e todo mundo quebrou. A moeda interna se valorizava, comprava tudo lá fora, se endividava enormemente, mas não crescia dentro e não conseguia exportar para obter divisas para pagar lá fora.

 

 

Segundo Kindleberger, essa fase de 20 anos foi a de maior convulsões que o capitalismo já viveu na história.

 

Toda ela era a expansão da acumulação e o deslocamento produtivo para o leste asiático. No leste asiático muitos quebraram, inclusive a Coreia do Sul. Todos tiveram que ser socorridos. O G7 se reuniu, desde 1995, para tentar resolver o problema, criar mecanismos para resolver o problema, sem muitas chances.

 

 

Resultado, todos esses países entenderam as lições e todos conseguiram controlar suas moedas e criar saldos de balança comercial e criaram suas reservas de dólar. Inclusive o Brasil, o México, a Colômbia e o Chile e todos esses países da Ásia. A Argentina, coitada, não consegue.

 

 

Potência endividada

 

 

Nessa segunda onda de acumulação não houve mais quebras de crises cambiais nos países da periferia. Entrou nessa segunda onda, no centro crescia pouco, porque a onda tecnológica continuava a mesma. Agora, no leste asiático cresceu bastante, com a China passou a ser um motor de crescimento que beneficiou muito a América do Sul e a África. Cresceu todo mundo.

 

 

Então, entra o problema específico que se criou com essa questão das reservas necessárias dos países que têm moedas inconversíveis e o problema da dívida dos EUA. Os países vendem para os EUA, pegam dólares, introjetam os dólares, fazem câmbio em suas moedas nacionais, pegam o dólar e fazem reservas. Mas onde são essas reservas? Emprestam para os EUA.

 

Como os EUA querem continuar sendo a moeda internacional, ele não pode negar de comprar. O resultado é que isso veio acumulando e que em 1980 os EUA já eram o país que tinha a maior dívida do mundo. Em 1993, ele passou a ser um devedor líquido. Toda a posição de dívida, crédito e investimento que os EUA têm no exterior e os estrangeiros detêm nos EUA são negativos. A maior potência hegemônica do mundo, desde 1993, é o maior devedor líquido do mundo, inclusive patrimonialmente. Esta é uma situação bastante estranha.

 

Mark Wolf, em 2007, diz que o grande problema do mundo é o desbalanceio que vem existindo entre as contas correntes entre países superavitários e deficitários, sendo os EUA o país deficitário. A solução seria os EUA comprarem na moeda dos países periféricos. Ninguém precisa acumular dólares.

 

 

É uma circunstância muito específica que diferencia muito essa grande crise por conta dessa circunstância estrutural que não é possível se desvencilhar dela. E ela cresce a cada momento, não tem jeito. Cresce um trilhão por ano. Por isso, a dívida americana que era de R$ 7 tri, antes de 2007, passou para US$ 22 tri. Não só porque ela parte de investimentos, por uma enorme emissão de dinheiro e compras de títulos da dívida americana mas também pelo rebote dos superávits na periferia de volta para os EUA emprestando para ele. Porque ele é o maior devedor do mundo, e é o maior tomador de empréstimo do mundo. Não tem ninguém! Se você não tiver para onde jogar o seu dinheiro, pode emprestar para os EUA que lá eles vão tomar.

 

 

Capital invisível e incalculável

 

A questão de superacumulação em 2008, aconteceu nessas duas ondas, criou-se essa circunstância muito específica que é o deslocamento produtivo. A última vez que isso tinha acontecido foi no final do século XIX, quando o centro produtivo deslocou-se pela primeira vez da Europa, atravessou o Atlântico para os EUA. Naquele tempo, os EUA já tinham uma moeda conversível. A China e outros países do leste asiático passaram a ser o principal centro produtivo do mundo, mas só o Japão tem moeda conversível, mais ninguém, nem a Coreia. Esta é uma situação bastante estranha, que gera muita tensão.

 

 

Não sei se o professor Nilson concorda, mas o problema da quebra do subprime não foi porque os pobres não conseguiram mais pagar as hipotecas, mas porque elas estavam sendo usadas como derivativos para um monte de outras operações que foram distribuídas pelo mundo. O subprime explodiu não só para pegar a população mais pobre, mas porque houve uma re-hipotecação. Todas as hipotecas antigas que existiam, que são contratos individuais específicos, personalizados, difíceis de vender de uma empresa para outra, todos esses contratos que existiam eram securitizados. Ofereciam US$ um mil por mês por uma hipoteca de US$ 50 mil, mas nós vamos te oferecer o seguinte: em vez de US$ um mil, você paga apenas US$ 500 e nós ainda te damos US$ 10 mil e você faz uma hipoteca de US$ 60 mil. Os grandes fundos de investimento estavam comprando adoidado qualquer título de hipoteca, pegando as hipotecas boas, triplo A, e juntando com as podres, que estavam em baixa, e carimbando em cima: triplo A. Aqui tem US$ um milhão triplo A. Ou seja, dívida de alta confiabilidade, alta qualidade. É o que fazia o Morgan Stanley ou qualquer um desses outros. Pegava esse valor e fazia como segurança de um empréstimo que ele ia fazer para outro Sicrano. Se aquilo desse errado, tinha a hipoteca embaixo para preservar o valor que estava devido. Aí que aconteceu o problema: o diabo das hipotecas viraram o mundo e estavam nas carteiras de todo mundo. E ninguém sabia quem estava com esse pepino atrás da operação deles. Não dava mais para confiar em ninguém!

 

 

Quando houve a suspensão do Lehman Brothers, não conseguiu mais pagar, porque o tipo das hipotecas securitizadas que eles tinham, estava vazio. Não tem mais nada, ninguém estava pagando. Então, ele não conseguiu mais pagar suas obrigações, o que dá cadeia. No dia 15 de setembro aconteceu uma coisa incrível: o capitalismo, o mercado financeiro acabou. Zerou! Ninguém comprava de ninguém. Sem comprar, nem vender, não existe capital. Como diz a física, este foi um momento de singularidade. As leis que existiam, naquele dia deixaram de existir. Então, veio o Deus ex machina e deu aquela solução.

 

 

A solução do Banco Central americano e dos outros que o seguiram foi comprar títulos, fazendo leilão só aceitando por o preço que já estava no mercado pré-crise. Quando ele fez isso, ele estava injetando dinheiro, e imediatamente esse dinheiro comprava títulos que o Tesouro americano estava emitindo. Por isso, não houve nenhum dinheiro a mais. Deram trilhões! Já nem sei mais quanto tem. Passaram fazendo isso até 2013. O Banco Central americano, todos os países, passaram rotineiramente a participar do mercado comprando títulos para evitar que caísse o valor do título. Se caísse o valor, subiam os juros e era a depressão. Eles transformam a depressão numa longa estagnação. Esta é a circunstância. Agora, tem o grande problema que está esticando e tensionando, dos países superavitários e do deslocamento produtivo. Um enorme problema.

 

 

E, por fim, a crise realmente está irresoluta. Os EUA melhoraram, desde dezembro de 2013, eles pararam de entrar no mercado. O Banco Central não mais está atuando no mercado comprando. Como se fosse um agente privado qualquer. Parou em dezembro de 2013, mas não conseguem se desvencilhar de sua carteira de três trilhões de dólares de títulos privados que ele não consegue vender de novo no mercado. Porque, se vender, os preços caem e a taxa de juros sobe. Tem duas formas de riqueza, a riqueza do estoque e do fluxo. Se a taxa de juros sobe quem tem fluxo ganha dinheiro, quem tem estoque perde. O que se faz é vender o título de cem dólares e faz-se o leilão. Quem quer receber cem dólares daqui a um ano? Compra por quanto estes cem dólares, esse meu título? Se o sujeito comprar por 90, ele pegou uma taxa de 10%, e vai ganhar dez dólares, se comprar por 99, vai ganhar um dolarzinho. Se o preço do título cai, as taxas de juros sobem. Já está tudo contratado. Isto é uma coisa terrível!

 

 

Aqui no Brasil as coisas são diferentes, porque o ciclo dos papéis é muito pequeno. Se ganhava no juro e no preço do título.

 

Esta é a circunstância que se tem hoje e está sendo difícil de sair. Na Europa, a situação é muito pior. Japão, Coreia, tudo estagnado. E quem está na área desprovida de vantagens, como a América Latina e a África vai continuar nisso aí por um certo tempo, ainda.

 

 


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Economistas investigam porque o capitalismo ainda não superou a crise de 2008